A globalização está a entrar, ou já entrou mesmo, num novo ciclo. Um ciclo que retira algumas vantagens comparativas a Portugal. Todavia mantém uma decisiva vantagem competitiva: o mar. Saibamo-la valorizar.

Para Trump parece fácil impor o “Buy American and hire American” mas a prática revela que tudo é bastante mais complexo. O conceito “made in America” definido na Buy American Act de 1933 está a frustrar algumas fábricas de aço do país que receiam serem arredadas dos projectos de infra-estruturas que Trump prometeu. Pela lei, a utilização de matérias-primas importadas é permitida mas obriga a total transformação no país para que o aço seja considerado “made in America”. Hoje muitas fábricas, como a California Steel, evoluíram e utilizam uma tecnologia de ponta que transforma as placas de aço importadas numa qualidade muitíssimo superior mas como é um produto transformado a California Steel receia não poder vender os seus produtos por não preencherem os requisitos do Buy America apesar da sua alta qualidade, preço competitivo e de empregar centenas de trabalhadores na sua fábrica de Fontana na Califórnia. Ao impor o “made in America”, Trump parece regressar ao modelo da globalização moderna da Grã-Bretanha do século XIX. A imagem do inglês que à mesa do pequeno almoço saboreava o pão feito de trigo americano enquanto beberricava o chá de folhas da China e o adoçava com açúcar da Jamaica numa mesa coberta com uma toalha cujo algodão vinha da Índia, revela a transformação que a globalização moderna teve na economia mundial. Enquanto um inglês da classe média tinha agora acesso, pela redução do tempo e do custo do transporte, a uma panóplia de produtos cujas matérias-primas vinham das colónias, a Índia, que até aí produzira e exportara têxteis cuja qualidade era reconhecida mundialmente, via-se agora um exportador de algodão e um importador de têxteis produzidos na Grã-Bretanha. O mesmo sucedeu às porcelanas e sedas chinesas. Os dados da produção industrial revelam o impacto da mudança: em 1750, a China e a Índia eram responsáveis por 75% da produção industrial mundial, em 1913 contavam apenas com 7,5%. Em contrapartida os chamados países do Norte, G7, em virtude da sua rápida industrialização passaram a dominar a produção mundial. No pós-guerra, nas primeiras Rondas do GATT, que iniciaram em 1947, os países do G7 reduziram substancialmente as tarifas para uma média de 5%, o que promoveu entre eles as trocas comerciais. Na Europa aconteceu o mesmo com os países que aderiram à CEE que constituíram entre si uma zona de comércio livre para produtos industriais   – como peças de automóveis, aviões…- que aumentou exponencialmente as trocas entre eles. Nas sucessivas Rondas do GATT, até à Ronda do Uruguai, 1986-1994, só o Japão, América do Norte, os países da CEE e Grã-Bretanha aderiram às novas regras do comércio internacional enquanto os outros países membros, considerados em vias de desenvolvimento, foi-lhes permitido e até mesmo sugerido manter as tarifas altas – “Special and Differential Treatment”- com o objectivo de conseguirem promover a sua indústria. Esta fórmula de proteccionismo industrial era a visão dominante pois temia-se, como Portugal, uma competição para a qual ainda não estavam preparados. É bom recordar que Portugal quando entrou para a EFTA envolveu a aceitação de um estatuto especial, com um calendário de desarmamento pautal mais lento do que para os outros participantes e a possibilidade de introduzir temporariamente protecção pautal a indústrias nascentes.  A partir do ano de 1990, de acordo com os dados da OCDE, o comércio internacional muda bruscamente e é notória a industrialização e o crescimento económico de seis países: China, Índia, Coreia do Sul, Indonésia, Tailândia e Polónia, em que a China, devido à sua escala, assume a parte de leão. Outro grupo de países – Brazil, Nigéria, Austrália, Mexico, Venezuela e Turquia – também cresciam acima da média mundial porque beneficiavam do aumento nas exportações de matérias-primas. Em contrapartida, 1990, é o ano em que se assiste, de forma acentuada, à desindustrialização nos países do G7 – EUA, Canada, Japão, Reino Unido, Itália, Alemanha e França – perdendo estes países quota para os seis que se industrializavam. Várias questões se colocam: Porque é que quase subitamente os países que viam nas tarifas a forma de defenderem a sua indústria viam agora estas como destruidoras da indústria? O que mudou tão subitamente para se abrirem ao mercado global? E porque