A primeira semana de Joe Biden na presidência norte-americana, trouxe algumas novidades, para além claro, do alívio pela mudança dos inquilinos da Casa Branca. E uma delas foi a nomeação do Almirante Doug Verissimo como comandante do porta-aviões USS Theodore Roosevelt.
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Nascido em Falmouth, New Bedford, Massachusetts, com uma carreira distinta na US Navy, Verissimo provem de uma família que na transição do século XIX para o XX, se instalou naquela região, oriunda dos Açores, do Pico, das Flores e de S.Miguel.

Outros Verissimos, açorianos, optaram igualmente pelo Novo Mundo, mas escolheram territórios bem mais meridionais, como por exemplo o Rio Grande do Sul, no Brasil, e como por exemplo a família de Erico Verissimo.

Desconhecemos, nem isso é particularmente importante, se existe parentesco entre o grande escritor e o insigne almirante, e até mesmo alguma relação, para além, claro, do nome, que optámos por grafar de forma não acentuada, à maneira do Brasil e dos Estados Unidos.

E o nome não pode ter uma origem melhor. Vem do grande imperador e filósofo Marco Aurélio, o autor de Pensamentos, o livro que muitos séculos mais tarde, Mr. Mohum Biswas, jornalista de Sikkim Street, St.James, Porto of Spain, em Trinidad Tobago, iria ler e reler à exaustão, e que, entre outras coisas, assinala sob o ponto de vista cultural a transição do império romano para a idade média.

Marco Aurélio tinha sido adotado por Antonino–o–Pio, e este por sua vez por Adriano, outro dos mais notáveis imperadores romanos, e que trouxe o jovem oriundo da família dos Vero (verdadeiros) para a sua companhia e influência, e que pouco depois começou a chamar ao mais verdadeiro de todos, Verissimo, tudo isto por volta de 160 dC.

Muitos anos depois, em 1905, a dezassete de dezembro, Erico Verissimo nascia no Rio Grande do Sul, em Cruz Alta, próxima aos pampas gaúchos.

Por volta de 1930, integra aquela que para muitos, inclusive para mim, foi porventura a melhor geração literária do Brasil, onde nomes como Jorge Amado, José Lins do Rego, Raquel de Queiroz, Graciliano Ramos, escreveram o realismo de trinta, ou nordestino, e onde Erico Verissimo tem um lugar de destaque, por três diferentes razões, para além claro da sua imensa qualidade.

Não é nordestino, mas gaúcho, não escreve sobre o sertão, mas sobre as cidades, sobretudo Porto Alegre, e não professa o credo marxista como forma de subtrair o Brasil ao atraso.

Esta última faceta, aliado à profunda paixão pela literatura norte-americana sua contemporânea, que inclusivamente traduziu com profissionalismo, levaram-no a uma posição de quase isolamento na cena cultural, mais do que apenas literária, brasileira, onde as suas posições favoráveis a um reformismo social democrata, ao modelo ocidental, contrastavam com o seguidismo revolucionário, segundo o modelo oriental ou do Leste, dos restantes agentes culturais brasileiros.

Aquele padrão político, nunca impediu contudo, o vigor com que mostrou e denunciou a injustiça social que o rodeava, sobretudo o contraste entre a baixa classe média, que habitava o circuito das pensões familiares de Porto Alegre e os palacetes da burguesia, o que lhe valeu ser arrolado juntamente com os outros colegas de profissão, que no entanto o criticavam como burguês, como (mais um) perigoso comunista.

O retrato da fratura da mundividência dos dois cenários, foi magistralmente, registado naquele que será talvez o seu melhor romance, Olhai os lírios do campo (1938), através de personagens que ficaram definitivamente incorporados ao nosso imaginário, alguns ainda utilizados noutros romances, e onde ele professa uma fé imensa, mesmo que subtil, na humanidade.

Em 1947, Erico Veríssimo iniciou a escrita daquela que seria a sua obra mais ambiciosa. A estória, ou História, do seu Rio Grande do Sul, quase desde a formação geológica da terra (assunto que ele dominava com surpreendente intimidade, a par de outras matérias científicas), das estâncias até às esquinas de Santa Fé, contada em O Tempo e o Vento, e em três partes: O Continente (1949), O Retrato (1951) e O Arquipélago (1962).   

Entretanto o nosso ocidental, não desperdiçou as oportunidades para primeiro visitar, em 1941, e depois viver, nos Estados Unidos; em 1943, dois anos, em que foi professor em Berkeley, e em 1953, outros três anos, onde em Washington, desempenhou o alto cargo diplomático de Diretor do Departamento de Assuntos Culturais da Organização dos Estados Americanos, responsável por toda a política cultural americana, no seu sentido mais abrangente.

Quando poderia ter ficado para sempre na capital política norte-americana, e do mundo, a trabalhar em assuntos culturais onde estava perfeitamente à vontade, o desígnio de concluir o Tempo e o vento, fê-lo regressar ao Brasil.

Daqueles tempos dos meandros de Washington, onde acompanhou de perto a crise na Guatemala com a deposição pela CIA do democrata Jacobo Árbenz em 1954, e que Vargas Llosa, Prémio Nobel de 2010, acaba recentemente de retratar no seu romance de 2020, Tempos duros, Verissimo trouxe o enredo do que seria o seu romance O Senhor Embaixador (1965).

Concluída a sua amada trilogia, Erico Verissimo ainda nos deu outros romances, e deliciosos livros de viagens, nomeadamente um sobre o México, e finalmente dois volumes de memórias, o segundo inacabado pela sua morte por ataque cardíaco em 28 de novembro de 1975.

Mas no primeiro deles, Solo de clarineta, (1973) quase a concluir o livro, podemos encontrar o seguinte:

Luís Fernando, que terminara o seu curso numa high school, aprendia a tocar saxofone com um professor de Georgetown, figura que parecia ter saltado das páginas de Dickens.

Erico Verissimo era dos escritores mais admirados em Portugal, e as suas sessões de autógrafos no nosso país, pese embora o desagrado da polícia da ditadura, originavam filas compactas e serpenteantes, e tinha uma presença constante em qualquer das nossas bibliotecas particulares, como por exemplo na do meu pai, onde há muitos anos atrás li aquela página.  

É claro que aquele Luís Fernando não é outro se não Luís Fernando Verissimo, muito provavelmente o maior escritor vivo do Brasil.

Acreditando que isto é que faz uma verdadeira comunidade de leitores, recordei-lhe aquele episódio, num brevíssimo encontro que tive com ele num dos últimos dias do Verão de dois mil e doze, por entre uma troca de sorrisos, e onde por mais estranho que possa parecer não tinha o saxofone.



Um comentário em “O Açoriano ocidental”

  1. Pedro diz:

    Belíssimo texto! Maravilhosa ponte! Evidenciando a Comunidade de leitores! Grato

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