Quando em Maio de 1948 o meu pai rumou a Angola, para aos trinta anos começar uma nova vida em África, muito provavelmente o seu navio cruzou-se com os navios da P&O que já traziam os ingleses da Índia, e que uma qualquer razão tinha-os afastado da rota do Suez.
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Na realidade, a Índia tinha-se tornado independente em Agosto de 1947, inaugurando o processo de descolonização que ia durar até meados dos anos sessenta. E portanto o meu pai estava a ir, quando os outros começavam a voltar.

Três anos antes, em 1945, tinha sido fundada a Organização das Nações Unidas, para impedir a terceira, e verdadeiramente última, guerra mundial, utilizando para tanto um conjunto de instrumentos de onde sobressaia o artigo terceiro, dos oito que a Carta do Atlântico, elaborada pelo Presidente Franklin Roosevelt e pelo Primeiro-Ministro Winston Churchill, no convés do Prince of Wales, na Terra Nova, em Agosto de 1941, continha, artigo esse que registava que todos os povos possuíam o direito a escolher a forma de governo sob que desejavam viver, e sobretudo, que deviam ser restituídos os direitos soberanos e a independência aos povos que deles foram privados pela força.

A promoção inequívoca da descolonização, ficava definitivamente expressa no Artigo 73º da Carta das Nações Unidas, onde as potências administrantes dos territórios colocados sob administração, tinham o dever de desenvolver a sua capacidade de governo próprio. E naquela altura, cerca de um terço da população da humanidade era administrada.

E dez anos depois, quando Portugal finalmente conseguiu aderir à ONU, no final do ano de 1955, a organização logo nos primeiros dias do ano seguinte, fez ao governo português a pergunta que fazia a todos os novos membros:

Queira informar se administra territórios que caiam na categoria identificada no Artigo 73º da Carta.

Portugal demorou oito meses a responder, não por esquecimento, mas a preparar uma resposta definitiva.

E esta, nem por ser falsa, pecava por falta de rigor:

Portugal não administra territórios que pertençam à categoria indicada no Artigo 73º da Carta.

Isento deste problema, espécie de pecado original do colonialismo, em parte devido à censura da informação, um grande número de portugueses continuava a investir o seu futuro no ultramar, nomeadamente por causa das oportunidades de trabalho.

A iniciativa privada permitia excelentes lucros aos fazendeiros que cultivassem a terra, pródiga em café, sisal, algodão, tabaco, açucar, e frutos vários. Nas cidades constituía um ótimo negócio o comércio das célebres lojas africanas, que vendiam tudo o que fosse passível de venda, desde óleo de baleia para iluminação até telescópios, passando por raquetas para andar na neve, a exploração de cafés, restaurantes, pensões e hotéis.

E nos últimos tempos começavam a aparecer cada vez mais, e cada vez mais fortes, os grupos industriais, com interesses nas minas, nas cervejas, pescas, adubos, ou na pecuária e agricultura intensiva.

Já a administração colonial reproduzia nos territórios ultramarinos o mesmo aparelho de estado que existia na Metrópole, mas ali muito maior, e adaptado às características e dimensões dos territórios a administrar.

E aquela vastidão de território e de quadro administrativo, e o número de lugares a preencher, faziam com que o calvário a percorrer ao longo de um abecedário completo, mas invertido, de zê a à, fosse encurtado e suavizado.

Os ordenados conservavam-se parcos como na Metrópole, mas havia estímulos capazes de impulsionar famílias inteiras a estabelecerem-se nos confins de África, na transição entre o asfalto e a terra batida, para levarem a civilização cristã, expressa nos símbolos da soberania, e claro, nos impostos.

A troco de salários indigentes, famílias completas de pai, mãe e uma catrefada de filhos, embrenhavam-se pelo mato adentro, para o pai ser governador de província, administrador de distrito, médico, juiz, veterinário, engenheiro, agrónomo, enfermeiro, e a mãe sempre professora.

Permaneciam anos ali, aproximando-se paulatinamente das cidades à medida que os filhos precisavam de estudar em liceus.

Famílias bíblicas, aglutinadas ao redor do comprimido de quinino ao jantar de quarta-feira, e que compartilhavam tudo com as populações locais, inclusive os comprimidos, que eram distribuídos com prodigalidade pela administração colonial, juntamente com o correio.

Um daqueles estímulos, na forma de benesse, eram as casas.

Enormes, com vários quartos, com corredores amplos, onde se podia andar de bicicleta, e os irmãos mais velhos de lambreta, rodeadas de jardins imensos, em que a passagem para a floresta era feita por vedações impercetíveis feitas de floresta.

E o mais extraordinário é que estas casas traduziam rigorosamente o lugar ocupado pelos seus proprietários, no aparelho administrativo colonial.

