A diminuição da sardinha pescada aliada ao preço elevado obrigou as empresas de conservas a importarem matéria-prima. Algo insustentável a longo prazo dado que, para já, o aumento dos custos não se reflectiu no consumidor final.
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Os problemas do sector da pesca estão intimamente ligados com os da indústria conserveira. Com o grosso do negócio a estar assente em dois tipos de espécies (atum e sardinha) é fácil perceber a dependência que existe sobre a pesca nacional e as consequências ao nível da importação. Como refere Sérgio Real, representante da Fileira da Indústria Conserveira, a indústria tem, nos últimos anos, importado muito peixe, nomeadamente atum. O que é pescado pela frota nacional, nas águas açorianas, não só é residual como fica nas fábricas dos arquipélagos.

Isto faz com que Sérgio Real seja peremptório ao afirmar que a pesca portuguesa não tem capacidade para “alimentar” as necessidades da indústria. Em causa não só a quota estipulada para Portugal, mas também as embarcações que constituem a frota. Veja-se o caso da sardinha. No ano passado foi um drama e a tendência é para piorar. A sardinha parece estar a desaparecer o que só condiciona a espécie pescada mas também a quota (do ano seguinte) atribuída. Segundo Sérgio Real no ano passado os pescadores conseguiram ultrapassar a situação através do aumento do preço da sardinha. No entanto, alerta, esta é uma solução insustentável a longo prazo. Sem esquecer que, o preço elevado da sardinha obrigou a um aumento da importação das industrias conserveiras. Que não se reflectiu, ainda, no preço para o consumidor final. “A indústria, nos últimos anos, tem sido obrigada a efectuar ajustes violentos”, afirmou, alertando para a insustentabilidade da questão.

Mas será que a indústria não poderia simplesmente criar um novo produto? Começar a vender uma nova espécie em substituição da sardinha? Pode parecer uma solução simples e óbvia. Até se começar a pensar nas implicações. Como relembra Sérgio Real uma decisão desta natureza tem implicações que vão para além de “simplesmente” alterar a linha de produção. Implicava criar um novo mercado. Habituar os consumidores a um novo produto. E isso leva anos a construir. Será que a indústria tem capacidade para esperar?

Sérgio Real dá um exemplo. Nos últimos dois anos a indústria tem comprado pouca sardinha à pesca portuguesa. Não só devido à pouca quantidade, mas também pelo preço elevado. Em alternativa “virou-se” para a cavala. Mas também esta apresenta problemas.

Antes de mais há que perceber que para a indústria conserveira há dois tipos de cavala que lhe interessa: a grande que é utlizada para filetes e a pequena que é enlatada como a sardinha. O problema, revela o responsável da Fileira, é que a pesca portuguesa tem pescado um tamanho intermédio. Que apenas é utilizado para alimento do atum.

Isto leva a que Sérgio Real defenda que deve haver mais e melhor (no sentido de diferente) investigação. O peixe desapareceu (nomeadamente a sardinha) e há que descobriu o que aconteceu e para onde foi. “É preciso mudar o focus da investigação”, afirmou, referindo que o problema é saber por onde anda a sardinha grande, dado que a de pequena dimensão permanece junto à costa.



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