Estranho haver Mundo… Estranho alguma coisa haver em vez de nada… e este estranho e maravilhoso Mundo que tanto nos deslumbra quanto nos confunde…

Firme em minha tristeza, tal vivi.

Cumpri contra o Destino o meu dever.

Inutilmente? Não, porque o cumpri.”

Fernando Pessoa

Reflexão sobre o Mundo, Nós, a Existência e a Vida

nestes mais Estranhos Dias de COVID-19

IÀ Luz dos «60»

Ontem sucedeu-nos qualquer coisa de realmente estranho que ainda não conseguimos perceber bem o que foi …

Aparentemente, na mais imediata, positiva e nítida objectividade das coisas, nada de extraordinário, apenas uma tão inócua quanto, dir-se-á mesmo, inocente pergunta sobre quanto, ou quem, mais decisivamente contribuiu para a nossa formação musical.

Tão simples quanto isso, mas surgindo a pergunta de forma tão abrupta e inesperada quanto se procurava melhor compreender a séria questão destas novas infecções respiratórias que se transformam rapidamente em verdadeiras e terríveis pandemias, como o caso da dita COVID-19, que, vinda lá do mais distante Oriente, a todos, de um momento para o outro, confina e preocupa, a pergunta, na sua aparente simplicidade, ou mesmo real inocência, também não deixou de nos deixar algo atordoados.

Quanto, ou quem, mais contribuiu para a nossa formação ou gosto musical ???!!!…

Que sentido ou propósito de uma tal pergunta neste momento, em tal contexto e circunstância?…

«Duros de ouvido», como se costuma dizer, sem qualquer mais evidente ou, menos ainda, secreto talento musical, nem ligação alguma ao mundo musical, que sentido tinha, realmente, tal pergunta ???!!!…

Que responder ???!!!…

Não seria algo patético, mesmo absurdo, estar a tratar-se de tão sérias e graves questões como a pandemia, COVID-19, confinamento, sobrelotação hospitalar, estimativas de número de vítimas e mortos, e interromper tão sério discorrer com tão abrupta quanto infantil interrogação?…

Que sentido teria tudo isso?…

Que responder ???…

Todavia, devemo-lo confessar, a pergunta, interrogação, ou fosse lá o que fosse, tão inesperadamente formulada como foi, de chofre, não deixou de ter igualmente um tão inesperado quanto estranho efeito sobre nós, uma vez logo nos fazer cair também num tão súbito quanto  igualmente inesperado vertiginoso tumulto de rememoração(1) de nós como nunca antes sucedera e, espera-se, não volte a suceder.

Estranha rememoração que não deixava, inclusive, de ser igualmente acompanhada, ainda por cima, por uma tão estranha quanto algo opressiva desinquietação de alma, como se, de súbito também, nos viesse à consciência, com plena consciência disso, o peso _ ou talvez mesmo uma certa má-consciência _ de algures nos termos perdido de nós, então sem plena consciência disso, sem exactamente sabermos onde, quando ou porquê _ como a Portugal, de algum modo, imaginamos, algures terá talvez sucedido também (2)

Se, por segundos, tudo se afigurava relativamente disparatado, o facto é que, não menos súbito, nos víamos igualmente a mergulhar _ talvez mesmo, mais rigorosamente, a afundar _ num estranho vórtice de díspares memórias que imaginávamos para sempre apagadas e esquecidas…

E tudo isso apenas porque, súbita e inesperadamente interrogados fôramos sobre quanto, ou quem, mais teria contribuído para a nossa formação musical…

Que sentido, realmente, poderia ter tão despropositada interrogação ?!…

Ou, mais ainda, que sentido poderia ter, realmente, tão despropositada reacção, mesmo que tão despropositada fosse a própria interrogação ?!…

Sim, um dia nascemos(3), como a todos um dia terá sucedido, mas, falando com toda franqueza, não tendo nós memória alguma desse já tão recuado primeiro momento, na verdade, quando o mais longe mais recuado conseguimos não é senão ao choque de nos descobrirmos, um dia, para tão grande surpresa quanto deslumbrado espanto, tão subitamente como de um simples instante a outro, com plena consciência disso, de estarmos no Mundo, de sermos no Mundo, rodeados de luz(4), cor, som, os mais subtis aromas e uma estonteante diversidade imensa de encantatórias formas em incessante e permanente movimento, como se resguardando esse mesmo Mundo de outros ainda mais misteriosos e secretos Mundos …

Havia Mundo…

… estávamos no Mundo…

… éramos vivos…

… respirávamos…

… podíamo-nos mexer até, articuladamente…

… caminhar pelo Mundo…

… sentirmos o Mundo…

… sentirmo-nos a nós…

… e sentir-nos nós…

… e vendo, ouvindo, tocando e tendo até o olfacto do Mundo, perceber de quanto o Mundo era feito e tudo quanto estava e era no Mundo…

… e desfrutar de quanto era no Mundo, de quanto era o Mundo, de tudo quanto compunha o Mundo e o Mundo era composto…

… e se tudo isso, que nos surgia tão incompreensivelmente estranho quanto esplendoroso, se não deixava de nos deixar, por um lado, maravilhados, tampouco deixava de nos envolver numa estranha inquietação porquanto, por mais esplendorosa que fosse a visão do esplendoroso Mundo, uma não menos estranha interrogação logo se insinuava insidiosamente também:

Porquê alguma coisa em vez de nada?!…

Porquê, para quê, haver Mundo?!…

Porquê, para quê?!…

… e estarmos, e sermos, no Mundo?!…

Porquê?!…

Para quê?!…

Porquê, para quê, realmente, alguma coisa em vez de nada quando, como era manifesto e evidente, bem mais simples e lógico seria nada em vez de alguma coisa, fosse o que fosse, haver _ como se necessário alguma vez fora alguma coisa em vez de nada vir a haver…

Como se interrogara já Leibniz sem que, na altura, o soubéssemos?

Com certeza, tão evidente ou, dir-se-á mesmo, tão congénita interrogação a todos, de algum modo, num ou outro momento da vida, sempre ocorrerá, como impossível seja assim não ser, mas se alguma coisa havia, como há _ e é manifesto e evidente alguma coisa em vez de nada há _ tal não implicaria, como implica, algo mais, desde sempre e para todo o sempre, necessariamente, haver também?!…

Porquê, realmente, alguma coisa em vez de nada?!…

Tão insondável…

… estranho…

… realmente estranho…

… haver alguma coisa em vez de nada…

… o Mundo…

… nós…

… no Mundo…

… estarmos nesse mesmo Mundo…

… sermos nesse mesmo Mundo…

Estranho, tão estranho…

Deslumbrantemente estranho, por certo…

… mas estranho.

Na inocência desses dias, porém, o Mundo ainda se nos figurava, de algum modo, como um Mundo encantado, se assi se pode dizer…

… com vida própria…

… completamente independente de nós e de tudo…

Como explicar?…

Havia o Mundo…

… estávamos no Mundo…

… éramos no Mundo…

… mas exteriores ao Mundo…

Éramos nós _ e ainda que no Mundo, inteiramente distintos do Mundo…

… e uma radical distância sempre se interpunha entre nós e Mundo…

… como de nós a nós mesmos…

… como talvez do Mundo a si mesmo…

E estava certo…

Santo Agostinho sabia bem da causa do movimento…

… e por isso também este Mundo ser um Mundo em movimento…

… pelos séculos fora, em permanente movimento, …

… como o próprio Universo, sempre em permanente movimento…

… sempre na distância, na necessária distância, necessária incoincidência de si a si mesmo, como de nós a nós mesmos.

E talvez por isso voltássemos de novo os olhos para o mais alto translúcido dos céus, tentando perscrutar na imensidão desses mais incompreensíveis, vastos, infindáveis e enigmáticos siderais(5) espaços, uma resposta…

… mas não encontrávamos resposta _ e quanto nos assaltava não era senão a inquietude da constatação da impossibilidade de um infinito actual…

… tal como já havia visto Aristóteles, como a mais controversa e igual impossibilidade de uma real e absoluta finitude de tudo, mesmo desses mais insondáveis, vastos e enigmáticos siderais espaços…

Que significava tudo isso, que podia tudo isso significar?!…

Impossível, tão impossível pensar a finitude de tudo quanto pensar o mesmo infinito?…

Mas estávamos no Mundo, havia Mundo…

… alguma coisa em vez de nada…

… haver alguma coisa em vez nada…

… haver de um instante a outro, de um passo a outro…

… infinito, algum infinito, em algum plano da realidade, havendo alguma coisa em vez de nada, havendo de um instante a outro, de um passo a outro, necessário, absolutamente necessário, haver também…

Que significava tudo isso, que podia tudo isso significar?!…

Intrínseca e cumulativa incindível unidade real de espaço, tempo e movimento?…

Mergulho da actualidade no próprio infinito?…

… apenas modos do mesmo?…

Em verdade, já o infinito, já no infinito?…

Que infinito?!…

Que sabíamos, que podíamos saber?

Se alguma coisa em vez de nada, como nítido haver alguma coisa em vez de nada, impossível um mínimo de consciência não haver de alguma coisa em vez nada haver, sob pena de sentido algum, impossibilidade mesma, de alguma coisa haver em vez de nada, haver sequer …

Como impossível, absolutamente impossível, alguma coisa havendo em vez de nada, pensar o antes de tudo …

… como o nada…

… para além de toda a consciência, para além de todo o mínimo de consciência…

Que sabíamos, que podíamos saber?!…

Alguma coisa em vez de nada…

O Mundo…

Nós…

… de algum modo, sempre estranhos a nós, sempre na incoincidência a nós mesmos…

… mas nós.

Que sabíamos?!…

Que sabíamos, que podíamos saber na inocência desses mais recuados dias quando o Mundo ainda se nos figurava ainda, de alguma forma, estranhamente encantado…

… em que podíamos ainda deixar simplesmente transcorrer o tempo no seu límpido passar suave das horas enquanto, deambulando pelos campos, à descoberta do mesmo Mundo, de quanto era no mesmo Mundo, íamos procurando imaginar sempre também todas as suas possíveis transformações, desde os seus mais imemoriais instantes iniciais até aos seus mais longínquos e apocalípticos dias finais…

… e talvez por isso também o quase obsessivo fascínio pelas ruínas que nos iam surgindo pelo caminho, sempre envoltas numa aura de decaído esplendor mas como servindo também como uma espécie de silenciosa evocação de todo um já longo passado…

… símbolo, talvez, do próprio transcurso da existência, de quanto fica e deixamos da passagem por sempre tão estranho e enigmático, mas também magnífico, Mundo.

