Não se pode explicar a Poesia. Mas ela pode suscitar-nos reflexões acerca da condição humana. Nós acometemos primeiros o largo Oceano. Atlânticos, Portugal é um Arquipélago. O mar entranha-se-nos e de nossa voz mesma o conhecemos, como é ele, como somos e não somos.

A imensidão do mar produz nos poetas, consistentemente, na perceção de sua enormidade a figura do imenso e de monstro. Mesmo dormindo em calmaria o seu arfar é de um ser de grandes dimensões:

[Como] Algum Monstro, Quando Dorme
— O Mar… Era sombrio, Vasto, Enorme…
— Arfando Demorado,
— Imenso (…)!

Ângelo de Lima, «O Mar» (excerto) in

Poesias Completas, Assírio & Alvim, 1991

Mas quando está agitado ainda mais cruamente surge esse seu aspeto monstruoso:

(…) O mar que incessante brama…

Tudo ali era braveza

de selvagem natureza.(…)

Almeida Garrett «Cascaes»  (excerto)

in Folhas Caídas, 1853

Como braveza pode associar-se metaforicamente a leão, o mar é um leão, com sua garra, e em suas revoltas a sua agressividade assoma: a massa imensa está presa à sua liquidez e revolta-se, e vem então enfurecido em montanhas contra a terra que procura despedaçar, terra, nossa amarra também:

(…) mar que és um leão,

com a tua garra,

a vaga,

despedaça a amarra

que nos prende a terra.

(…) – O mar de revolta!

montanhas de agua,

oceano de vendavais (…)

Manuel da Fonseca «Canção da Beira-Mar» (excerto),

in Poemas Completos, Lisboa, Forja, 1975

Outra figuração transparece…é um leão com cauda de dragão, conquanto as suas

(…) Caudas de dragões seguem os barcos (…)

Sophia Mello Breyner Andresen (excerto) in Navegações,

Lisboa, Caminho, 1996 (1982)

Numa outra direta descrição o nosso gigante ganha ainda outra figuração:

(…) A linha do horizonte é um fio de asas
E o corpo das águas é luar (…)

Vitorino Nemésio «Correspondência ao mar» (excerto)

in O Bicho Harmonioso,

Coimbra, Revista de Portugal, 1938

O receio, o medo, o desespero que esse monstro inspirou e inspira está plasmado em nossa tradição prosaica e  nesta metáfora de embarcação abandonada e naufragada:

Dum barco apodrecendo

nascem olhos

magoados risonhos escancarados

mãos de suplica e medo

e farrapos de nuvens entre molhos

de cordas que nas límpidas águas se desatam (…)

Mário Dionísio in Poesia Incompleta (excerto),

Mem Martins, Europa-América, 1982

Voltando à metáfora da embarcação cuja derrota foi a praia, por naufrágio, talvez por excesso de ousadia e presunção, assim obscurecido da luz o capitão, apesar do belo navio que comanda, assim como acontece ao que parece prometer brilhos, mas, se encandeia e naufraga na vida:

Esse baxel, nas praias derrotado,

Foi nas ondas Narciso presumido;

Esse farol, nos céos, escurecido,

Foi no mundo libré, gala do prado.

Esse nácar, em cinzas desatado,

Foi vistoso pavão de Abril florido;

Esse estio, em Vesúvios encendido,

Foi Zéfiro suave, em doce agrado.

Se a não, o Sol, a rosa, a Primavera,

Estrago, eclipse, cinza, ardor cruel

Setem nos auges de um alento vago,

Olha, cego mortal, e considerado

Que és rosa, Primavera, Sol, baxel,

Para ser cinza, eclipse, incêndio, estrago.

Francisco de Vasconcelos,«A fragilidade da vida humana (I)»

in Fénix Renascida,  Lisboa, Officina

de Antonio Pedrozo Galrão, 1716-1728 (1716)

A subjetividade, em sua sensitividade emotiva entretecida com sensibilidade, inteligibilidade e intuição, é penetrada por osmose empática pelos próprios gestos-mar que nos reflete explicitando modos humanos, neste caso, os desfalecimentos, como sucede com o modo de ser do mar em algumas circunstância que desfalece de sua agitação. Nela, onda de recuo, nossos desfalecimentos:

(…) Onda de recuo que invade

O meu abandonar-me a mim próprio até desfalecer (…)

Fernando Pessoa, Impressões do Crepúsculo II (excerto),

in Luiz Fagundes Duarte, Fernando Pessoa,

Poemas Publicados em Vida, I, Dispersos, INCM, pág. 15-16.

