"Reconciliar a Humanidade com o mar é o objectivo principal da expedição”, reflecte o príncipe Alberto II do Mónaco, cujas primeiras paragens foram nas ilhas portuguesas – Madeira e Selvagens. Um investimento de três milhões de euros, financiado por fontes privadas e públicas
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A «Monaco Explorations», uma expedição realizada pelo Instituto Oceanográfico da Fundação Alberto I com o navio Yersin para investigar as ameaças de acidificação dos oceanos e da poluição, principalmente de plásticos, encontra-se neste momento em Cabo Verde. Há cerca de uma semana, o navio mantinha dois portugueses a bordo, convidados e financiados pela expedição, e recentemente esteve em investigação nas Ilhas Selvagens. Estudar um ecossistema num local onde não há interacção entre a espécie humana e a natureza era o foco principal da «Monaco Explorations» nas Selvagens.

A embarcação tinha a bordo Manuel Biscoito, biólogo marinho que esteve apenas na Madeira e aproveitou para anilhar e contar aves marinhas, e Raquel Vasconcelos, especialista que estuda na Universidade de Cabo Verde e está a analisar uma espécie endémica das ilhas de Cabo Verde (que apesar de terrestre, tem uma ligação com o mar e está em extinção – o Lagarto de Cocteau, ou Chioninia coctei). Trata-se de um escincídeo gigante de Cabo Verde, actualmente classificado pela União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN, acrónimo em inglês) como extinto. Para isto, foram colocadas câmaras de infra-vermelhos, foi colhido solo para análise de ADN ambiental e foram colocadas armadilhas não letais.

O objectivo era “tentar encontrar provas da existência do lagarto Cocteau” e “obter informação sobre a dieta da osga gigante de Cabo Verde (Tarentola gigas), também endémica e classificada como em perigo pela IUCN, com base em dados moleculares, de forma a poder guiar o plano de reintrodução da espécie previsto na ilha vizinha de Santa Luzia (onde a espécie se extinguiu devido à introdução de predadores exóticos – gatos, ratos) e ainda verificar se a subespécie existente no ilhéu Branco é diferente da subespécie que habita o ilhéu vizinho do Raso (a nível morfológico, genético e da dieta) – com a participação activa da Universidade de Cabo Verde, numa parceria TwinLab CIBIO-Uni-CV”, explicou-nos Raquel Vasconcelos.

O príncipe Alberto II do Mónaco, no seguimento desse acontecimento, ofereceu, uma das suas cinco espécies indígenas, guardada pelo seu bisavô, ao presidente da República de Cabo Verde, na última semana. O exemplar foi escolhido pela bióloga portuguesa e por Aurélien Miralles, do Museu Nacional de História Natural de Paris, que a acompanhou na sua pesquisa.  Na investigação nas Selvagens, a «Monaco Explorations» referencia que a sua fauna e flora estão bem preservadas, devido ao facto de não se registar interferência humana. Em todo o caso, há plásticos e metais trazidos pelas correntes em toda a praia.

O navio, que iniciou a sua rota no Mónaco, fez a primeira paragem na Madeira. Fê-lo por motivos não apenas históricos, pelo facto do Príncipe Alberto II querer entender melhor a investigação que tinha feito o seu bisavô na Madeira, como também científicos (a Madeira possui espécies muito interessantes e um grande leque de diversidade – tanto que foi encontrada, pela primeira vez, uma espécie de alga que nunca se tinha encontrado na ilha – a alga castanha laminaria) e políticos, no relacionamento com algumas personalidades, nomeadamente o Presidente da República, e no intercâmbio com as autoridades portuguesas, como explicou Robert Calcagno, Director executivo do Instituto Oceanográfico monegasco e responsável pela expedição .

O investimento na expedição foi, segundo Robert Calcagno, de três milhões de euros, de fontes privadas e públicas, incluindo o Governo do Mónaco e benfeitores, como o dono do barco, o Dr. Fiat. As investigações que duram normalmente três semanas por ilha, começaram na Macaronésia, mas vão estender-se pelos mares das Caraíbas, do Pacífico, da Polinésia e do Índico. No entanto, a equipa não será sempre a mesma, uma vez que a «Monaco Explorations» faz questão de ter sempre uma equipa local.

Segundo Raquel Vasconcelos, “este gesto serve também para relembrar a responsabilidade de todos para que as espécies ameaçadas de extinção sejam protegidas, e portanto, o segundo objectivo da missão tem tanta importância; a osga gigante de Cabo Verde, principalmente a subespécie que habita o ilhéu Branco, tem uma ecologia quase desconhecida e os planos de acção em conservação para serem eficazes têm que ter informação validada cientificamente; esta osga, à semelhança do que foi descrito na literatura para o escincídeo gigante, é comensal das aves marinhas, isto é, usa os refúgios que elas constroem para ninho para se abrigarem e come os restos de comida (regurgitações de peixe) que as aves deixam cair perto dos ninhos quando alimentam as suas crias; dada a sua enorme dimensão, também comem aves marinhas, possivelmente inviáveis (crias, ovos), pelo que poderão exercer (como exerceria o C. coctei) um efeito sanitário do ecossistema”. Diz ainda a responsável que “estes répteis gigantes únicos são a verdadeira prova de que os ecossistemas marinhos e terrestres estão intimamente ligados e que essa relação é muito evidente nas ilhas oceânicas, daí que esta missão de exploração marinha de três anos à volta do mundo ter incluído a prospecção de várias ilhas no seu objectivo de reconciliar a Humanidade com os Oceanos”.

A hipótese da expedição voltar à Madeira para concluir uma pesquisa que não foi possível, existe. E seria com o português Manuel Biscoito a investigar.



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