Da Poética dos Mares - Pedro Furtado Correia
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É impossível um símil para o mar, é um singular. Tampouco cabe com suas caraterísticas no foro das referências do humano, mas se  procuramos intuir uma definição, o observador é compelido a declarar após uma série de aproximações: não sei o que é o mar.

São muitas e várias as metáforas poéticas que procuram aproximarmo-nos de sua compreensão. O mar poderia ser

(…) uma lágrima caída dos meus olhos (…)

ou

(…) brancos dentes, sejam o mar (…)

 

Pode mostrar-se como um ser maternal e acariciante quando

(…) minha mãe me chama

quando uma onda e outra onda e outra

desfaz o seu corpo contra o meu corpo.

(…) o mar é carícia,

luz molhada onde desperta

meu coração recente.(…)

 

ou apresenta-se num ser fantástico, fantasmagórico,

(…) uma figura branca

cintilando entre os rochedos.(…)

 

 e até surge-nos num palpitante horror, num

 (…) um adolescente morto

de lábios abertos aos lábios da espuma.

É sangue,

sangue onde a luz sobre as areias.(…)

 

mas não é possível encontrar um símil do mar:

(…) não sei o que é o mar.

 Eugénio de Andrade, «Mar, Mar e Mar» (excertos)

in As Palavras Interditas,

Porto, Assírio & Alvim, 2012 (1951)

 

O mar, quando o consideramos próximo a caraterísticas humanas, é propício a variadíssimas  invocações, a idade de ouro:

Tudo era claro:

céu, lábios, areias,

O mar estava perto,

fremente de espumas,

Corpos ou ondas:

iam, viham, iam,

dóceis, leves – só

ritmo e brancura.

Felizes, cantam;

serenos, dormem;

despertos, amam,

exaltam o silêncio.

Tudo era claro,

jovem, alado.

O mar estava perto.

Puríssimo. Doirado.

Eugénio de Andrade in Mar de Setembro,

Porto, Assírio & Alvim, 2013 (1961)

 e

 Aqui nesta praia onde

Não há nenhum vestígio de impureza,

Aqui onde há somente

Ondas tombando ininterruptamente,

Puro espaço e lúcida unidade,

Aqui o tempo apaixonadamente

Encontra a própria liberdade.

Sophia Mello Breyner Andresen «Liberdade» in Mar Novo,

Porto, Assírio & Alvim, 2013(1958)

 

O seu interesse estético é aberto a uma diversidade inabrangível, é também toiro, cavalo, mulher e bailarina:

 Como toiro arremete

Mas sacode a crina

Como cavalgada

 

Seu próprio cavalo

Como cavaleiro

Força e chicoteia

Porém é mulher

Deitada na areia

Ou é bailarina

Que sem pés passeia

Sophia, «A Vaga» in Livro Sexto,

Porto, Assírio & Alvim, 2014 (ed.1964/poema de 1962)

 

é um apaixonado, ébrio, na vasta praia, num bailado imenso, impetuoso,

Onde – ondas – mais belos cavalos

Do que estes ondas que vós sois?

Onde mais bela curva do pescoço

Onde mais bela crina sacudida

Ou impetuoso arfar no mar imenso

Onde tão ébrio amor em vasta praia?

Sophia de Mello Breyner Andresen, vide Rumor de Mar, (poema de 1989)

 

Por isto, não se configura humano, propõe sim uma existência que nos surpreende. Pode indicar um corpo alado e lunar:

Quando penso no mar
A linha do horizonte é um fio de asas
E o corpo das águas é luar;
(…)

Vitorino Nemésio «Correspondência ao Mar» (excerto) in

O Bicho Harmonioso, Coimbra, Revista de Portugal, 1938

 

Naquilo que se liga ao próprio humano a estética marítima apresenta um ímpeto imanente e vital,

 (…) Eu (…)

Vou na onda, de tempo carregada,

E desenrolo:

Sou movimento e terra delineada,

Impulso e sal de pólo a pólo.

 

Enquanto podemos tentar inseri-lo dentro de nossa medida humana, certo é que não atinamos proporção, o mar resiste e não cabe; É múltiplo sem que alcancemos ponderá-lo; Extremado na sua aparência, pode ser frio como uma evidência matemática ou quente como o sentimento que acompanha a lágrima:

Quando penso no mar, o mar regressa

A certa forma que só teve em mim –

Que onde ele acaba, o coração começa.

(…) E, de assim começar, é abstracto e imenso:

Frio como a evidência ponderada,

Quente como uma lágrima num lenço. (…)

Vitorino Nemésio «Correspondência ao Mar» (excerto) in

O Bicho Harmonioso, Coimbra, Revista de Portugal, 1938

 

Lágrimas ainda pela mar se evocaram, em Camões:

 (…) Que mais te posso dar, Ninfa fermosa,
inda que o mar de aljôfar [pérolas/lágrimas] me cubrira
toda esta praia leda e graciosa?

Amansam ondas, quebra o vento a ira;
minha tormenta triste não sossega;
arde o peito em vão, em vão suspira. (…)

Luís Vaz de Camões, «Piscatória» (excerto) in Éclogas

 

Em Lopes Vieira:

Meu sangue é português,

minha pele é morena,

minha graça a Saudade,

meus olhos longos de escutar sem fim

o além, em mim…

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Lopes Vieira, «Chora no ritmo do meu sangue, o Mar» (excerto)

in Ilhas de Bruma,

Coimbra, Of. Francisco Amado, 1917 

 

 Em Pascoes há lágrimas divinas que, como numa teurgia se evidencia no sal, na neblina e na pedra:

(…) Sobe, do mar salgado, o canto das neblinas.

Nos olhos duma pedra, há lágrimas divinas;

 

Teixeira de Pascoaes in Para a Luz (excerto); Vida Etérea; Elegias;

O Doido e a Morte; Vida Eterna,



Um comentário em “Metáforas do Mar”

  1. Luis Peaze diz:

    Pedro, que maravilha abrir o Jornal da Economia do Mar segunda-feira e ler o mar na sua releitura dele através da poesia errante que flutua entre nós desde tão longe e de nobres autores. Meu deleite só aumenta no momento em que estou enviando para o “prelo” desta era digital meu “Poesia em Alto Mar & Nós / High Sea Poetry & Knots” (edição bilínge Português/Inglês), um depositório interior de quando velejava ao redor da Austrália num barquinho a velas que construí com as próprias mãos, sem experiência de construção e nem de velejar, sem sanidade também, pois o Mar da Tasmânia, Corais, Carpentaria, Arafura e Timor não é um lugar para este tipo de mergulho levando a bordo sua mulher com ainda menos experiência do ambiente de que nos debruçamos aqui, meu amigo. Aprendi que no mar se faz amigos antes mesmo de os conhecê-los pessoalmente, uma das virtudes do mar… Deixo modestamente um de meus depoimentos, confissões:

    Era uma onda

    Entre uma vaga e outra
    Era uma onda
    De meus cacos
    De meus medos
    De minha intimidade profunda
    Quando a lua ficou nua
    E sugou as vagas
    Do meu eu por inteiro …lentamente, como sempre faz. Ferida.
    Aí veio a noite, ventania e o frio
    Quando o pano abriu e a peça se chamava Vida.
    Agora não era uma onda
    Eram olhos vendo os meus cacos
    Eram mãos tocando em meus medos
    Eram línguas lambendo minhas feridas… lentamente.
    E doía.

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