Do mesmo modo empático, permite-se-nos encontrar no mar o incompreensível, de espanto filosófico prenhe. Na mesma aqui e agora vida do ser sendo com omar: Sêrmente em ti eu sou-me… diz o Pessoa. No literário e fantástico neste poema panteísta expõe-se o alcance desta gnosticidade, que evidencia e apresenta as ondas de negro lume que é vivência de nossa constante angústia. Há uma voz em nós, de onde somos no mundo, como um eu sou-me… Eco de nós, todavia, que vem das ondas marítimas:

(…) Em mim, e a voz: Ó mundo

Sêrmente em ti eu sou-me…

Mero eco de mim, me inundo

De ondas de negro lume (…)

Fernando Pessoa, «A Voz de Deus» (excerto) in Luiz Fagundes Duarte,

Fernando Pessoa, Poemas Publicados em Vida, I,

Dispersos, INCM, pág. 52

Com esta angústia, ou exaltação, ou receio e até pavor, tão bem se representa no mar a resignação e consciência de nossa trágica finitude. Estas constantes humanas apenas esperam os contextos adequados para emergirem, como o são as estações do ano para as plantas e para a reprodução dos animais – pois seres de terra somos, mas para vogar no mar. Nessas emoções e estados verificamos que cabe completamente, se somos para ele, a consciência do iminente perigo, pois se nos transcendem o que sobrevém, isto é, o inesperado. Uma atenção desperta, metáfora da prudência à navegação no mar, exige os mesmos cuidados com as seduções-ilusões humanas:

Pescador da barca bela, (…)
Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela…
Mas cautela,
Ó pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Ó pescador!

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
Foge dela,
Ó pescador!

Almeida Garrett «Barca Bela»  (excerto)

in Folhas Caídas II (1856)

            Às histórias dos desastres no embate com o monstro, contudo, entrelaçam-se  as nossas histórias vividas e sofridas, havidas com esse gigante ondulante. Mas se há tragédia há redenção neste gigante:

A “Flor do Mar” avançando

Navegava, navegava,

Lá para onde se via

O vulto que ela buscava.

Era tão grande, tão grande

Que a vista toda tapava.

E Bartolomeu erguido

(…) bradava

Que ninguém tivesse medo

Do gigante que ali estava.

[E] (…) Agora o mar é livre e é seguro (…)

Afonso Lopes Vieira, «O Segredo do Mar»  (excerto)

(excerto) in Antologia Poética,

Lisboa, Guimarães Ed., 1966 (1940)

A certeza deste Bartolomeu, que foi além do receio, advém de nos havermos preparado para ele, de modo a ir e voltar sobre seu enorme lombo e seus perigos.

            Apelamos ao mar para que nos conjugue o verbo amar entre os perigos de sua conjugação em nós. É aí nas perigosas coisas do mar que amar anda. Nas

(…) perigosas

coisas do mar. Contar-te o amor ardente

e as ilhas que só há no verbo amar. (…)

Manuel Alegre «Coisa Amar» (excerto) in Letras,

Lisboa, Dom Quixote, 1989 (1976)

De novo, as ilhas de nossos amores – estão sempre além. E o mar oferece esse além de único modo, até para lá do horizonte que ali está como está o para além dele.

            É com este gigante português, mais velho que os deuses, muito anterior a nós, que, passadas as tormentas, passaremos ao mistério aberto em flor:

Ó mar anterior a nós, teus medos

Tinham coral e praias e arvoredos!

Desvendadas a noite e a cerração,

As tormentas passadas, e o mistério,

Abria em flor o Longe, e o Sul sidério (…)

Splendia sobre as naus da iniciação.