Esses mais recuados e inocentes dias em que podíamos ainda deambular livremente entregues a nós, a sós connosco mesmos, não era apenas a fervilhante beleza da natureza, da vida e do Mundo que mais nos surpreendia e deslumbrava, se assim se pode dizer, mas talvez a sua mais secreta e misteriosa harmonia, mais previsível e segura continuidade…

Mesmo nas longas noites de tormenta, quando se viam os céus em fúria, caoticamente rasgados pelos mais brilhantes raios de transfixa luz, logo acompanhados pelo ribombar tremendo dos mais surdos trovões que, estremecendo o Mundo e toda a existência, ficavam a reverberar, longa e cavadamente, pelas mais remotas profundezas do firmamento até se esvaírem e emudecerem, lentamente, na distância…

… mesmo nesses momentos, a noção de secreta harmonia, misteriosa previsibilidade e segura continuidade, não se perdia…

… não era o caos que se instalava…

… mesmo quando tudo tremia no seio do mais constante e perpétuo movimento de tudo…

… não desabava tudo…

… como se uma oculta e imóvel força superior a tudo, tudo constante e permanentemente sustentasse…

Como um permanente cosmos em vez de simples permanente caos?

Não, o Mundo era, não podia ser, por acaso, i.e., sem causa _ e sabendo como a causa final é sempre a primeira das causas _ tampouco sem finalidade.

Havendo alguma coisa em vez de nada…

… mesmo que nem tudo, imediata e inteiramente, sempre compreendêssemos…

… nada era sem causa…

… ou finalidade…

… a primeira das causas, como já Aristóteles preceituava.

Mesmo se ficávamos horas perdidos a observar simplesmente o vaivém tão enigmaticamente regular, enigmaticamente metódico, tão estranhamente organizado, tão estrita e absolutamente cadenciado, de um simples carreiro de minúsculas formigas a transportarem minúsculos alimentos (minúsculos para nós, enormes, brutais, para elas), era tudo isso ainda que estava bem presente: a secreta harmonia, lógica previsibilidade e segura continuidade de tudo …

Nada sem causa ou finalidade…

… sentido próprio…

… mesmo que, por vezes, realmente, muito para além da nossa imediata compreensão.

Como aceitar, realmente, perante o contínuo movimento do Mundo, de tudo quanto parte do mesmo Mundo e do próprio Universo(6), a possibilidade sequer, de alguma coisa vir alguma vez a ser para, sendo, vir a deixar de ser, deixar de ser?…

… mesmo reconhecendo o natural trânsito da geração e da corrupção…

… que sentido teria, realmente, se assim fosse?…

Estranho Mundo, entranha realidade…

E nós no Mundo…

… talvez até um pouco perdidos no Mundo…

… não deixando de estranhar o Mundo…

… estarmos no Mundo…

… sermos nós.

E talvez também por tudo isso, se nesses já mais recuados dias, errada e pateticamente designados e aceites como suposta idade «de doce e santa inocência», quando podíamos ainda ficar, privilegiadamente, horas perdidas descuidadamente estregues a nós próprios(7), vagueando a sós pelo mundo, tão livremente quanto possível, perdidos, simplesmente, nos nossos pensamentos e na contemplação de quanto era o Mundo, quanto era no Mundo, não era por qualquer mais subtil ou manifesto indício de potencial autismo, qualquer mais manifesta ou simples implícita aversão ao sempre deslumbrante e esplendoroso Mundo, nem ao que quer ou a quem quer que fosse…

… aceitávamos o Mundo tal como tudo quanto era do Mundo e era no Mundo…

… sem reserva mental ou «parti-pris» algum …

… uma vez haver alguma coisa em vez de nada…

… a questão não era aceitar ou não aceitar, rejeitar ou fosse o que fosse…

… tão simplesmente compreender…

… sabendo difícil um socorro do alto ou, talvez mais imediatamente, fosse de quem fosse…

… porque ninguém pode pensar por nós, como ninguém poderá, vez alguma, amar por nós…

… e por isso éramos, inevitavelmente, a sós connosco mesmos…

… como perfeitamente o sabíamos…

… na incoincidência de nós a nós mesmos…

… na consciência da incoincidência de nós a nós mesmos, exactamente, talvez mesmo quanto, afinal, ainda mais verdadeiramente nós…

… mesmo que sempre algo abstruso…

… mesmo que sempre difícil de inteiramente o compreender e quanto aí mesmo, em tudo isso,se ocultava também…

Mas ainda assim, mesmo sem que possível fosse tudo inteiramente compreender, mesmo independentemente de tudo quanto nós para nós, nítido _ perfeitamente nítido _ era sempre, de algum modo, sermos nós, sempre impreterivelmente nós, sempre únicos, como mais ninguém(8)

… mesmo talvez não sabendo nunca, na incoincidência de nós a nós mesmos, quem real, inteira e verdadeiramente(9) nós…

… neste estranho Mundo, nesta estranha realidade _ ou até mesmo independentemente deste estranho Mundo, desta estranha realidade…

Nós…

… para sempre nós…

… para todo o sempre…

… nós…

…impreterivelmente nós.

Não, não era necessariamente reconfortante …

E tudo isso, ou tudo isto _ ou a consciência de tudo isto ou tudo isso _ apenas porque ontem, vá-se lá entender porquê, inesperada e incompreensivelmente, nos perguntaram, tão súbito quanto a despropósito, quanto mais decisivamente contribuiu para a nossa formação ou gosto musical …

… a nós, manifestamente «duros de ouvido» que nem uma porta…

… a nós, sem formação e, talvez mesmo, gosto musical algum…

… a nós, muito longe e afastados de tudo isso …

Que sentido, realmente, tudo isso, tudo isto?…

E que importa, que pode importar tudo isso, ou tudo isto, a quem quer que seja, até mesmo a nós próprios?…

Que importa, que pode importar, tão longa rememoração de tão recuados dias…

… desses mais recuados dias em que podíamos ainda ficar, privilegiadamente, horas perdidas descuidadamente estregues a nós próprios, vagueando a sós pelo mundo, tão livremente quanto possível nessas idades livremente vaguear, perdidos, simplesmente, nos nossos próprios pensamentos…

… na contemplação do Mundo…

… e sempre procurando perscrutar o mais fundo, talvez o mais alto, do que se diz como mais verdadeira e real realidade…

E tudo isso, ou tudo isto, também porque estranhávamos o Mundo, a Vida e tudo o mais _ mesmo haver alguma coisa em vez de nada?…

Estranhávamos…

… muito…

… como, talvez ainda mais, estarmos no Mundo …

Mas tínhamos que nos habituar…

… a estar no Mundo…

… a sermos no Mundo…

… a estar vivos…

… e a viver…

… adquirindo, como hábito de se estar vivo, o hábito de viver também…

O que se tentava fazer…

… nesses dias em que podíamos ainda ficar privilegiadamente, horas perdidas, descuidadamente apenas entregues a nós mesmos, a deambular, a sós, pelo Mundo, pelos campos e pelos bosques, e por mais estranha que fosse essa quase permanente sensação de distância de nós a nós mesmos, mesmo de dissonância de nós a nós próprios, como de nós ao Mundo, tudo em volta, toda a Natureza, não deixava no entanto de transmitir uma não menos estranha sensação de absoluta paz como se tudo, símbolo de um qualquer mais alto e ancestral arquétipo(10), estivesse rigorosamente certo, absolutamente certo…

… como se tudo sem falha nem fissura…

… como se tudo absolutamente quanto absoluta e exactamente sempre fora para ser…

… como se um tão incompreensível quanto misterioso superior sentido de real harmonia sempre a tudo presidisse …

… e um sábio equilíbrio ao Mundo e tudo quanto é no Mundo, mesmo no mais intrínseco e aparentemente permanente anárquico movimento, sempre igualmente impusesse…

… nesses mais recuados

… em que preocupação alguma de ordem material nos atormenta, em que temos, continua e permanentemente, sempre quem vele e zele por nós…

… em que sabíamos ser, por princípio e definição, tempo de ser felizes…

… como, de algum modo, éramos…

… como, de algum modo, fazíamos por ser…

… e sempre procedíamos como se real e verdadeiramente o fossemos…

… por ser absurdo não o sermos…

… como seria profundamente ingrato não o sermos.

Que era, que é, a felicidade?…

Que era, que pode ser, a felicidade?…

Sermos inteira e realmente quanto para sermos viemos a ser?…

… mas, na incoincidência de nós a nós mesmos, nessa espécie de intrínseca dissonância de nós a nós, sabíamos já quem real e verdadeiramente viéramos a ser para real e verdadeiramente sermos?…

… quem realmente nós para realmente ser, para realmente sermos???….

Cedo demais, ainda, talvez…

… que sabíamos, que podemos saber?…

… como se todos nós nascêssemos com determinadas interrogações a que tivéssemos de responder…

… como se de alguma maneira fossemos essas mesmas interrogações…

… sem sabermos bem exactamente emersas de onde …

… ingénitas…

… nós…

… nós, que vivíamos esses mais recuados iniciais dias ainda sob o mais encantatório efeito das maravilhosas pequenas caixinhas de música(11) que ternamente sempre nos acompanharam desde a cabeceira da mais tenra infância…

… a revelarem à alma o segredo e o mais secreto poder da mais etérea e imponderável «harmonia das esferas» como a mais metafísica das artes(12)

… única verdadeiramente capaz, talvez, de nos salvar de nós…

… e do Mundo.

Esses os dias também em que nos deixávamos fascinar pelo mais fabuloso mundo dos mais efabuladores contos de fadas(13) _ alguns dos quais nunca deixaram de nos perseguir e acompanhar a vida inteira(14)

… incendiando a infantil imaginação na ilusão de um dia ser possível montar um fabuloso Lusitano e partir(15) rápido até «lá onde só lá vai quem lá vai»…

… seguindo a mais profunda coerência(16) que o Mundo, mesmo nas suas mais profundas incoerências, e mesmo incongruências, sempre manifesta também…

… quando tudo isso não deixava de despertar igualmente uma espécie de ancestrais memórias(17), difusas, por certo, talvez já só mesmo eventualmente vivas no sangue…

… inegáveis, porém, e, por tudo quanto faziam ecoar no mais abscôndito de nós, a confundir-nos entre a pura imaginação e vaga lembrança de outras eras como subtil manifestação da real possibilidade de não só herdarmos a memória de sons, sonhos e imagens, como natural recebermos por pura transmissão genética a cor dos olhos, dos cabelos e de outros caracteres físicos e, quem sabe, até morais, como também se diz…

… o poder do sangue, da hereditariedade(18) _ quem sabe?…

O poder do sangue, da hereditariedade _ o que nos deixava sempre também tão igualmente intrigados quanto inquietos …

Haveria parte de nós para além de nós…

… não inteiramente nós?…

… parte de nós mais do que nós?…

… nunca apenas nós?…

… e não era exactamente isso que, de algum modo, mesmo que de forma aparentemente algo ínvia, sempre era implícito…

… que há sempre mais Mundos do que apenas o imediato Mundo…

… e ser, ou sermos, é sempre sermos mais do que nós…

… mais do que apenas imediatamente nós no imediato Mundo em que imediatamente estamos e somos…

… ou como tal assim vemos.

