Atlântico (II) – Um Mar Negro que Poderia ser Nosso
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Um amigo que foi Prático (Piloto) durante 40 anos, no extremo sul do Brasil, ao aposentar-se casara-se apaixonado com uma senhora que havia também se aposentado de uma das profissões mais antigas e injustamente difamadas do mundo. Por conta desses dois aspectos de sua vida, conversar com este amigo era abrir um livro de mil páginas e rir ou chorar. Uma de suas histórias foi ter assumido o negócio de sua esposa, um pequeno bordel com meia dúzia de prestadoras de serviços já avançando na meia idade e, como ele era muito generoso, e “vendia” fiado, somada a forte concorrência local, o estabelecimento foi à falência. Embora sem tino comercial, ele era persistente e substituiu a lâmpada vermelha na porta pelo título “Hotel”. Foi nesta época que o conheci. O “Hotel” era à beira d´água, nas vizinhanças do porto, e ele me perguntou se eu não gostaria de implementar ali uma marina, porque eu era tarado por barcos. A marina atrairia a clientela para seu hotel e vice-versa, e quiçá restaurar o antigo negócio, pois pelo menos duas das ex-prestadoras de serviço ainda faziam do lugar morada temporária. Não fechamos negócio, mas guardei a história.

Coincidência incrível, pois eu acabara de retornar da Austrália (1997) para minha terra natal, após alguns anos velejando pelo mar da Tasmânia, de Corais, Arafura, Timor e dois meses antes, num café da manhã em Kuala Lumpur, um arquiteto empreendedor na mesa ao lado puxou conversa e em menos de meia hora me fizera proposta semelhante. Construir uma marina no Brasil.  Seu argumento fervoroso era que colocaríamos um ovo de Colombo em pé, com o potencial náutico brasileiro virgem, o seu longo e sinuoso litoral puro e sedutor de águas mornas e lascivas, enfim, o homem falava quase babando e argumentava que apenas uma marina na Espanha abrigava mais barcos do que todo o território brasileiro, uma obscenidade de desperdício os nossos 8.000 km costeiros.

Estamos no século XXI e o Brasil não é mais virgem, mas o número de âncoras fincadas em seus leitos de areia, pedra e lama, não chegam a 90 mil barquinhos, isso é quase uma castidade em termos náuticos. A antiga marina pública, hoje concessão de um grupo privado e única marina do Rio de Janeiro, abriga menos que 300 embarcações; os veleiros podem ser contados com os dedos das mãos e dos pés de duas pessoas, com margem de erro irrisória. Como marina mesmo ela é tão insípida que não possui “travel lift” e, se você precisar um reparo de emergência, uma solda, ou uma costura de cabos de âncora, por exemplo, não há oficina no local. Há sim, atualmente, centenas de moradores de rua vivendo de promiscuidade e atrocidades corriqueiras que vão de assalto a pedestres e ciclistas e consumo e tráfico de drogas, espalhados no aterrado, que desenha a área de marina, estendido ao longo de dois quilômetros e que abriga o jardim criado por Burle Max, com aproximadamente 40 espécies de plantas nativas e exóticas, obviamente adulterado pela depredação, abandono e vários outros exemplos de desordem.

Na extremidade desse parque fica o aeroporto Santos Dumont, logo à frente fica a Praça XV onde fulgurava o Passo Imperial e formava-se a fila do Beija-Mão, a menos de cem metros de onde ficavam acorrentados os escravos recém desembarcados dos navios negreiros; conta um amigo historiador que o cheiro de merda e mijo humanos e de cavalos naquela redondeza era… insuportável. Precisa o adjetivo, após a imagem triste? – Eu tive a fatalidade de conhecer a antiga feira de peixes, no mesmo local, a tristeza e o odor eram uma amostra grátis nada agradável. Ontem, isto é, no apagar das luzes das Olimpíadas 2016, ficou meio acabado (ambiguidade proposital) o que os turistas hoje abusam com selfies no “Porto Maravilha”, nada mais do que um recapeamento povoado com alguns retrofits animados por veículos leves sobre trilhos, que inundam por qualquer chuva de verão, interrompendo o serviço de trem. Porto, palavra que rima com mar, ligação com o resto do mundo. Olha só que coisa mais linda mais cheia de graça, a cidade maravilhosa, com um porto marítimo, uma marina, dois aeroportos emoldurando o espelho d´agua da baía da Guanabara, devassada, exposta ao Atlântico tão inapropriadamente quanto foi o decreto do Filho de Algo Mem de Sá que estimulava virgens a manterem relação sexual antes do casamento, uma forma de provar a fertilidade, e aumentar a população. Racional (?) dos mandatários, era preciso povoar a terra do pau-brasil, para protegê-la dos Ingleses, holandeses e os franceses, esses os mais sedentos na época, queriam abusá-la, a qualquer preço. Mas não punam Mem de Sá sozinho, ele apenas copiou os babilônios cujos costumes obrigavam toda a virgem sentar ao templo de Afrodite pelo menos uma vez na vida e prostituir-se com um estrangeiro.