Fernando Pessoa, «Horizonte» (excerto) in Luiz Fagundes Duarte,

Fernando Pessoa, Poemas Publicados em Vida, I,

Dispersos, INCM, pág. 67

Neste sentido de abertura, do Agora o mar é livre e é seguro, e no mistério (…) em flor, ele, o gigante e monstro encontrado por nós concede-se connosco. Não nos é indiferente e nunca de nós ausente, e acaba definindo-nos, não na humanidade, mas no ser mar em nós. Afinal parece termos por vezes esse gigante em nosso colo e coração:

(…) Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Na praia, de bruços,

fico sonhando, fico-me escutando

o que em mim sonha e lembra e chora alguém;

e oiço nesta alma minha

um longínquo rumor de ladainha,

e soluços (…)

(…) Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

São meus Avós rezando,

que andaram navegando e que se foram,

olhando todos os céus;

são eles que em mim choram

seu fundo e longo adeus,

e rezam na ânsia crua dos naufrágios;

«Saudades Trágico-Marítimas» (…)

Afonso Lopes Vieira, «Chora no ritmo do meu sangue, o Mar»  (excerto)

in Ilhas de Bruma (excerto),Coimbra, Of. Francisco Amado, 1917

E as mãos de suplica e medo testemunham o clamor humano como o som do mar também ele clamando, sendo também prece do mesmo sangue:

(…) Transido, o clamor da prece do mesmo sangue nos veio

Deus conhece os meus olhos alongados;

onde o mar e o céu deixaram

um pouco de vago anseio

nesse mistério longo do seu halo…

(…) há um pranto português, e eu sei chorá-lo (…)

Afonso Lopes Vieira, «Chora no ritmo do meu sangue, o Mar»  (excerto)

in Ilhas de Bruma, Coimbra, Of. Francisco Amado, 1917 

Tão imerso em nós o mar como nós nele sacrificados, temos dele em nós múltiplas e profundas vivências que dele nos perpassa. Constante, como na concha onde reside seu génio, monstro, ora apenas gigante ora amante, a voz do Poeta é dele:

Como a funda sombra

De um perdido Mar,

Tudo o que levo de som comigo

É ainda a muita voz

 – superfície evadida  –

De esse Mar contínuo.

Maria Valupi, Desprevenidas Paisagens (excerto),

Coimbra, s.n, 1959

É dele e nossa uma voz de dentro, de perto e longe, na história e geografia, como o espaço que ocupa o gigante que foi e ainda é a criatura de nossa oceanidade, e maior património português. Mas Património…, não um apenas um meio. Património aqui não é um conjunto de bens amassados, adquiridos ou herdados, mas património em que a Pátria vive, tão arquetípica em seus símbolos e paradigmas como atual.

            As mais vezes que o mar vem a nós, no nosso sentir poético, ele enquanto gigante azul e brando, e enquanto cinza verde e tormentoso, a nós murmura e clama seu e nosso segredo:

Vinha de longe o mar…

Vinha de longe, dos confins do medo….

Mas vinha azul e brando, a murmurar

Aos ouvidos da terra um cósmico segredo.(…)

Miguel Torga,«Sagres»  (excerto), Poemas Ibéricos (1952-1965),

Coimbra, Gráfica Coimbra, 1995

Este nosso gigante, nosso porque mais se abre à nossa poesia[1] e ao som de nossa língua[2], se abre murmurando vário nos azuis, verdes e nas cinzas de escuridão, dialoga pelo interesse que temos por ele, e deixa-se ser nosso. As afinidades connosco são profundas:

Nasce o poema como nasce a onda

(Tem o mar da emoção a mesma angústia

Salgada.)

Mas é mais breve a flor desamparada

Do gigante…

A humana inquietação realizada

É uma onda constante.

Miguel Torga, «Testemunho» in NIHIL SIBI,

Coimbra, Coimbra Editora, 1948

Deste gigante, que, para nós, em cada onda murmura ou brama, se deixa vir à nossa iminente e imediata vida como mistério cósmico e sagrado:

(…) Há quantos anos já te recito

Obsessivamente

A medir cada verso

Em cada onda!

E nunca te entendi!

És um mistério cósmico e sagrado.

Um mistério que logo pressenti

Quando pela primeira vez te vi,

Maravilhado,

A marginar um Portugal sonhado,

Tão perto e tão distante,

Sempre no mesmo instante

Morto e ressuscitado.