O poder da palavra…

… a despertar a imaginação…

… mas a libertar a imaginação da directa e tirânica subjugação ao despótico fascínio hipnótico da imagem, da imediata imagem…

… procedendo à necessária distinção entre imagem e fantasma…

… não confundindo imaginação e fantasia.

O poder da palavra…

… que liberta…

… e dá também, de algum modo, o domínio do Mundo.

O que talvez explique porque, tão inexplicavelmente, tão Portugueses(19) nos começávamos, de alguma forma, a sentir também…

… ou assim a reconhecermo-nos.

O poder da palavra…

… que nos liga ao Mundo…

… a nós mesmos…

… aos outros…

Aos outros, a quem nem sempre é fácil de entender(20)

… se alguma vez inteiramente possível sequer…

… se nem sempre a nós inteiramente entendemos…

… e sempre a mesma abissal e quase intransponível distância…

… mesmo quando tão aparentemente próximos…

… a irredutível distância …

… irremissivelmente distantes e tão individuadamente si mesmos, tão estranha, insondável, irredutivelmente outros…

Nesses mais recuados dias…

… em que vivíamos ainda também sempre rodeados de pessoas a velarem e a zelarem por nós…

… e a levarem-nos ao Circo(21), de que ainda guardamos, até hoje, as mais intemporais, comoventes e exaltantesmemórias(22)

… assim como dos dias em que víamos as ruas atravessadas pelas mais exóticas e deslumbrantes  trupes de foliões e saltimbancos, e desfile, a celebrarem(23) um qualquer mais real ou mais fantasioso Carnaval…

O Circo e os dias que estavam na vila…

… dias de deslumbramento e fascínio também…

… não apenas pelo espectáculo em si mas por todo o ambiente que criava em torna de si…

… o seu cíclico regresso ocorria com uma regularidade quase matemática, como a das Estações do Ano…

Chegavam de noite, ou madrugada, e de manhã percebendo-se a instalação do acampamento da respectiva «Companhia» _ eram quase sempre as mesmas duas ou três «Companhias» que regressavam regularmente _ onde se incluíam inúmeras roulottes, camiões e atrelados para transporte de material e animais, em atrelados feitos em jaula, desde os mais ameaçadores tigres e leões, a imporem sempre o seu respeito, até, por vezes, aos mais massivos e possantes elefantes, não menos surpreendentes e admiráveis, sobretudo para quem ainda nessa mais recuada primeira idade, mesmo que sempre com um estranho meigo olhar e afável aspecto, placidamente simpático _ ainda que, na verdade e no caso, sempre apenas de relativamente pequenos elefantes se tratasse.

Depois, enquanto uma furgonete percorria durante dias, incessantemente, as ruas da vila já repleta de cartazes de anúncio ao espectáculo, ia dando notícia, sempre sob um fundo de música circense, das novidades e do número especial, a grande atracção da actualidade, em gravação sempre gritada a alto volume pelos mais roufenhos dos altifalantes: «Circo X apresenta pela primeira vez o Homem Bomba…», aumentando, naturalmente, a cada passagem, a cada anúncio, a expectativa de ver mesmo, ao vivo, o «Homem Bomba» a ser disparado por um canhão e, sempre em ascensão, cruzar os ares por longas dezenas de metros, até descer ia-se lá saber e em que condições, como sugestivamente exposto nos cartazes.

Por vezes visitávamos também o acampamento e o exotismo de tudo não deixava de impressionar…

… não apenas as extravagantes roupas de todos os elementos que se iam cruzando connosco, como do respectivo desenho, das cores e lantejoulas a rebrilharem permanentemente os mais mínimos e subtis cambiantes de luz, assim com mais inusitados e excêntricos adereços mas, acima de tudo, os próprios rostos, marcados, inexplicavelmente, em muitos casos como se interiormente dilacerados mas, simultaneamente, numa total ausência de expressão…

Difícil de rigorosamente descrever quanto realmente visto e admitimos até, nesse caso, uma certa inocência do olhar não deixar, eventualmente, de ajudar, inocentemente, a distorcer o que talvez devesse ser uma mais exacta, correcta e fidedigna observação de tudo.

Entretanto, a tenda ia sendo paulatinamente montada e, dois ou três dias depois, sobrevinha o grande dia da estreia e o espectáculo raramente desapontava.

Dos acrobatas aos malabaristas, dos contorcionistas e ilusionistas até aos engolidores de fogo, trapezistas _ que, nas alturas, saltavam no vazio até encontrarem, iludindo o abismo, as mãos das suas companheiras de espectáculo _ tudo, incluindo os inevitáveis palhaços e equilibristas, era motivo de espanto, assombro, admiração _ e susto, por vezes, também.

Tudo nos impressionava, sim _ mas talvez ainda mais do que o espectáculo em si, o que mais verdadeiramente nos impressionava era o todo…

… não apenas todo o ambiente em torno do espectáculo mas aquele estranho modo de vida de todos quanto parte do grupo, da «Companhia…» _ X, ou Y pouco importava…

… tão distinto de tudo quanto se nos afigurava se nos figurava comum, normal, expectável…

… como se, de algum modo, sem apego ao mundo…

… como se, de algum modo, despojados de tudo…

… exclusivamente concentrados na sua arte…

… sendo exacta e completamente quanto eram para ser _ e era esperado que fossem…

… como se estivessem no mundo mas sem completamente serem do mundo…

… como transitoriamente passando, apenas…

… completamente entregues ao seu destino…

… seguindo sempre, numa espécie de discreta peregrinação, de cidade em cidade, de vila em vila, no cumprimento desse mesmo destino, perfeitamente determinado, perfeitamente conhecido, inteiramente aceite e assumido…

… e, de algum modo, até talvez já integralmente cumprido, de levar a todos e a todos proporcionar esses momentos de distensão, alegria e júbilo…

… pela possibilidade oferecida se esquecerem de si e, por momentos, mesmo da angústia que a vida também traz consigo…

… a angústia de ainda não se ser, ou não se ser mesmo, quanto para ser se veio a ser…

… sem mais.

Tudo isso, verdadeiramente, quanto mais impressionava _ nesses mais recuados dias em que ainda era suposto sermos, simplesmente, inocente e sonhadoramente(24) felizes …

E talvez não fosse totalmente errado…

… o choque, o verdeiro choque com a realidade, só sobreviria realmente mais tarde, bem mais tarde…

… e não exactamente pela progressiva consciência de o mundo poder não ser, afinal, um lugar sempre tão seguro(25) quanto supostamente seria para ser, mas porque, essa suposta tão natural quanto encantada infantil(26) despreocupação, não poderia _ talvez pela própria natureza das coisas _ persistir para sempre…

… como todos facilmente compreenderão e aceitarão, por certo.

Mas nesses mais recuados dias esses em que podíamos ainda estar a sós connosco, aguardávamos igualmente, não mesmo sem uma quase mesma secreta ansiedade, a regular passagem desse mais proverbial figura do «amolador de facas e navalhas», o «homem do realejo», que sempre se fazia anunciar, desde o longe, pelos crescentes encantatórios acordes do seu mágico instrumento(27), e fazendo-se sempre acompanhar da sua inseparável pequena sirigaita a bater numa pandeireta e a ensaiar os mais desengonçados pequenos e saltitantes paços de dança, sempre aparentemente tão alheada de tudo quanto tão encantadoramente deslumbrante como um  sortilégio(28)

… e sempre seguida por um alegre e engraçado pequeno rafeiro de pelo castanho que sempre parecia querer imitar os seus passos para merecer os pequenos pedaços de chocolate que, sob o mais rasgado e doce sorriso, lhe iam sendo generosamente distribuídos.

«Come chocolates, pequena; Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolate. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. Come, pequena suja, come! Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!» _ pensávamos então, apenas ainda e tão só transpostamente, sem que, exactamente assim, nessas mesmas exactas palavras, nesses exactos termos, o soubéssemos então já exactamente o dizer…

… e se, por momentos, «metafisicamente», nos imaginávamos a aproximarmo-nos daquele pequeno anjo de cabelos tecidos a fios de sol e olhos de mar e, estendendo a mão,  a pedir-lhe que nos ensinasse umacanção(29) para celebrar o Mundo,  a vida, independentemente de tudo quanto muitos poderiam dizer(30), a verdade é que, recolhidos em nós mesmos, sempre ficávamos do lado de cá, a observar, simplesmente, a fulgurante aproximação daquelas tão fantásticas figuras que, para nós, nos breves instantes da sua passagem, concentravam em absolto todo o ser do Universo, seguindo-as fixamente, extaticamente absortos, até que, esfumando-se progressivamente na sua materialidade, confundidas já na bruma da memória, desapareciam suavemente perdidas nas mais obscuras e imperceptíveis curvas do tempo…

… deixando-nos como que também perdidos, ensimesmados, a cogitarmos longamente sobre qual o sentido de assumirmos tão imediatamente como verdadeira realidade quanto não se afigurava afinal senão sempre mera transitória passagem, precária aparência, do que, estranhamente assumimos sempre como a mais imediata, verdadeira, única e real realidade, sem verdadeiramente apreender que mais verdadeira realidade é que essa mesma precária realidade tão só representa ou manifesta, sem alguma vez, verdadeira e inteiramente, a poder ser…

… sabendo nunca sabermos inteiramente dizer o quanto, verdadeira e exactamente, sempre nos pode trair a própria memória também…

… e difícil sempre seja perfeitamente distinguir traída memória de tão só imaginada ilusão…

Nesses mais recuados dias em que tudo parecia ainda tão relativamente simples e imediato, logo tudo começava o entanto a manifestar-se bem mais intrincado e talvez mesmo bem mais confuso e complexo…

… nesses mais recuados e ainda plácidos dias, neste mais estranho e paradoxal Mundo…

… em que sempre é difícil decidir e exactamente saber quanto verdadeira e realmente para ser…

… para ser verdadeira, inteira e plenamente  real(30)

O real…

…a fugir sempre entre a sempre terrível nitidez fixa das coisas e o estranho momento em que «tudo perde as arestas e as cores» …

.. em que outra realidade parece igualmente emergir e tomar conta de tudo…

… e se, nesses mais recuados dias, ainda inteira, verdadeira e plenamente não entendêssemos Pessoa, já imaginávamos, de algum modo, intuitivamente, quase inteiramente o compreender(31),

… na «Noite», povoada de estranhas sombras e assombrosas imagens(32) caleidoscopicamente fragmentadas, a projectarem-se num interminável baile de distintas estranhas sensações, percepções, emoções, sobre sempre um mesmo ignoto fundo a denotar haver talvez mais Mundos e talvez bem mais reais que toda a realidade imediatamente dada deste Mundo…

… realidade imediatamente dada, mas sempre imediatamente a esvair-se e a desaparecer nos interstícios do tempo e dessa mesma realidade imediatamente dada…

… mesmo, quem sabe, mesmo nos mais vívidos e assombradamente abstrusos sonhos(33), próprios da idade, ainda sempre a mesma estranha e inquietante incerteza se não realmente sempre entre(34) Mundos…

… na sombra, entre Mundos…

… nesses mais recuados dias em que ainda éramos nós a sós connosco, mas, quem sabe, receando e pressentindo já também poderem esses mais sossegados dias estar a chegar ao seu termo…

… o receio temor de o tempo começar a escapar também..

