Mapa que Transforma
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Simpatia, boa música, excelente dança, verde, trevo, arpa, são palavras que facilmente associamos a essa fantástica nação chamada Irlanda. A belíssima história desta nação tem traços muito enraizados na terra, no verde dos prados, na agricultura, na pecuária, na resiliência, no superar dificuldades extremas, como foi o caso da grande fome, na entreajuda, na humildade, na música, na dança e na festa. Curiosamente, sendo a Irlanda uma ilha, ao longo da sua história, o azul, o peixe, a onda, o barco, não foram palavras utilizadas na caraterização identitárias desta nação.

Muitas vezes as passagens históricas da Irlanda retratam o mar como fonte de perigo, local de onde chegaram piratas e povos hostis, meio de fuga da pobreza e da fome, através da emigração, instalando, no imaginário coletivo, uma sensação pouco positiva e gerando um afastamento generalizado da maioria dos Irlandeses em relação ao mar. Na era da grande fome, quando este país tinha quase o dobro da população que tem hoje, a falta de batata, o alimento mais consumido, causou uma fome devastadora que matou muita gente e empurrou milhões de Irlandeses para fora do seu país. Não se percebe muito bem porque é que, tendo faltado alimento proveniente da terra, não se explorou melhor o alimento do mar. Pela sua baixa profundidade média e riqueza piscícola, a Irlanda, tem um dos melhores mares da Europa para a pesca. No entanto, ao longo da sua história o aproveitamento dos recursos alimentares e de outros recursos do mar, nunca foi elevado.

Dá que pensar, porque é que mesmo com pessoas a morrerem de fome não se abordou a oportunidade mar, de forma mais intensa… Claramente esta é mais uma das provas de que o mar só é uma riqueza, quando existe interesse e ação humana sobre este recurso, assim como visão e investimento de médio e longo prazo. Mar e terra são complementares, qualquer desbalanceamento de um recurso sobre o outro é uma oportunidade perdida de desenvolvimento de um povo. O escritor português Raúl Brandão vai mais longe, afirmando, na sua grande obra “Os Pescadores”, “(…) O contacto com a terra obriga o homem a olhar para o chão, o convívio com o mar obriga-o a levantar a cabeça. (…)”. A Irlanda não é um caso único no mundo, existem muitas ilhas e penínsulas com uma atitude desbalanceada entre Terra e Mar, onde, na maioria dos casos, a Terra, aproveitando a condição terrestre do ser humano, tem grande prevalência na atitude das pessoas em detrimento do mar, que fica esquecido. Muitas regiões e muitas nações referem: “… virámos as costas ao mar!”. A nível internacional, esta “sina” é muito mais comum do que se pensa.

Aparentemente, na Irlanda, um grupo restrito de pessoas, muito bem preparadas, acredita que a sina Irlandesa de afastamento em relação ao mar pode e deve mudar e que isso será muito positivo para o desenvolvimento sustentável deste país. Este grupo de visionários não só acredita no mar da Irlanda como está a fazer tudo para que este ativo seja valorizado. O primeiro passo foi definir uma estratégia de médio e longo prazo baseada no conhecimento como base para o crescimento azul. Essa estratégia chama-se “A Nossa Riqueza Oceânica”” e foi elaborada e iniciou implementação acerca de 4-5 anos, estando a alcançar extraordinários resultados desde que arrancou.

A primeira análise quantitativa do peso da economia do mar da Irlanda no produto interno bruto (PIB) tem como data de referência o ano de 2010 e apura um peso de 0,7%, número que está em linha com o distanciamento, referido anteriormente, do país em relação ao mar, pois se considerarmos que, de acordo como os dados da OCDE, no mundo, o peso da economia do mar ascende a 2,5%, 0,7% é um valor abaixo da média. Mas a Irlanda está a mudar. Tem investido no turismo relacionado com o mar, na fileira alimentar do mar, nos portos e transportes marítimos, na biotecnologia marinha e em tecnologias de informação e comunicação, entre outras áreas do mar, que fazem com que em 2016 o peso da economia do mar da Irlanda tenha saltado para 0,9% do PIB, o que representa um crescimento do 29%, face a 2010, da importância da economia do mar. Ou seja, a nova estratégia da Irlanda para o mar colocou a economia do mar a crescer mais do que a média da economia do país.

Tendo a consciência de que só com mais e melhor conhecimento se consegue ultrapassar o desconhecimento e até o preconceito em relação ao mar, os navios de investigação científica do “Marine Institute” da Irlanda têm estado numa grande azáfama para recolher o máximo de informação sobre o leito marinho, a coluna de água, a superfície da água e toda a fauna, flora e geologia que pertencem ao património da Irlanda. De facto a Irlanda está a dar prioridade ao mar, sendo dos poucos setores onde, apesar das recentes restrições orçamentais que viveu, devido à crise financeira internacional, não existiram cortes financeiros no essencial do projeto que pretende transformar a Irlanda.

O empenho Irlandês nas questões do mar tem sido um empenho de escala internacional. Não é por acaso que a Irlanda foi um dos primeiros países a conseguir aprovar nas Nações Unidas, a extensão da sua plataforma continental. É comum encontrar-se altos representantes da Irlanda em fóruns internacionais, assim como se têm realizado múltiplas parcerias entre países dinamizadas pela Irlanda. Um dos grandes marcos azuis da Irlanda e das entidades que assinaram o acordo (União Europeia, Estados Unidos da América e Canadá), nesta nova era de reforço da importância do recurso mar, é o acordo de Galway. Este acordo, estabelece, entre outras medidas, uma parceria internacional de grande escala para mapear o leito marinho do oceano atlântico. Sem dúvida que inventariar e mapear é uma atividade fundamental para o avanço do conhecimento, para o avanço da economia do mar e também para o reforço da importância do mar para a pessoas. Todos sabemos que só se valoriza o que se conhece e, no caso, de seres habituados à terra, nada melhor do que um mapa do subsolo marinho, para rapidamente associar mar a terra, algo que é nosso e que devemos proteger. A atual geração de Irlandeses, está a dar um contributo único na história deste país, de aproximação das pessoas ao mar e, compreendendo a forma de ser do seu povo, entendeu, que nada melhor do que um mapa, para poder transformar a Irlanda e a Europa no sentido do crescimento azul…



Um comentário em “O Mar no Mundo”

  1. Avelino Freitas diz:

    Parabéns ao autor. Na verdade histórica, a Irlanda, nunca valorizou a imensa riquesa do mar que banha.

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