A Europa, o Mar e Portugal

A ironia do destino é bem conhecida por todos nós portugueses. E a ironia é que, na História, não raras vezes, aos pioneiros, além dos louros de o terem sido, pouco mais lhes resta senão a melancolia de ficarem a assistir a terceiros recolherem os frutos da sua visão e, às vezes, até mesmo do seu trabalho.

A Europa está, cada vez mais, virada para o mar.

Estar a Europa cada vez mais virada para o mar, não é já, por si só, uma grande notícia. Todavia, a enfâse que se coloca hoje nesse desígnio, como agora se diz, afigura-se sê-lo ou, pelo menos, merecer a devida atenção. Tanto mais quanto, concomitantemente, a um desígnio da Europa sempre se associam consequentes milhões que, aparentemente, a mesma Europa estará sempre disposta a investir na consecução do mesmo. E isso também pode ser de todo o interesse.

Evidentemente que, da Europa, é sempre difícil ter certezas e a verdade de hoje não é necessariamente a verdade de amanhã mas, em qualquer caso, há constantes que se afirmam e, em relação ao mar, não obstante tantas tergiversações em tantas áreas e políticas, neste particular, a Europa parece manter uma certa constante estratégica.

Compreensivelmente, quase se diria, porque a Europa não é uma entidade abstracta mas uma forma política de afirmação económica das principais nações que a compõem, não deixando nunca, essa afirmação económica, de incluir uma não menos importante e menos ainda negligenciável componente geopolítica. E as principais nações europeias já perceberam a importância do mar para o seu futuro tal como não seria difícil atendendo ao seu próprio passado.

De facto, a afirmação da Europa no mundo fez-se pelo mar. Por Portugal, antes de mais, por Espanha, logo a seguir, Holanda e Inglaterra, tendo Walter Raleight chegado mesmo a afirmar, «quem controla o mar controla o comércio; quem controla o comércio mundial controla as riquezas do mundo; quem controla as riquezas do mundo controla o próprio mundo», ficando como uma espécie de «verdade incontestável» até hoje.

França, chegando a dispor, em determinado momento, mesmo da maior e melhor Armada da Europa, encontrando sempre pela frente, todavia, a tenaz concorrência e oposição britânica, nunca dominou o mar como Portugal, Espanha, Holanda ou Inglaterra e, dividida sempre entre a tensão Epirocrata e Talassocrata, depois de Trafalgar, a opção Continental foi determinante e quase se diria, definitiva.

Independentemente de questões históricas, o que importa aqui salientar é tanto o facto, por um lado, a importância do mar para a afirmação da Europa no mundo como, por outro, não menos relevante, a superioridade tecnológica que até hoje ainda tem sabido manter, incluindo aqui, evidentemente, os Estados Unidos como complemento da Europa ou do Ocidente.

O mundo, porém, não é estático e a Ásia também está a fazer os seus avanços. A Europa, o Ocidente, ainda mantém alguma decisiva vantagem competitiva, bastando pensar, por exemplo, na tecnologia exclusiva de catapulta dos Porta-Aviões americanos para perceber parte do domínio da sua Marinha em todos os mares, independentemente da sua dimensão, superando, em muito, como é evidente, qualquer outra no mundo, mas se nada entretanto for feito, mais cedo ou mais tarde, essa vantagem tenderá, inevitavelmente a contrair-se e mesmo a esvair-se.

A Europa compreendeu-o.

Assim como Portugal, Cabeça da Europa, conduziu a primeira globalização marítima do mundo, também foi Portugal, com a ida de Durão Barroso para Bruxelas, levando consigo Tiago Pitta e Cunha, Coordenador do Estudo «O Oceano: Um Desígnio Nacional para o Século XXI», a dar à Europa a noção da importância do mar para o seu futuro.

Nesse momento, parecia que Portugal poderia, de novo, liderar o desenvolvimento de uma certa visão estratégica da Europa, retirando daí alguma vantagem competitiva. Porém, passados todos estes anos, tal possibilidade começa a surgir cada vez mais remota.

Estabelecer um paralelismo entre Portugal do Séc. XV-XVI e de hoje, é falacioso mas, em todo o caso, tendo a visão correcta do futuro, talvez pudéssemos e devêssemos ter feito mais. Não porque possamos igualar ou contrariar a potência que França continua a ser, por exemplo, na construção naval, ou os avanços da Noruega na aquacultura e na exploração de plataformas em mar aberto, mas, entretanto, outras nações estão igualmente a desenvolver-se e a desenvolver tecnologia marinha e não é certo que nós estejamos a prestar a mesma atenção que talvez devêssemos prestar ao desenvolvimento da Economia Azul, como agora pomposamente se diz. O número de cientistas numa Alemanha, nação continental por excelência, na área do mar, está contabilizado na ordem dos 2 500, e não são exactamente os alemães que mais cruzeiros científicos realizam nas nossas águas?

Esse é apenas um exemplo mas um bom exemplo e não deixa de ter o seu alto significado.

Como damos notícia neste número, Karmenu Vella, o novo Comissário Europeu do Ambiente, dos Assuntos Marítimos e das Pescas, considera a Economia Azul um elemento-chave para o futuro da Europa. E como sempre, considerando Economia Azul um «elemento-chave», isso significa que, a par dessa preocupação, milhões irão ser distribuídos para que tal se desenvolva e se realize. E a questão é, estamos nós preparados, temo-nos nós preparado o suficiente, para podermos beneficiar de toda essa «generosidade» europeia?

Em simultâneo, Francis Vallat, o novo responsável pela Rede Europeia de Clusters Marítimos, afirma não ter a certeza dos números oficiais estarem correctos e ser necessário uma avaliação rigorosa e exacta do valor dos Cluster Marítimos Nacionais para se ter um valor rigoroso e exacto do valor do Cluster Marítimo Europeu. E o que é que isso pode significar? Não pode significar que, no futuro, por exemplo, os incentivos, os apoios e subsídios sejam prioritariamente concedidos a quem melhor posicionado estiver para desenvolver cada um dos designados cluster marítimos europeus, da biotecnologia às energias renováveis, da robótica à mineração do solo e subsolo marinhos, para dar apenas alguns exemplos?

Estamos nós capacitados, estamos nós a capacitarmo-nos, séria e verdadeiramente, empresarial e politicamente, para recebermos prioritariamente alguns desses incentivos, desses apoios, desses subsídios?

Eis uma questão que talvez importe termos em devida consideração antes que seja, de novo, melancolicamente, tarde demais.



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