«Tempus fugit»…

Felizmente, a maníaca obsessão do «Pré-Escolar» e a mais, terrível, sinistra, satânica invenção da meticulosa organização de todo o mais mínimo «tempo-livre», ainda não chegara e ainda havia tempo para sermos nós a sós connosco mesmos e podermos, a sós connosco, vaguear livremente em desocultação do Mundo, da vida e, quem sabe, talvez mesmo de nós mesmos…

Mas o «Choque da Realidade» nos deixaria, inevitavelmente, de sobrevir, de forma devastadora …

… como sobreveio, devastadoramente…

Nada contra a Escola(35)… _ sempre fonte de boas, das melhores, aprendizagens para a vida, como exactamente para o que serve…

… mas ainda não era tempo…

… ainda críamos ser tempo de estarmos a sós connosco…

… queríamos tempo a sós connosco mesmos…

… e todo e tão próximo e íntimo contacto humano(36) não se nos afigurava senão apenas tão perverso como inútil, mesmo estúpido…

… deixassem-nos em paz, sossegados, a sós connosco…

… longe da confusão de todos quantos nada nos diziam, a quem nada tínhamos a dizer, com quem muito pouco tínhamos em comum, ou mesmo nada, …

… todos quantos não compreendíamos…

… todos quantos a dizer pudessem ter, pouco nos interessava…

… e, tudo isso, o resultado não era sempre senão acentuar-se uma mesma cada vez mais profunda estranheza, um mesmo natural e cada vez maior afastamento, uma mesma ingénita e cada vez mais intransponível distância a afirmar-se…

O Mundo, a Vida, fosse lá o que fosse, no entanto, impunham-se…

… mesmo sabendo-se para tudo quanto mais importa verdadeiramente aprender na vida serem os verdadeiros professores sempre outros(37), impossível subtrairmo-nos a quanto, por si mesmo, fatalmente se impunha _ naturalmente…

… era necessário aprendermos a conviver, a sermos para os outros, a socializar(38), seja lá o que isso for …

… era necessário, em suma, aceitarmos, talvez, não sermos para nós…

Ainda tivemos a ilusão de poder ser diferente, de conseguirmos subtrairmo-nos a essa forçada pavorosa «socialização»?

Tivemos, mas não passava, como não passou, evidentemente, de pura e momentânea ilusão…

Por ironia, salvar-nos-ia, porém, em parte, a nossa natural dissonância com o Mundo e as comuns «musicais harmonias» do mundo…

Era o tempo «em que se festeja ainda o dia dos meus anos», em que se sabia ainda o que era o Natal e se festejava o Natal…

… e havia ainda as ditas «aulas de Canto Coral».

O Natal aproximava-se e era visível o alegre entusiasmo da professora em iniciar os preparativos das respectivas celebrações que incluíam, naturalmente, os cânticos adequados à quadra.

Iniciaram-se os ensaios.

Em conjunto, a turma começou por entoar, «a capella», um tradicional e popular tema(39)  bem conhecido de todos.

Um primeiro momento, pelos gestos largos, pelo sorriso aberto, percebia-se a satisfação da professora em preparar os seus alunos para um momento que iria ser, com toda a certeza, magnífico.

É certo que, também por muito desconhecimento, se entende Portugal não ter uma exaltante tradição musical, salvo talvez, mais lembrados, os mais exuberantes dias de um D. João V que, além  ter trazido à Corte de Lisboa uma figura tão magnífica como a de um Domenico Scarlatti(40), chegou inclusive a compor peças sinfónicas, mas, ainda que tudo isso fosse exactamente assim, mesmo que grande tradição musical conhecido não tenhamos, nada justificaria negar-se a tão dedicada e zelosa professora o gosto, e o prémio, de um momento musical único, arrebatador, com os seus pupilos.

E talvez por isso mesmo, numa enérgica expressão algo estranha, de sobrolho carregado, poucos segundos eram passados do início do ensaio, e logo deu ordem de imediato silêncio, para, após algumas indicações e chamadas de atenção à colocação das vozes e ao modo entoação dos versos, tudo recomeçar.

Notava-se agora, porém, a pairar na sala uma pequena nota de apreensão…

Mas o ensaio recomeçou…

… e não eram ainda passados senão os primeiros segundos, logo a professora tudo interrompe e, com um ar atónito, fixa o seu olhar sobre nós numa estranhíssima expressão, entre o meio perplexo e o completamente arrepiado, ordena que entoemos, a solo, algo tão simples como um simples «Parabéns a Você»…

Ainda mal termináramos a primeira estrofe e vemos iluminar-se-lhe o rosto com a felicidade de ter encontrado _ com facilidade, sem demora e sem margem para dúvidas _ a horripilante fonte de toda a dissonância…

… e assim sendo, nada mais haveria a fazer, com certeza, do que dispensar-nos imediatamente do ensaio _ aplicável, evidentemente, não apenas para o presente como para todos os subsequente ensaios…

… dado ser um caso perdido, sem remissão _ depreendemos, com grande gratidão nossa…

Era magnífico e muito justo(41) _ muito mais justo do que, eventualmente, a pobre professora alguma vez poderia mesmo supor …

Ganhávamos uma espécie de suplemento de vida: durante semanas irámos voltar a ter privilégio de termos tempo para estarmos a sós connosco nos períodos dos ensaios, uma vez estarmos dispensados, muito simpaticamente, de comparecermos fisicamente sequer à aula.

Pouco seria, por certo, mas imensa, em contrapartida, a satisfação…

Pouco a pouco, começávamos igualmente a compreender como o Mundo é realmente um «Palco», como, afinal, já o tinha dito Shakespeare(42), como quase tudo sobre a humana situação e correspondente dramática condição, soube dizer…

 … como a importância, talvez, não da «Arte» mas «Ironia»(43)  _ a sempre tão louvada «Socrática ironia» que tantos tanto celebram e tão poucos acertam onde Patão verdadeiramente a colocou _ para nos salvarmos do Mundo e, quem sabe, até de nós…

Nem tudo era negro.

Tínhamos o tempo do nosso lado(44) _ e se não fossemos «grandes asnos», nada mais arriscando senão seguir e proceder, simplesmente como todos, rapazes e raparigas, da nossa geração(45), talvez até conseguíssemos passar despercebidos, completamente desapercebidos, reservando sempre, «ironicamente», um mínimo de liberdade para nós.

Não era difícil, bem pelo contrário, seria até bastante fácil _ tão fácil como «sempre fácil é cumprirmos preceitos de terceiros a nosso respeito»…

E começávamos a compreender como tudo na vida tem também o seu tempo próprio(46) e ser tão estúpido quanto inútil querer antecipar quanto não chega nunca senão quando é realmente tempo de chegar _ mesmo que essa estranha sensação de ser já tarde demais, de ser sempre já «tarde demais», começasse insidiosamente insinuar-se para nunca mais inteiramente nos libertar também…

Nada a fazer, nada a fazer mais senão aguardar, deixando-nos arrastar, calma e pacientemente, na sempre estonteante vertigem(47) da irrevogável «tão lenta passagem dos segundos e tão rápida a passagem dos séculos», lá até onde sempre teríamos de ir e impossível seria tentar sequer recusar…

… tentando, entretanto, enquanto isso, aprender com a vida _ vivendo …

… a questão era apenas como…

… porque não bastava sermos…

… ser é sempre ser alguma coisa…

… o quê?…

… eis a questão!…

Fosse como fosse, talvez fosse tempo de mudar(48)

… impossível, nem qualquer sentido, ou seria mesmo sermos absolutamente a sós…

… tal como, em verdade, nem realmente nascido absolutamente a sós éramos…

… nem, absolutamente a sós, possível seria termos chegado, muito provavelmente, a adquirir plena consciência de nós…

Tudo isso sabíamos…

… como tudo ser sempre um pouco mais complexo do que, por vezes, se imagina, o sabíamos também…

… como tampouco desvalorizávamos a importância da Escola

… não apenas pelo mais tradicional ensino teórico que sempre se pode aprender, por vez com vantagem, nos livros(49)

Mas, talvez acima de tudo, pela mais decisiva experiência prática(50), de forma a podermos vir a alcançar o êxito e o sucesso que todos sempre desejam alcançar e que todos sempre desejam também que viéssemos igualmente a alcançar.

«C’est la vie»(51)

 … e neste Mundo, neste Mundo Moderno, ainda por cima, crescentemente competitivo, desenfreadamente competitivo, em que a vida se transformou em pouco mais tão permanente quanto obsessiva(52) e desenfreada busca do reconhecimento que Hegel dava já como primordial aspiração de todos…

Talvez impossível vivermos realmente sem um mínimo reconhecimento…

… o que não deixaria de significar talvez também real e completa alienação…

… mas não importa de quem esse mesmo reconhecimento pretendido ou necessário?…

… ou talvez por isso mesmo, a mais inteligente atitude seja mesmo a de sempre se saber seguir, mimeticamente, simplesmente quem, por seguir na frente, sempre marca quanto a fazer, como o fazer (53) _ enfim, de algum modo, ensinando como agir…

Sem mais _ ou independentemente de tudo o mais…

Soubéssemos ser fiéis aos mais altos ensinamentos aprendidos e talvez fossemos felizes…

Mas não era simples…

… nada era simples …

Algo se patira dentro de nós e, talvez para sempre divididos(54) entre quanto nós para nós e nós para o Mundo…

… no Mundo…

… como quanto se imaginava o Mundo sempre esperar _ ou até talvez mesmo exigir sempre _ de nós…

… importando, por isso mesmo, saber cinzelar a adequada e bem-adaptada «persona» a apresentar ao Mundo, passível de sempre ser por todos logo imediata e distintamente reconhecida como _ estranha mas irrevogavelmente _ nós…

nós

… nós e a «imagem» de nós, porque «ninguém é alguém até formar uma imagem de si»…

E não era exactamente para isso que servia, acima de tudo, a Escola?!…

Não cumpria assim a Escola exactamente quanto se esperava que cumprisse?!…

… facultar-nos as necessárias «ferramentas» e ensinar-nos a usá-las exactamente para isso?…

Aparentemente, assim acontecia, sem dúvida.