Seguindo aqui a linha de pecados, porque eu trouxe à tona o comércio dos prazeres da carne, sempre desconfiei que exista uma vontade subjacente no ventre do brasileiro, sabe-se lá se inseminada pelo português ou não, que lhe dá essa vocação para prostituir-se. Da terra já se deixou sugar-lhe quase tudo, a última notícia vem de sua cobertura pubiana, na Amazônia, roubam-lhe a biologia in natura. Socorro! Chegam a patenteá-la, dos Japoneses aos Canadenses. Do mar, que sempre esteve nu, desde a praia às 200 milhas adentro, não se consegue atingir a cota de pesca. Nossa frota pesqueira industrial para captura além da ZEE não chega a 1.700 embarcações, antigas e precárias, de acordo com o Sistema Informatizado do Registro Geral da Atividade Pesqueira – SisRGP. Assim, vemos empresas de pesca espanholas e chinesas recolhendo aqui ao largo o que não conseguimos, isto é, lhe damos o que é nosso e ainda pagamos caro nos supermercados pelo pescado, congelado. Meu Deus do Céu, importamos o nosso próprio produto. O Ministro da Pesca repete em seus discursos que o objetivo do Brasil é se tornar autossuficiente no pescado e aquicultura. Com mais de 8.000 km de costa ainda não somos.

Nos tornarmos autossuficientes era também a palavra de ordem para o ouro negro, até descobrirmos um mar negro que poderia ter sido nosso, o pré-sal. Segundo a própria Petrobras, empresa “brasileira”, uma descoberta entre as mais importantes em todo o mundo na última década. Composta por grandes acumulações de óleo leve, de excelente qualidade e com alto valor comercial. Enquanto rumo ao final de minhas observações escatológicas, explode nas primeiras páginas dos jornais a mordida espetacular que a empresa norueguesa StatOil deu em nosso mar negro. Com isso, pode-se dizer, a StatOil é uma das sócias majoritárias da Petrobras. Nada contra o país nórdico, pelo contrário, mas não resisto a comparação com uma história também ouvida sobre um outro não exatamente amigo, mas generoso colaborador que um dia doou a madeira para eu levar do Brasil um barquinho feito com as próprias mãos para o Wooden Boat Festival em Port Townsend, WA, USA. O Sr Erling Lorentzen, então casado com a princesa Ragnhild da Noruega, filha do Rei da Noruega (nada a ver com Afrodite e bordel, eu acho), após a guerra veio dar no Brasil com um navio que passou a transportar inicialmente gás, depois ferro daqui para lá. Mas a coisa era ou muito complicada, ou muito pesada, e daí pouco lucrativa, e ele descobriu que transportar madeira era mais vantajoso. Época do governo militar no Brasil e Lorentzen conseguiu conversar pessoalmente com o Presidente General Emilio Médici, em cujo período o Brasil cantava “ame-o, ou deixe-o” até na Seleção Brasileira de Pelé. Pois Lorentzen obteve entre outros benefícios o caminho aberto para plantar eucalipto numa área, inicialmente quase do tamanho de Portugal, anos mais tarde ele já estava produzindo celulose e papel.

Em tempos de BitCoin sem lastro, ameaçando uma bolha a estourar maior do que todos os mares, a indústria do papel hoje em dia é carta quase fora do baralho. E fim de papo, o mar no Oceano Atlântico continua azul, e o seu ouro negro não é nosso, nem de Portugal.



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