só agora os países do G7 viam a mão-de-obra barata como uma vantagem? Se a queda da URSS foi importante na abertura ao comércio, como no caso da Polónia, a revolução tecnológica da internet teve um papel fundamental na mudança do comércio internacional. Os países do G7 passaram a deslocalizar as tarefas que podiam ser substituídas por mão-de-obra barata porque as novas tecnologias de comunicação permitiam não só trocas de informação como uma gestão e controlo à distância praticamente sem custos. Também os países em vias de desenvolvimento perceberam os benefícios de entrar na cadeia de produção mundial pois trazia-lhes crescimento e emprego, mas acima de tudo uma transferência do conhecimento tecnológico que lhes permitia recuperar rapidamente o atraso em que estavam. Proteccionismo passou então a ser sinónimo de atraso. Em 2005 no livro “The World is Flat”, que se tornou um bestselling, Thomas Friedman acusava os políticos dos países do G7 por enterrarem a cabeça na areia ignorando o novo modelo de globalização competitiva que estava em curso. Para ele não faltaria muito tempo para o “made in China” das cadeias de produção de mão-de-obra barata serem lembradas como um período de transição pois a China “já desenhava também asas de aviões”. Os chineses estavam perfeitamente conscientes que as empresas para se manterem globalmente competitivas precisam de ser inovadoras. “Num mundo que se globalizou ninguém podia dormir descansado” era o recado que deixava. Recusando-se a ver o que se passava, talvez por não saberem como agir, políticos, economistas e outras elites do G7 deparam-se hoje com os populismos que os assustam. Em Portugal, ainda em 2010, segundo um conceituado economista, a China era vista como uma grande fábrica que produzia Barbies. Nos países do G7 o Brexit ganhou, Trump está no poder exigindo o “made in America” e o regresso aos nacionalismos nos principais países do euro estão a deixar a União Europeia inquieta. Em Portugal não receamos pela deslocalização do “made in Portugal”, mas sim pelo produtor de bonecas dominar os principais sectores da nossa economia. Contudo o paradoxo de tudo isto é que o proteccionismo recente surge precisamente quando um novo modelo de organização económica está a trazer de volta a manufactura aos países do G7. Na capa da revista “The Economist” de 3 de Fevereiro, com a graça que lhe é tão característica, um enorme porta-contentor de nome “The Wealth of Nations, regressa a casa carregado com as suas grandes empresas. O regresso não se deve às medidas proteccionistas de Trump, como explica o artigo, mas “because a 30-year window of arbitragem is closing”, concluindo que e modelo da globalização competitiva está obsoleto. Em 1776, no livro “The Wealth of Nations”, Adam Smith analisou os ganhos que a fragmentação de tarefas produzia no fabrico de alfinetes. Se a produção fosse dividida por dez trabalhadores, por dia, fabricavam-se 4800 alfinetes ou seja 480 por cada um. Comparando sem a divisão de tarefas, Smith chegava à conclusão que um trabalhador nem um alfinete produzia por dia. A fragmentação de tarefas nas cadeias de produção modernas são o modelo de Smith ajustado ao contexto actual. Depois de séculos de domínio, o modelo de organização de Smith está em vias de uma profunda transformação. Com a recente tecnologia de informação das impressoras 3D – additive manufacturing – a produção de um produto já não recorre à fragmentação de processos mas precisamente à adição de processos. Basta a um trabalhador programar um computador, para de forma rápida e eficiente produzir um produto em quantidades. Hoje desde motores a jacto a próteses já estão a ser produzidas através desta tecnologia. Nos últimos 200 anos as novas tecnologias foram transformando a globalização moderna e hoje estamos perante uma transição que irá alterar radicalmente as trocas comerciais. Um relatório recente da petrolífera BP revela como esta empresa está já a estudar o impacto das impressoras 3D no seu negócio: “Freight transportation accounts for greater than a fifth of complete oil consumption, a lot of it involving long-distance shipments throughout oceans and continents. Some of this might disappear if 3D printing spurred a shift away from mass manufacturing again in direction of native manufacturing within the markets the place merchandise are bought”. A tendência para produzir junto dos grandes centros de consumo põe Portugal em desvantagem. Em 1986 quando Portugal entrou para o espaço europeu, as políticas do