Fossemos inteligentes e sabendo ser fiéis aos mais altos ensinamentos da Escola, provavelmente, seríamos felizes…

Nada contra a Escola.

Nada de errado com a Escola _ devíamos ter plena consciência disso…

… tudo estava do nosso lado(55)

… tivéssemos consciência disso também.

Sim, hoje talvez se possa falar da recorrente e sempre muito debatida questão de bem distinguir entre «instrução» e «educação»…

… mas não éramos, então, tão precoces e sofisticados assim…

… e tudo se nos figurava bem mais simples: quer quiséssemos ou não, éramos nós, impreterivelmente nós…

… e, quiséssemos ou não, essa era a fundamental, decisiva e ingénita intuição.

… importando, acima de tudo, a «luta pela expressão»…

… a «luta pela expressão» da mesma fundamental, decisiva e ingénita intuição…

… aprendendo a «encontrar a palavra certa»…

E, para isso, era a Escola igualmente de decisiva e fundamental importância…

… utilidade…

… não perdêssemos nunca a noção de «sempre ser fácil cumprirmos os preceitos de terceiros a nosso respeito mas a grande obra, verdadeiramente difícil, sabermos mantermo-nos sempre fiéis a nós próprios»…

Saberíamos «sempre ser fiéis a nós próprios(56)»?…

Teríamos ainda tempo para não nos perdermos…

… ou começava a faltar-nos já o tempo?…

Fosse como fosse, não culpávamos a Escola…

… como hoje é possível compreender melhor…

… depois de Locke ter preceituado a «tábula rasa», que Sartre levaria ao extremo com a sua famosa tese de «a existência preceder a essência», que esperar de um Mundo já completamente exteriorizado, uma «Máquina», como um «Relógio», em que o «Relojoeiro», depois de ao «Relógio» ter posto em movimento, decidira simplesmente retirar-se, deixando ao homem a tarefa de, munido de uma «nova filosofia», «se tornar dono e Senhor da Natureza»?…

E se o Mundo não era mais do que uma grande «Máquina», sendo apenas necessário aprender a devidamente a «organizar», muito bem viram igualmente Saint-Simon e Comte, porquê surpreendermo-nos se a Escola todos não toma apenas como uma «peça» a burilar, exactamente, para que a «Máquina» não falhe, não se «engasgue»?…

E tudo isso, ou tudo isto _ uma vez mais _ apenas porque ontem, vá-se lá entender porquê, inesperada e incompreensivelmente, nos perguntaram, tão súbito quanto a despropósito, quanto mais decisivamente contribuiu para a nossa formação ou gosto musical …

… e tão inesperadamente quanto incompreensivelmente também, estas muito estranhas e já muito recuadas memórias…

… muito antigas memórias, desses já muito recuados dias de 60

… quando começávamos a suspeitar também _ embora ainda de forma muito vaga e até ligeiramente confusa _ pertencermos já, com muito forte probabilidade, realmente a uma outra geração(57)

… talvez mais anglo-americana do que seria de esperar, nascida(58), talvez mesmo mais crua e solitária do seria igualmente de esperar, tal como viria a suceder, de resto, com as seguintes(59), e talvez até um pouco mais excessiva do que as anteriores mas, apesar disso, com a inegável virtude de estar sempre disposta a pagar(60) o preço.

Sim, eram já osAnos 60 _ os famosos Anos 60 entrados já na sua segunda metade…

Anos extraordinários, de algum modo, também…

A rápida expansão económica do pós II Guerra tinha vindo a criar o que se começava a designar como a Sociedade da Abundância, ou de Consumo, com a grande vantagem de, menos preconceituosa e mais libertária (o «politicamente correcto» ainda não se tinha afirmado como actualmente), ser também muito mais democrática, permitindo, e a todos facultando, sem distinção, inclusive, «meios de transporte(61)» até então apenas acessíveis a muito poucos _ entre os quais, como sempre, basicamente, selectos grupos de elite e privilegiados artistas.

Nada de extraordinário, dir-se-á, cada geração calça as botas que lhe são adequadas e dá os passos(62) que lhe são próprios, como, aliás, a geração anterior já o havia  feito(63),mas nesses já mais longínquos dias de 60 algo estava realmente a mudar(64) e a mudar muito mais radicalmente(65) do muitos gostariam…

… mesmo que talvez menos do que outros pretendessem, mas certo era que poucos entendiam(66) inteira e verdadeiramente quanto realmente se passava então.

Se a natureza humana é a natureza humana, muito mais permanece do que realmente se altera _ e da natureza faz exactamente parte uma contínua diferente manifestação, uma contínua diferente expressão, da sua própria natureza e essência.

O que houve de realmente diferente nos «Anos 60» que fizeram deles a Década que marcou o Século e moldou o futuro?…

Em primeiro lugar, talvez a invenção da pílula que começou a ser comercializada exactamente no início da década, em 1960, e que fomentou e permitiu a exaltação do chamado «amor livre(67)» _ ou, mais poética e portuguesmente(68), ser o amor, sempre, «o momento em que eu me dou, o momento em que te dás».

Alguns preferirão falar da «emancipação feminina(69)», mas se houver um mínimo de memória e não se esquecer, por exemplo, uma Leonor da Aquitânia que, além da Corte própria e de todo o poder que dispôs, chegou a comandar exércitos durante a II Cruzada, em terras do que hoje serão da Síria, ou, entre nós, uma D. Beatriz, que chegou, inclusive, a Mestre da Ordem de Cristo, percebe-se a necessidade de moderar um pouco certas opiniões, por muito boas que sejam as razões que se imagina ter para as defender.

A «explosão» do amor marcou, de facto, os Anos 60, mas talvez importe igualmente não deixar de meditar, independentemente desse mais nobre e genuíno sentimento, associado, de resto, sempre também a uma certa ideia de liberdade, no porquê da regra da «comunidade» das mulheres, desde a República de Platão aos mais famosos falanstérios de Fourrier, ter sido sempre igualmente uma constante de todas as mais disparatadas utopias, bem como, correspondentemente, a educação comum das novas gerações…

Curioso…

… mero acaso, acaso tal exista?!…

Entretanto, se a invenção da pílula teve a importância que teve, e as consequências que teve, não menos importante terá sido também a ascensão, se assim se pode dizer, do conceito de  «Juventude», até aí significando apenas a fase de transição da puberdade à adulta, a um novo conceito «categoria social», se assim se pode dizer, perfeitamente autónoma e não menos perfeitamente caracterizada por uma bem determinada e específica visão do  mundo(70), de atitude e de comportamento, a opor-se, ou a afirmar-se mesmo, em contraposição à adulta idade _ ou quanto tendia a mais tradicionalmente considerar-se como adulta maturidade.

Mais do que isso, como específica visão de vida, correspondente atitude e consequente comportamento, «Juventude» passou a considerar-se mesmo como um «estado de espírito» _ como se o «espírito» fosse algo susceptível de ter «estados», passível, inclusive, de se assumir e manter-se, uma vez atingido tal «estado», por toda a vida…

Mais interessante, porém, o facto de grande parte dessa nova «juventude» surgir como se emergindo de um purificador banho lustral, livre de todo o «pecado original», envolta numa espécie de aura de imanente ligação às mais primitivas e primordiais forças ctónicas ou em permanente cósmica comunhão(71) com o todo e mais profundo ser do Universo.

Novos de tempos, de facto _ ou talvez nem tão novos quanto isso…

A natureza humana não muda tanto, e muito menos rapidamente assim, de uma década para a outra, sem mais _ e se houver um pouco de memória, não é difícil lembrar os velhos grupos mendicantes em plena Idade Média, como múltiplos sempre foram os movimentos de índole mais ou menos comunitária, imaginando e tentando impor uma outra perfeição possível para o Homem, desde os Cátaros aos Anabaptistas e à República Jesuítica do Paraguai, entre outras experiências não muito felizes, assim como muitos e muito diversos sempre foram os vários movimentos milenaristas que têm povoado a história ao longo dos séculos.

Nada disso foi novo _ ou inteiramente novo.

O que houve de verdadeiramente novo e quase único foi a sincrética conjugação de tudo isso com a música, não já apenas mero espectáculo e um negócio mas real expressão de alma, de uma específica compreensão e atitude de vida, num momento em que o Ocidente atingia também uma nova fase de desenvolvimento tecnológico e o Mundo, como diria Marshall McLuhan, se transformava realmente, pela primeira vez na História, por via dos novos Meios de Informação e Comunicação, entre os quais, preponderantemente, a Televisão, numa «Aldeia Global».

Algo semelhante no Mundo, em diferente amplitude mas não menos decisiva repercussão, só havia sucedido no período áureo da CulturaGalaico-Portugueso-Provençal(72) a que a Europa deve a sua verdadeira unidade cultural e civilizacional _ não sendo também por mero ou simples acaso que o acontecimento que ficou simbolizar para sempre esses mesmos «Anos 60» não foi senão o também para sempre mais célebre Festival de Woodstock(73) anunciado como “Uma Exposição Aquariana: 3 Dias de Paz & Música”, que teve lugar em Agosto de 1969 perante uma tão inimaginável, à época, quanto inesperada audiência contabilizada em mais de 200 000 assistentes.

Curiosamente, salvo tudo quanto oito séculos de História separam, se a Cultura Galaico-Portugueso-Provençal não deixaria de vir ter decisiva influência na formação de um São Francisco e, mais tarde, na própria Ordem Franciscana, sobretudo via Oxford, na própria evolução do Pensamento Europeu, se assim se pode dizer, também muito do que se poderá designar como o mais genuíno «espírito de Woodstock», uma espécie de «Franciscanismo Neopagão», manifestando, inicialmente, uma mesma equivalente atitude de despojamento e entendimento da vida como uma dádiva a ser plenamente assumida em cada momento(74) em renovada harmonia com a «Natureza» e perfeita irmandade com todos os seres criados, não deixa de estar igualmente na raiz de muito do melhor de um certo Ambientalismo Moderno ainda não totalmente corrompido por muita da perversão político-ideológica que muitos desses movimentos têm vindo igualmente a sofrer desde então.