Uma maçaneta mais sofisticada numa porta, já estabelecia a diferença.

Mas o melhor mesmo, eram as viagens de licença graciosa, onde de cinco em cinco anos, as famílias dos funcionários ultramarinos vinham de férias à Metrópole.

Noventa dias na Europa, que uma vez devidamente autorizada pelo ministério do ultramar, se podiam estender quase a meio ano.

Naquela altura, as famílias soltas no mato, rumavam ao litoral, juntando-se às que moravam nas cidades como Luanda ou Lourenço Marques, e embarcavam todas no Príncipe Perfeito, no Pátria, no Vera Cruz, no Império, no Infante D. Henrique, e noutros navios da frota, para uma viagem maravilhosa até Lisboa, de tantos dias quanto os seus portos de embarque, em Porto Amélia, Beira, Lourenço Marques, Moçâmedes, Lobito, Luanda, S. Tomé, Sal, e por vezes Açores ou Madeira, distavam da capital do Império.

O mais perfeito estudo sociológico do Império português em África, as características, similitudes e diferenças, podia ter sido feito ali, nos deques impecavelmente limpos da primeira classe, na cavaqueira das espreguiçadeiras, e nas conversas às mesas dos jantares. E a recolha destas, ainda teria vindo com a música do pianista que tocavam enquanto comíamos.

Tanto ao almoço como ao jantar havia duas mesas, com horas diferentes, com a primeira mesa a ser reservada para as crianças e os insociáveis.

E se estes se podiam dar ao luxo de serem sempre insociáveis (contavam-se estórias tenebrosas da sua misantropia), as crianças deixavam de o ser por volta dos catorze, quinze anos, altura em que a menos que passassem de crianças a insociáveis, transitavam para a segunda mesa.

Isto revestia-se de uma cerimónia iniciática, que para muitos rapazes que fizeram aquelas viagens, como eu, constituía em vestir o primeiro casaco e colocar a primeira gravata. Com o nó quase sempre feito à despedida, por um tio mais prestável, mas nem por isso mais habilidoso.

Ainda hoje qualquer bife com batatas fritas e ovo, me sabe à primeira mesa, que era o que eu comia a todas as refeições, deixado ali pela minha mãe aos cuidados de uma legião de empregados, que sabiam melhor do que ninguém o que é que uma criança gosta de comer, e dá menos trabalho a servir.

E até eu transitei para a segunda mesa, vestido com o meu primeiro casaco, feito por medida e para a ocasião por um alfaiate, experiente naqueles protocolos, que me piscou o olho, já que não podia dizer uma única palavra com os lábios atafulhados de alfinetes: com que então, segunda mesa!

Seria a minha última viagem maravilhosa, feita no paquete Império, embarcando em Luanda em dez de Agosto de 1969, para vir para a Europa estudar num colégio interno.

Ao almoço bastava ir bem vestido, mas ao jantar era preciso ir irrepreensível.

Ouvíamos coisas incríveis, passadas na bordadura da floresta do Mayombe, nos terrenos alagadiços das margens do Limpopo, ou nos areais do Namibe.

E era aí que uma senhora podia ficar a saber que na casa de um chefe de posto de Cabo Verde, cuja posição hierárquica era rigorosamente idêntica à do seu marido, e pai dos seus filhos, a banheira tinha mais dois centímetros que a da sua casa.

Descobria-se que numa casa de Tete havia ratos, mas numa de Sá da Bandeira havia cobras. Ou baratas e morcegos, sendo que o dominador comum eram os mosquitos, os quais, lá está, no interior se combatiam com mosquiteiros, e no litoral com pulverizações da TIFA.

Convidávamos os amigos feitos ali, para nos visitarem nas nossas casas na praia de Benguela, e éramos convidados para as roças de S. Tomé.

Os pais conversavam sobre as toneladas colhidas de café, os sobressalentes dos aviões, e os quilómetros de linha férrea assentada.

E se havia a certeza de que aquela viagem encantadora ia acabar em Lisboa, na Gare da Rocha do Conde de Óbidos, também havia a certeza que outras e outras se iam continuar a realizar.

É claro que havia sempre aquele imbróglio do artigo 73º da carta da ONU, mas felizmente aquilo não era connosco.

Recordo com especial afeto um muito distinto, e simultaneamente simples, médico, indiano em qualquer parte do mundo, natural de Goa, português portanto, que quando me atrevi a queixar-me que o tecido das calças me arranhava as pernas, habituadas desde que tinha nascido a calções, me confidenciou os horrores do dinner jacket que usava quando ia aos congressos em Bombaim, e que ele trazia ali consigo a bordo, não fosse deparar-se com alguma inusitada solenidade.