país desperdiçaram a oportunidade de modernização ou de reconversão das empresas e sectores existentes. Em lugar de promover uma estratégia de convergência em relação a economias mais desenvolvidas, a obtenção dos fundos comunitários serviu sobretudo para alimentar redes distributivas internas, promovendo a concentração de actividades económicas e do emprego na produção de bens não transaccionáveis. Na altura em que o proteccionismo era sinónimo de atraso, Portugal refugiava-se em sectores com procura garantida e mercado protegido tornando-se facilmente nos mais rentáveis da economia atraindo para si o investimento e os talentos. Por seu lado o sector transaccionável, sujeito à concorrência internacional, foi perdendo competitividade e tornou-se pouco atractivo para o investimento. No presente e atendendo à transformação que as impressoras 3D estão a começar a ter na economia global, Portugal terá dificuldade em concorrer com os grandes centros urbanos onde se concentra o consumo. A economia do mar é um dos poucos domínios dotado de potencial estratégico na economia portuguesa. Se atendermos à disputa da China com os seus vizinhos pelo domínio do mar do Sul da China, da qual se receia uma guerra, é revelador do interesse que o mar suscita a muitos países. Após o lançamento em 2009 do livro “Hypercluster da Economia do Mar”, que resultou de um estudo da SaeR coordenado pela figura de grande prestígio que foi Ernâni Lopes, a referência do mar como uma prioridade para Portugal passou a figurar em todos os discursos políticos. Desde a sua criação, em Junho de 2014, que o Jornal da Economia do Mar tem como objectivo colmatar a escassa comunicação de todo o universo dos sectores ligados ao mar dando a conhecer à generalidade da população as transformações e o saber científico que estamos a acumular. Das empresas de biorecursos marinhos que tem a Inovação no seu ADN, às tecnologias de vigilância do mar que pode revolucionar a monitorização marítima, à relevância do mapeamento do fundo do mar da Universidade do Algarve em conjunto com várias empresas à exploração energética como as experiências do WindFloat e do WaveRoller em Peniche, às novas StartUps que estão a surgir no sector, aos parceiros portugueses no projecto de I&D em conjunto com INESC Tecnologia e Ciência para desenvolver tecnologias e equipamento de exploração subaquática para minerar depósitos de matérias-primas, às novas tecnologias das empresas de aquicultura, sem esquecer os sectores tradicionais da Náutica de Recreio, Transportes Marítimos, Portos e Logística, Pesca e Indústria de Pescado aos Serviços Marítimos como os Seguros sem esquecer a legislação nacional e comunitária, tudo tem merecido uma atenção especial do Jornal da Economia do Mar. No início deste mês em Paris, em parceria com o Euromaritime, a edição em inglês do jornal pretendeu não só divulgar a modernidade, inovação, mobilização, e prestígio das empresas portuguesas ligadas ao sector mas simultaneamente apresentar um guia de como investir em Portugal. Este novo esforço de internacionalização tem como objectivo atrair capital tão necessário para a consolidação da economia do mar. É bom que saibamos ver como o mar é a nossa grande vantagem competitiva.

 

 



3 comentários em “O Mar: a Vantagem Competitiva de Portugal”

  1. José Carlos Gonçalves Viana diz:

    Tudo isto é conhecido e foi apresentado há mais de 30 anos mas continuamos a desprezar a marinha de recreio onde há projetos que criarão muitas centenas de postos de trabalho que não saiem das gavetas de quem não decide e a marinha comercial que não tem enquadramento que lhe permita desenvolver-se. E sem Marinha como é que querem ter uma economia do Mar?

  2. José Alexandre Tavares Lourenço da Silva diz:

    Esse mar de que falam faz lembrar o chupa-chupa dado à criança depois de se assegurar de que é bastante maior do que a boca dela !

  3. Tanto texto para depois em dois parágrafos dar alguns exemplos de empresas do sector. Para um texto com o título de vantagem competitiva de Portugal, fala muito pouco do que se faz ou poderá fazer para além de constatar o óbvio.
    Dou vários exemplos: falar de inovação que se está a fazer com centros e empresas relacionadas com o pescado e algas; Inovação em sísmica marítima; construção de rov’s 100% portugueses; etc, etc construindo por aqui o texto dando exemplos concretos de vantagens competitivas de Portugal… Fica a sugestão para futuros textos

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