Mais do que o passado importava agora o futuro, infinitamente aberto, infinitamente portador de infinitas oportunidades, de infinitas virtualidades, de infinitas possibilidades.

Com certeza, os «Anos 60» não se reduziram nem podem ser inteiramente reduzidos a Woodstock.

Um mês antes, em Julho de 1969, a Apolo 11 descia na Lua e «num pequeno passo para o Homem e um gigantesco avanço para a Humanidade», Neil Armstrong descia do Módulo Lunar e tornava-se o primeiro homem a pisar a Lua, seguindo-se-lhe Buzz Aldrin, marcando assim igualmente não apenas o triunfo da Nova Era Tecnológica mas também o domínio Norte-Americano no Mundo e a afirmação plena dos Estados-Unidos como a Potência Mundial por excelência do Séc. XX _ não sem afirmação da correspondente hegemonia cultural, evidentemente.

Para além disso, importa não esquecer também que a década tinha começado já com a tão surpreendente como inesperada eleição de John F. Kennedy, como 35º Presidente dos Estados Unidos em 1961, a primeira eleição ganha, dizem os especialistas, pela sabedoria no controlo dos Meios de Comunicação, ficando para sempre célebre também o célebre primeiro debate Nixon-Kennedy transmitido pela televisão, que Nixon teria ganho de um ponto de vista conceptual e de exposição de ideias mas do qual saiu completamente derrotado por uma questão de imagem e pura exposição retórica, apresentando-se algo cinzento, mortiço, sem vida, enquanto a juventude e a boa-forma física de Kennedy o faziam brilhar, sobressair e apresentar-se com uma capacidade de afirmação de poder completamente distintas, independentemente de todas e quaisquer verdadeiras ideias políticas expostas ou tão só subentendidas.

John F. Kennedy(75) pela sua juventude, pela ideia de liberdade que transmitia e sábio controlo da imagem que exerceu, é bem representativo de uma nova geração, a «Geração de 60», tendo sido, muito provavelmente, inclusive, o primeiro político da nova era a atingir uma popularidade que só os ídolos pop viriam a atingir mais tarde, inaugurando também o que Guy Debord designaria, depois de 68, como a Política Espectáculo, ou Sociedade Espectáculo, melhor se compreendendo assim porque o seu assassinato em Dallas, dois anos mais tarde, tanto chocou(76) a América e o mundo inteiro.

Por um daqueles sempre também muito curiosos paradoxos ou lei das compensações do Destino, importa não esquecer igualmente terem a década e o mandato de Kennedy sido praticamente iniciados com o desastre da invasão da Baía dos Porcos, a subsequente Crise dos Mísseis e o Bloqueio Marítimo a Cuba, com a crescente tensão Leste-Oeste a conduzir à eminência de uma I Guerra Nuclear(77) que a população Norte-Americana chegou a pensar estar por horas, levando-a a preparar-se mesmo para tal eventualidade…

… e não sem, talvez, o peso na consciência de um passado(78), afinal, ainda não tão longínquo assim…

Tal não veio a suceder porque, in extremis, por compreensível, embora secreta, negociação intensa entre Kennedy e Khrushchov, os Estados-Unidos acabaram por ceder, retirando da Turrquia, assim permitindo colocar ponto final à crise, levantar o Bloqueio e deixar os Norte-Americanos e o Mundo voltarem a respirar de alívio.

Ficou, porém, a tensão, a mais famosa tensão Leste-Oeste e a chamada Guerra Fria que atingia entretanto os seus anos críticos e passava a jogar-se sobretudo via terceiras partes, tal como foi o caso da mais célebre Guerra do Vietname(79) que dominaria e contaminaria a política internacional até à queda de Saigão em 1975, e nós a experienciámos também, em África, com especial incidência sobretudo em Angola, como bem se sabe.

O Mundo mudava, era um facto, mas se o Mundo muda e, por vezes, parece mesmo muito mudar, não tanto assim com a natureza humana.

No caso dos Estados Unidos, por exemplo, o presente centro das nossas atenções como então o era do Mundo, o ímpeto da conquista do Oeste(80) e o relativo menosprezo pelo Índio, por exemplo, com séculos de distância, não terá sido muito diferente do ímpeto de conquista de Gales(81) da Irlanda(82) e até da Escócia(83) ou seja, o equivalente desprezo pelo Celta, assim como, em diferentes termos, a brutalidade da Guerra Civil(84) (sempre as mais terríveis e cruéis) e um equivalente desdém pelos Sulistas; e se, em outros tempos, pela vastidão do território, europeus houve que procuraram a América para aí fundarem as suas singulares Comunidades, e viverem isolados e em liberdade, como os Quaker ou os Amish, agora outros procuravam igualmente o Oeste para formar outras Comunidades, para viverem também de acordo com toda as liberdades e peculiaridades próprias da época(85) e que o já referido Festival de Woodstock não deixaria de patentear e divulgar para todo o mundo_ e chocar, como sempre sucede também, uns mais do que outros.

E se falamos do Oeste, do mítico Oeste, terra de liberdade, das oportunidades quase sem limite, até mesmo para os mais famosos fora-da-lei, tendo assistido já às mais desenfreadas e loucas febre do ouro no Séc. XIX, assistia agora, entrados já em plenos Anos 60, à permanente chegada de novos forasteiros que, não deixando de estar igualmente em alguns elementos preciosos com nomes mais exóticos, «Golden Brown(86)», «Brown Sugar(87)», munidos não já de pá e picareta, mas, mais prosaicamente, de uma simples flor presa no cabelo(88), buscavam, acima de tudo, a mais mítica e a sempre tão falada e apregoada liberdade.

Distintos propósitos, com toda a probabilidade, mas talvez um mesmo velho sonho(89) de abundância, felicidade e liberdade na busca de outras não menos excitantes vibrações(90) e universal partilha de Paz e Amor, com um renovado olhar também para o Oriente(91) «onde talvez Deus ainda exista realmente», na vívida experienciação de um momento que se sabia provavelmente único, talvez eterno, absoluto _ o que não significava que outros, de mente mais tecnológica, não imaginassem igualmente outros possíveis futuros(92), igualmente brilhantes ou, eventualmente, não menos terríficos.

O sonho a tornar-se verdadeiramente carne(93)?…

Os idos de «60»

Tempos generosos também, se assim se pode dizer, em que se prestava, de facto, uma renovada atenção à Condição Humana, não apenas de um ponto de vista da mais tradicional contestação(94) política e social, como hoje se diria, mas num olhar mais circunstanciado às nem sempre fáceis circunstâncias reais da existência(95), a um certo quase heróico despojamento(96) como também à mais humana inquietação pela terrível solidão(97) anónima tão própria e característica das grandes metrópoles, ou, talvez mais simplesmente, à crueldade e ao mal que sempre significa o mal(98) que os homens fazem uns aos outros, sempre presente também na mesma humana condição.

E não menos singular e interessante, apesar de tudo isso, apesar de toda a mais perfeita consciência de não deixar nunca de haver, mesmo nas mais incompreensíveis(99)tortuosas(100)sombrias(101)extremas(102) e desesperadas(103) situações passíveis de sempre sobrevirem, inesperadamente, a qualquer momento, mesmo nesses mais complexos, tortuosos, sombrios, extremos e desesperados momentos, sinal de sempre haver também razões de  esperança(104) e esperança de haver sempre, nesta longa caminhada como «peregrinos do absoluto», singular e individual redenção(105).

Dir-se-á, do alto destes mais estranhos dias de pleno Séc. XXI,  ter ficado sobretudo a memória, desses já mais longínquos Anos 60, de um tempo primordialmente  inspirado por mais exóticas musas em que, livres de qualquer mais freudiano sentimento de culpa das gerações anteriores, o amor era a Chave que abria as portas à exploração de outros mundos da percepção, o acesso mesmo a outras dimensões(106), a outras iluminações(107) ou, mais simplesmente, a outras singulares viagens(108) que as experiências  de um Timothy Leary com a LSD davam, inclusive, foros de cousa científica, logo, cousa séria, permitindo a todos, quem sabe,   as sensações de toda uma vida inteira(109) num só dia, num momento, uma só canção.

Será assim, mas o que actualmente se diz e enaltece como preocupação com terceiros, com os mais «desfavorecidos», não deixando de conduzir sequer a consequente acção, era incontestavelmente genuíno também, tal como no início da década seguinte viria a ficar plenamente demonstrado   com a organização do primeiro Concerto de Beneficência de ajuda humanitária da História, no caso, de ajuda ao Bangla Desh(110) depois da calamidade ocorrida com passagem do ciclone Bhole em que terão perdido a vida mais de meio milhão de pessoas, deixando a restante população à fome e a viver em condições deploráveis.

A década começava a encaminhar-se para o seu termo, a geração que não conhecera e não sabia já quem tinha sido Vera Lynn(111), embalada em velhas utopias revolucionárias, mesmo sabendo-se não ser esse o caminho(112), começava a manifestar-se inquieta e, um pouco por todas as grandes Universidades do Mundo Ocidental, a exigir levar a «imaginação ao poder», de imediato(113), tudo culminando, como se sabe, em Maio de 68(114), com as grandes manifestações de contestação e revolta nas ruas em Paris _ sem desvios por Praga, que ficava fora de mão e a União Soviética já lá estava em mais uma das suas muito habituais demonstrações das mais «amplas liberdades» revolucionárias.

Para surpresa e desgosto dos intelectuais universitários Franceses, a Contestação não teve início em França, nem Paris, na Sorbonne, a velha Universidade Dominicana, mas em Berkeley, nos Estados Unidos.

Como poderia ser?…

Não era a velha Universidade Europeia, e, em particular, o modelo Francês, ainda fortemente influenciada pela Cultura Clássica, pelo Racionalismo, pelo Humanismo, que estava em crise por inadequação ao «tempo moderno», ao contrário do modelo Norte-Americano, de Cultura Geral, mais especializado e técnico?…

Ainda ecos do velho ressentimento e revolta contra a Escolástica e, muito em particular, contra a Escolástica Ibérica que antes do Século de Descartes dominava a Europa?

Possivelmente mas, fosse como fosse, se assim era, o que estava então realmente em causa no actual momento?

Isso era quanto importava e talvez tudo pudesse ser reformulado e resumido na seguinte interrogação: «como pode a gestão de uma unidade social ser, simultaneamente, autónoma livre, por um lado, e democrática, por outro, ao mesmo tempo que se mantém devidamente coordenada com as solicitações sociais exteriores vitais?».

Estava melhor.

Assim formulada a questão, residindo o ponto fulcral numa questão primordial e eminentemente «técnica», tal como a questão foi realmente tratada nas Universidades Norte-Americanas, só os Franceses saberiam, porém, «elevar» uma questão «eminentemente técnica» a uma questão de dimensão verdadeiramente «universal», i.e., transformando a questão numa questão eminentemente Política.