Era conhecido por todos à mesa, pelos que estavam estabelecidos no lado do Índico e até pelos do lado do Atlântico, pelas suas atividades filantrópicas em prol dos seus doentes pobres, e de todas as cores.

Foi sempre extremamente paciente e generoso comigo, com quem compartilhava a paixão pelo Sporting e pelos livros do Tintin.

Já com alguma idade, tinha deixado tudo o que possuía em Goa, até os ossos dos seus entes queridos, aquando da tomada de posse do território por parte da União Indiana, e tinha partido para Moçambique para iniciar uma nova vida.

Encontrei-o anos mais tarde, em finais de 1975, numa esplanada de um café da Avenida de Roma, e tivemos uma imensa alegria comum no encontro.

Recordámos alguns dos melhores pormenores da ligne claire, e concordámos com a debilidade do meio campo do Sporting naquela época.

Depois confessou-me que morava ali perto num apartamento de quarto e sala, e daquela vez não tinha caído na asneira de desfazer as malas. As mesmas que já tinha trazido de Goa.

Esperava que o Bom Deus o chamasse em breve, e achava que não ia precisar de nada do que estava nas malas. Nem do dinner jacket, pressenti, e estive quase a dizer-lhe.

Contámos sumariamente o que é que tinha acontecido a um e ao outro, desde que nos tínhamos separado à mesa do navio, e ele baixando a voz, informou-me que eu continuava com o nó da gravata torto.

Despedimo-nos com a mesmíssima alegria sincera de sempre, e nunca mais o voltei a ver.

Naturalmente que não estava mais novo, e por isso tenho a certeza que hoje está no Céu, levado pelos seus antigos doentes pobres que tratava de graça, e finalmente a salvo das particularidades e vicissitudes da política internacional.

 

Artur Manuel Pires, escrito no dia em que fui à Sociedade de Geografia de Lisboa, assistir a uma conferência do Professor Adriano Moreira sobre os cem anos de Nelson Mandela

 



5 comentários em “O Império a bordo, e a bordo do Império”

  1. LUIS MIGUEL CORREIA diz:

    O Paquete IMPÉRIO era um verdadeiro navio de passageiros colonial, com pedigree aristocrático, nascido na mesma carreira de construção dos estaleiros de Clydebank de onde saiu o QUEEN ELIZABETH de 1940… Cumpriu as suas navegações africanas até 1974 e acabou na ilha Formosa ao lado do seu gémeo PÁTRIA. Conheci bem ambos… Muito interessante o seu artigo e depoimento.

  2. Joaquim Bertão Saltão diz:

    A sua narrativa leva-me aos anos, com óptimas recordações , em que fui oficial piloto do “Vera Cruz”, “Império” e “Príncipe Perfeito” e retracta bem o que se passava a bordo daqueles excelentes navios quando Portugal, ainda tinha Marinha Mercante.
    Há outros episódios que ficaram por contar, uns porque não são oportunos outros por que a decência assim obriga. Há um episódio de uma senhora que queria dar um ar de “tia” e depois de comer os espargos que lhe foram servidos e quando lhe trouxeram o lava-mãos com o respectivo limão a flutuar ela sorveu o conteúdo e disse para o empregado de mesa ser pena que a limonada estivesse quente..

  3. Artur Manuel Pires diz:

    Muito obrigado, pelas suas breves explicações adicionais, tão ao estilo dos celebrados artigos de “Navios do despacho 100”.
    Reiterando os meus agradecimentos, Artur Manuel Pires

  4. Artur Manuel Pires diz:

    Grato pelas suas palavras, Sr. Comandante, e também pelas estórias que fui ouvindo nos nossos encontros, fruto da sua enorme experiência na Marinha.
    Como esta deliciosa que reproduziu agora. E na realidade, acho que está tudo por contar.
    Cordialmente, Artur Manuel Pires

  5. Pedro Noronha diz:

    Gostei muito.
    Engraçado, porque senti saudades de experiências que não vivenciei.
    Quando escolhi ir para a MM, uma das razões foi exactamente ser oficial destes navios de passageiros de carreira, onde em cada viagem se viviam histórias tão ricas em termos humanísticos e comportamentais, e que me iam sendo contadas por familiares próximos que neles viajavam, fosse enquanto passageiros (os tais das licenças graciosas) fosse enquanto oficiais.
    Mas … já cheguei tarde e quando acabei o curso, já a maior parte dos navios tinham sido abatidos e as viagens intercontinentais tinham-se despersonalizado com o advento dos aviões.
    Enfim … em termos profissionais, se calhar, nasci 10 anos tarde de mais.
    Muitos parabéns pelo artigo.
    Pedro de Noronha

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