Estava salva a honra do Convento.

E assim sendo, então também livre-trânsito era igualmente concedido para se enveredar pelas mais eruditas discussões sobre saber, por exemplo, se a Contestação constituía ou não constituía uma verdadeira Revolução, sobre o nascimento eventual de um novo poder real dos «Estudantes» e que poder era esse, para além de múltiplos outros temas, entre os quais, naturalmente, o da «legitimidade da violência», sempre tão próprio e do agrado da Esquerda.

Sobre a «legitimidade da violência» as dúvidas não eram muitas e o consenso afigurava-se mesmo plenamente estabelecido, já sobre saber se a Contestação constituía ou não, o se poderia conduzir, a uma verdadeira Revolução, as posições dividiam-se mais.

Edgar Morin, por exemplo, era peremptório: «numa Revolução dão-se, em média, cerca de 50 mortes por fim-de-semana. De Maio a Junho não houve mais do que 5 (cinco) mortes» _ logo, conclui-se, não se trata, não se tratou, de uma Revolução.

De facto, não há nada como a Ciência da Contabilidade para desfazer dúvidas: contar cadáveres é objectivo, rigoroso, já pensar ideias é muito abstruso, muito duvidoso.

Uns patuscos.

De qualquer modo, a dita Esquerda não gostou do Maio de 68, menosprezando tudo como cousa muito pequeno-burguesa, individualista _ quem sabe se não mesmo com alguns perigosos laivos tendencialmente mesmo mais liberais.

Não que não houvesse justas reivindicações.

Ainda em Nanterre, Daniel Cohn-Bendit, Maoista, que viria a transformar-se na figura de proa do Movimento_ e hoje um muito digno, respeitado e ilustre Deputado Europeu _ exigia, por exemplo, entre outras questões de capital importância, a «livre circulação e visita das raparigas aos dormitórios dos rapazes».

Percebe-se a relevância de tal reivindicação.

A Esquerda, porém, nunca gostando do que inteiramente não controla, já plenamente instalada, enraizada mesmo, na Universidade afastou-se do Movimento _ como se afastaram os principais Partidos Políticos da Esquerda e até os Sindicatos e principais Centrais Sindicais.

Por essa altura, a Esquerda Universitária também descobria Gramsci e, nada dizendo de novo, de interessante ou significativo, era uma desculpa e uma justificação perfeita para continuarem a fazer o que já faziam: «transformar o mundo» ex-cathedra no doce remanso dos Salões Universitários.

Talvez importe não esquecer também a preponderante importância que o Estruturalismo, tipicamente de Esquerda, começava a ter e a assumir, por esse tempo, nos meios universitários e, como agora se diz, na «sociedade» em geral.

Com a aura de «cientificidade» que a modernidade sempre gosta de ostentar, uma vez toda a teoria partir, supostamente, da «lógica dos conjuntos», a tese essencial é simples: todos os organismos, como toda as organizações, têm sempre uma «estrutura» subjacente _ a não ser assim, mais não se trataria senão do puramente «inorgânico».

Assim sendo, o que age são as «Estruturas» e a «individualidade», e «liberdade», não passam de ilusão porquanto o que pensa no homem não é senão a «língua» como verdadeira «estrutura» do pensamento e levará Lacan a afirmar tanto, a «língua pensa-nos», como «o que em nós pensa é a língua».

Interessante como toda a «modernidade» sempre tem uma quase patológica constante obsessão na destruição do indivíduo, da individualidade _ para não ficar senão, talvez, o sossego do «colectivo».

Nesse sentido, mas não por acaso, um dos primeiros e mais visíveis resultados de Maio de 68 foi, assim estava tudo mais calmo, a introdução da cadeira de «Linguística» em Nanterre.

Compreende-se: «quem domina a palavra domina a luz; quem domina a luz domina os homens; quem domina os homens domina o mundo».

Nada de novo.

Porém, a mais importante e decisiva tese, e de como mais imediatas e devastadores consequências, foi, como se sabe, a solene proclamação da «perfeita igualdade de todas as culturas», como defendido por Lévi-Strauss, Etnólogo, não putativo mas manifesto Pai do próprio Estruturalismo, base, desde então para os constantes ataques às bases da Civilização e ao Mundo Ocidental, permitindo, inclusive, alguém defender ser o «canibalismo» uma «cultura» persistente lá na sua terra _ e como «culturas» e gostos gastronómicos não se discutem…

Seja como for, a tese, independentemente de todos os possíveis erros, excessos e mesmo abusos cometidos por homens supostos civilizados, representantes da Civilização, não deixaria de conduzir, por um desmedido unilateralismo de perspectiva, não só a uma certa má consciência do homem branco(115) em relação a todas as culturas, incluindo as culturas indígenas, apenas porque indígenas, assim como, mais tarde, a uma espécie insanável e muito freudiano sentimento de culpa e, mais gravemente, por compensação e suposto acto de contrição, ao puro ódio à Civilização, tal como hoje vemos surgir e manifestar-se um pouco por todo a parte, naquela espécie de cacofónica dança pós-moderna(116) tão característica da actualidade.

Embora, pelo absurdo de algumas teses, o Estruturalismo tenha sido tido por muitos como relativamente inócuo, as suas consequências estão longe de o ser.

Negando o pensamento, o que o Estruturalismo estava a negar também, ou mesmo a repudiar, era a Filosofia, a base da Civilização.

Uma vez repudiada a Filosofia, logo igualmente impossível se torna «Pensar a Justiça», ou seja, o Direito, entretanto descido a mera Sociologia _ essa falsa ciência erigida com o intuito de conduzir os homens ao ateísmo, ou seja, à servidão.

Descer o Direito a mera Sociologia mais não significa senão reduzir o Direito a um mera Moral e assim deixar o mundo, pela «perfeita igualdade de todas as culturas», à mercê da «arte retórica» de todos os pantomineiros que sempre pelo mundo, com perfeita inconsciência, sempre alegremente pululam.

Maio de 68 marcou o Mundo, como Woodstock, no ano seguinte, em diferente plano, não deixaria de marcar também.

Hoje, a primeira e mais imediata memória de Woodstock será a de ter sido um Festival de Música que correspondeu ao esplendor do movimento «hippie», de uma celebração de comunhão com a Natureza e eventual tentativa de recuperação impossível de uma supostamente perdida inocência edénica(117), onde o espectro da contestação anti-Vietname não deixou nunca de também pairar, fosse na expressão mais crua e militante de uns Country Joe & the Fish(118), fosse numa expressão mais poética e subtil, mas não menos veemente, de uns Crosby, Stills, Nash & Young(119).

Percebe-se.

A contestação à Guerra do Vietname, uma ferida que nunca não deixou, como ainda hoje não deixa, de perturbar(120) profundamente os Norte-Americanos, estava no seu auge e era, sem a mínima dúvida, a questão decisiva, dominando de tal modo e tão avassaladoramente tudo que, fosse a referência(121) tão só implícita, tão só genérica(122), como até mesmo mais simplesmente abstracta(123), era sempre a fantasmática sombra do Vietname que pairava, ecoava e estava presente, o que, perfeitamente compreensível(124) em determinadas circunstâncias, não deixava de se afigurar nitidamente rebuscado em muitas outras(125), sobretudo quando a referência histórica(126) explícita era mesmo, inclusive, distinta _ mas era uma época em todas as músicas a incluírem referências bélicas, fossem quais elas fossem, seriam, inevitavelmente, como uma evocação do Vietname, a guerra, por antonomásia, representando a estupidez, a injustiça e o inaceitável de todas as guerras,

Ainda assim, compreende-se: o Vietname era mesmo uma das mais, senão mesmo a mais, decisiva das decisivas questões da época, só encontrando talvez paralelo na questão dos Direitos Civis, embora, neste caso, sempre algo visto também como um tão insustentável e incompreensível quanto anacrónica idiossincrasia americana, não deixando, nesse particular, de chocar igualmente o mundo o assassinato, em 1968, de Martin Luther King(127), uma figura que viria a encontrar apenas paralelo, décadas depois, num Nelson Mandela(128) que conseguiu proceder, como todos sabem, igualmente sob inspiração da própria figura de Martin Luther King, à transição pacífica do Regime de Apartheid da África do Sul para um Regime Livre e de igualdade de direitos em termos raciais.

Para os Europeus, embora em condições completamente distintas e quase sem paralelo, o que se passava nos Estados Unidos em termos de Direitos Civis era realmente incompreensível, tanto mais quanto, para além de se verem figuras desde um Louis Amstrong(129) e um Otis Redding(131) até uma Nina Simone(132) a serem tão universalmente admiradas e aclamadas, com toda a justiça, como também sempre foi reconhecido(132) e celebrado ao longo dos anos(133), era realmente à anterior geração de figuras cimeiras dos Blues e Rhythm & Blues norte-americanos que as novas gerações deviam, essencialmente, o melhor da sua formação musical e, por consequência, também, em grande parte, da sua própria atitude perante a vida.

Situação realmente paradoxal, realmente, mas, entretanto, a década encaminhava-se rapidamente para o seu termo e muito, quase tudo, iria, uma vez mais, mudar.

Se Woodstock simbolizou, e simboliza, o culminar de uma época, o culminar da «Geração de 60», não deixou de ficar também, um tanto paradoxalmente, como o prenúncio do fim dessa mesma época, dessa mesma Geração.

Compreensivelmente, para falarmos com franqueza, até pela idade, como não será difícil de depreender, não assistimos a todos esses anos senão de longe, de muito longe, sem directo testemunho.

Mais do que isso, quanto à questão musical propriamente dita, de formação musical, ou de formação do gosto musical, leitmotiv de quanto aqui escrevemos e de quanto aqui nos ocupa, para dizer a verdade, para além da Sandie Shaw(134) (por ter actuado descalça no Euro Festival) e do nosso grande Eduardo Nascimento(135), a nossa memória é, de facto, bastante vaga.

Nesses anos, a nossa preocupação, a nossa obsessiva preocupação, era mesmo a de agarrarmos o futuro(136) (pelos cornos, como diríamos agora recorrendo a mais rigorosa expressão do nosso melhor vernáculo), numa permanente inquietude e ânsia de vermos as horas correrem para, inevitavelmente, atingirmos a maioridade, sermos, finalmente, Livres _ afinal, a única e verdadeira grande ambição de toda a vida.

Chegavam os 70…

Jimi Hendrix(136) e Janis Joplin(138) que inauguravam a maldição dos 27, a que se seguiria, pouco tempo depois, Jim Morrison(139), em Paris, ficavam, de algum modo, a simbolizar igualmente essa mesma perdida «Geração de Woodstock».

Havia realmente um Mundo que se esgotava, que desaparecia…

Janis Joplin, imortalizada também por Leonard Cohen no assombroso Chelsea Hotel #2(140) e que, nada percebendo nós de música, e, por consequência, hesitando e incapazes de recomendar qualquer versão como referência, se a original(141) do próprio autor, se a tão inesperada quanto tão igualmente surpreendente versão de Lana Del Rey(142) a solo, da mesma a duo com a descendência(143), ou, até para tudo conjugar, da mesma com o próprio(144) autor, por aqui nos ficamos nesse particular, pode ser realmente vista como o símbolo desse Mundo que desaparecia _ como John Lennon(145) não deixaria, logo em 1970, de anunciar e devidamente proclamar.

Muitas as encruzilhadas(146) dos mundos

O que ficava dos 60?

O poder da imagem _ o poder da imagem mesmo sobre a palavra, não deixando sequer de se afirmar valer «uma imagem mil palavras»;

O poder da tecnologia _ autonomizada já da Ciência, de toda a Ciência;

O poder da Comunicação (global) _ tudo o que se comunica é real, todo o real é comunicável, só o que se comunica é real;

O poder do espectáculo _ o poder do Poder como espectáculo;

Como ficou o culto da Juventude e, com o culto da Juventude, o culto do sentimento; e, com o culto do sentimento, o primado absoluto da vontade e da acção sobre o pensamento;

Como ficou, um tanto paradoxalmente, o culto da liberdade, o culto da individualidade, como o culto da espontaneidade, o culto da Natureza e uma certa permanente «revolta contra o mundo moderno» e contra o «homem unidimensional».

Na verdade, tudo, ou quase tudo, quanto temos por muito moderno na actualidade, do Ambientalismo à cultura New Age, encontra as suas raízes nos Anos 60.

Com certeza, tais mudanças não ocorrem, como não ocorreram, de um dia para o outro, da noite para o dia.

Durante algum tempo, ainda se tentou preservar algum do «espírito de 60 (147) » mas os dias eram já realmente outros e mesmo quando se procurava avançar mantendo a ligação às raízes(148), era visível algo ter nitidamente mudado, algo estar a mudar e haver outra geração a despontar(149) já, com diferentes inquietações, com diferentes preocupações _ como alguém diria, «The Show Must Go On(150)», mas nada seria nunca mais o mesmo…

Tudo porque havia alguma coisa em vez de nada…

… o estranho e maravilhoso Mundo…

… em que estávamos…

… em que éramos…

… a que nos começávamos a habituar…

… e até mesmo a gostar…

… de nos sentirmos vivos…

… e, mais estranhamente ainda, quem sabe, começávamos talvez mesmo a viver(151)

… e gostar…

(CONTINUA)

Ilustração à Homenageada Geração:

 1 – Peter Hammill – Emmene-Moi

 2 – Quarteto 1111 – A Balada de D. Sebastião

 3 – The Who – It’s a Boy

 4 – Pink Floyd – A Saucerful Of Secrets

 5 – Klaus Shulze – Velvet Voyage

 6 – Peter Hammill – Red Shift

 7 – Peter Hammill – Solitude

 8 – Kinks – I’m Not Like Everybody Else

 9 – Van Der Graaf Generator – Man-Erg

10 – Incredible String Band – The Water Song

11 – Genesis – The Musical Box

12 – Bach – Cantata BWV 147 10 – Jesu Bleibet Meine Freude

13 – The Waterboys – The Stolen Child

14 – Marianne Faithfull – The Gypsy Faerie Queen

15 – Mike Oldfield – On Horseback

16 – Jefferson Airplane -White Rabbit

17 – Jan Garbarek & Agnes Buen Garnås – Rosensfole

18 – D. Dinis – Ay Flores de Verde Pino

19 – Sétima Legião – Por tua Imensa Saudade

20 – Pink Floyd – See Emily Play

21 – String Driven Thing – Circus

22 – Marianne Faithfull – Something Better

23 – Tim Buckley – Carnival Song

24 – Wallace Collection – Daydream

25 – The Cure – Subway Song

26 – Pulsar – Halloween

27 – Donovan – Hurdy Gurdy Man

28 – The Rolling Stones – She’s A Rainbow

29 – Pavlov’s Dog – Song Dance

30 – Beatles – You’ve Got To Hide Your Love Away

30 – This Mortal Coil – Dreams Made Flesh

31 – Fernando Pessoa por João Villaret – Excerto de uma Ode

32 – Van der Graaf Generator – Sleepwalkers

33 – Alice Cooper – Years Ago / Steven

34 – Traffic – Dream Gerrard

35 – Steve Forbert – Schoolgirl

36 – Van Der Graaf Generator – Meurglys III

37 – Leonard Cohen – Teachers

38 – Ban – Irreal Social 2. Surrealizar

39– Steeleye Span – Twinkle, Twinkle Little Star

40 – Domenico.Scarlatti – Fandango

41 – Peter Gabriel – Not One Of Us

42 – Peter Hammill – The Play’s The Thing

43 – Lou Reed – New York Telephone Conversation

44 – The Rolling Stones – Time Is On My Side

45 – Françoise Hardy – Tous les Garçons et les Filles

46 – The Byrds – Turn! Turn! Turn!

46 – Cluster – Halwa

47 – Peter Hammill – Time for a Change

48 – Fairport Convention – Book Song

49 – The Velvet Underground – Run Run Run

50 – Emerson, Lake & Palmer – C’est La Vie

52 – Philip Glass – A Gentleman’s Honor

53 – Matthew Ryan – Follow the Leader

54 – John Cale – Keep A Close Watch

55– John Martyn – Small Hours

56 – Syd Barrett – Bob Dylan Blues

57 – The Who – My Generation

58 – Steppenwolf – Born To Be Wild

59 – Bruce Springsteen – Born to Run

60 – Rolling Stones – We Love You

61 – The Who – Magic Bus

62 – Nancy Sinatra – These Boots Are Made for Walkin’

63 – Jerry Lee Lewis – Whole Lotta Shakin’ Goin’ On

64 – Bob Dylan – The Times They Are A Changin

65 – Pink Floyd – Astronomy Domine

66 – Bob Dylan – Ballad Of A Thin Man

67 – Stephen Stills – Love The One You’re With

68 – António Variações – Canção Do Engate

69 – Ike & Tina Turner – Proud Mary

70 – The Who – I Can See For Miles

71 – The Incredible String Band – The Circle Is Unbroken

72 – Afonso X, O Sábio – Cantigas de Santa Maria: Rosa Das Rosas

73 – Crosby, Stills & Nash – Woodstock

74 – Incredible String Band – This Moment

75 – Lou Reed – The Day John Kennedy Died

76 – Otis Spann – Sad Day in Texas

77 – Bob Dylan – A Hard Rain’s A Gonna Fall

78 – Penderecki – Threnody to the Victims of Hiroshima

79 – Barry McGuire – Eve of Destruction

80 – Buffy Saint Marie – Soldier Blue

81 – Fernhill — Hela’r Dryw (Hunting the Wren)

82 – Clannad – Siúil A Rún

83 – Steeleye Span – Cam ye o’ frae France

84 – They laid Waste To Our Land

85 – Bert Sommer – America

86 – The Stranglers – Golden Brown

87 – The Rolling Stones – Brown Sugar

88 – San Francisco – Scott McKenzie

89 – The Mamas & The Papas – California Dreamin’

90 – Beach Boys – Good Vibrations

91 – Beatles – Love You To

92 – Zager & Evans – In the Year 2525

93 – Dead Can Dance – Dreams Made Flesh

94 – Bob Dylan – The Lonesome Death of Hattie Carroll

95 –The Doors – Maggie M’Gill

96 – Velvet Underground – Oh! Sweet Nuthin’

97 – The Beatles – Eleanor Rigby

98 – Lou Reed – Caroline Says II

99 – Ian Matthews – Midnight on the Water

100 – Tricky – Makes Me Wanna Die

101 – The Cure – Cold

102 – Archive – Goodbye

103 – Barclay James Harvest – Suicide

104 – Tia Blake – Hangman

105 – Lisa Gerrard Redemption

106 – The Doors – Break On Through

107 – The Byrds – Eight Miles High

108 – Beatles – I Am The Walrus

109 – The Beatles – A Day In The Life

110 – George Harrison – Bangla Desh

111 – Pink Floyd – Vera

112 – The Beatles – Revolution

113 – Lennon/Plastic Ono Band – Power to the People

114 – Oh ! le joli mois de mai à Paris

115 – Roy Harper – I Hate The White Man

116 – Pere Ubu – The Modern Dance

117 – Melanie Safka – Birthday of the Sun

118 – Country Joe & the Fish – Viet Nam Song

119 – Crosby, Stills, Nash & Young – Find The Cost Of Freedom

120 – 10,000 Maniacs- The Big Parade

121 – The Rolling Stones – Gimme Shelter

122 – Tim Buckley – No Man Can Find the War

123 – Buffalo Springfield – For What It’s Worth

124 – Buffy Sainte-Marie – Universal Soldier

125 – Emerson, Lake & Palmer – Lucky Man

126 – Incredible String Band – Cold Days Of February

127 – Strawbs – Martin Luther King’s Dream

128 – Simple Minds – Mandela Day

129 – Louis Armstrong – What A Wonderful World

130 – Otis Redding – (Sittin’ On) The Dock Of The Bay

131 – Nina Simone – Feeling Good

132 – Muddy Waters & The Rolling Stones – Mannish Boy

133 – Chuck Berry & John Lennon

134 – Sandie Shaw – Puppet on a String

135 – Eduardo Nascimento – O Vento Mudou

136 – Peter Hammill – The Future Now

137 – Jimi Hendrix – Hey Joe

138 – Janis Joplin Ball & Chain

139 – The Doors – Roadhouse Blues

140 – Leonard Cohen – Chelsea Hotel #2

141 – Leonard Cohen Chelsea Hotel #2 Live

142 – Lana Del Rey – Chelsea Hotel #2

143 – Lana Del Rey, Adam Cohen – Chelsea Hotel #2

144 – Leonard Cohen & Lana Del Rey – Chelsea Hotel #2

145 – John Lennon – God

146 –Cream – Crossroads

147 – Traffic – Gimme Some Lovin’

148 – Tyrannosaurus Rex – King of the Rumbling Spires

149 – Mott the Hoople – All The Young Dudes

150 – Leo Sayer – The Show Must Go On

151 – Buffalo Springfield – Expecting to Fly



Um comentário em “Homenagem Ilustrada a uma Geração (I)”

  1. Manuel Sousa diz:

    Parabéns! Teoria Nova da Liberdade e Doutrina Social e Política!

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