Miguel Torga,«Oceano» (excerto) in  Diário,

Alfragide, D. Quixote, 2010-2011(1985)

É o binómio finito-infinito que abre continuamente a nossa compreensão à exploração reflexiva, é esse binómio que excede os versos do seu canto pois somos instalados tanto na terra como no mar, sendo nós do mar como somos da terra, nós, somos também os primeiros oceânicos, os que nele souberam primeiro cavalgar-lhe oceanicamente, isto é, em seu pleno e imenso dorso sem terra:

Não cabes no teu nome, búzio aberto

E transbordas em ondas,

Espumoso como um vinho singular,

Salgado e azul,

(…) a olhar-te,

Embebedam-se os olhos

Dos poetas.

Mas excedes, também, os versos do seu canto.

Oceano, oceano, oceano,

Grita do céu uma gaivota inquieta.

Desamparada, a asa do finito

Mede, aterrada, as léguas de infinito…

Miguel Torga,«Mar» (excerto) in Diário,

Alfragide, D. Quixote, 2010-2011(1963)

            Para outras descrições do gigante, nascido antes do bem e do mal, temos também seu submarino meio, a sua exalação, sempre atual e igual, antes de Cronos é intemporal:

A distribuição e variedade de aromas é, debaixo

das grandes superfícies de água,

paralela à que existe num continente.

(…) O mar cheira!, que descoberta

importante fez Bloom

na sua caminhada interior para a Índia.

Sim, isso – e também se caminha pelas águas.

O mar, mantendo-se estranhamente igual,

dia após dia, mantém ainda, no entanto,

relações contemporâneas com os barcos

que se aperfeiçoaram, a cada século, no motor

e no Destino. Nunca fica desactualizado, o mar,

mesmo no momento da primeira saída para a água

da embarcação mais moderna.

Como não tirar conclusões deste facto?

Gonçalo M. Tavares,

Uma Viagem à Índia (excerto), Canto VI, 25-26,

Lisboa, Leya, 2010

Sua ondulação, amena ou feroz, e em sua gradação, de suavidade e severidade cruel e gratuita, é como tecido de mortalha. A terra espera os mortais. E o mar não é diferente, também os toma. Mas, em nossa morte, este nosso gigante sempre entrega-nos suas flores:

(…) Lentas as ondas teceram sobre elas flores de espuma,

lentas as naus desceram os abismos azuis.

Ninguém a bordo se alarmou; aquilo era esperado. (…)

Manuel da Fonseca «Saudade» (excerto)

in Poemas Completos, Lisboa, Forja, 1975

            Dos seus abismos o mar sobe ao céu, suave sublimando-se, ou não e sobe violentamente. Sopra um lençol diáfano de espumas-flores alvas e femininas. Em seu corpo escandaloso de imenso e forte, o mar recebe o beijo lento do sol, da luz coada e o recorte de rendas:

…….. O mar sobe ao céu

                                   nas claras manhãs de inverno

                                   soprando um lençol diáfano

                                   de espuma.

                                          O sal vem até nós

                                          com a suave violência

                                          da brancura insuportável.

                                   (…) Tudo é prata

                             no teu corpo escandaloso

                             recebendo o beijo lento

                             desta luz coada

                             pelos recortes de uma renda grossa

                             na janela.

José Fanha «O Mar Sobe Ao Céu» (excerto) in Tempo Azul,

Porto, Campo das Letras, 2002

O mar, nosso antigo tormento, reverbera-nos também além da mágoa que partilha connosco, amplia-nos a esperança, a noção de transcendência e a prudência no secreto d’alma (…):

Do grande mar do meu tormento antigo,

Como aurora d’amor sai a esperança,

(…) Mas o secreto d’alma, inda toldado

Das nuvens negras com que antigamente

A cercou por mil partes meu cuidado (…)

Fernando Rodrigues Lobo ‘Soropita’,

Poesias e Prosas Inéditas,

Porto, Typographia Lusitana, 1868

É atrás e não à frente do já morto que vivemos e dizemos: «Mar…!». Como fileiras cerradas em batalha estamos atrás do já morto e dizemos «Mar…!» como vida e morte. Para ele não há linha cronológica mensurável: Enquanto vivo ou viverei: digo mar, para ir, com os olhos líquidos,àquela ilha mais almejada: A lusa Liberdade – a que aportámos (…) cedo. Oiçamos, solicito, a densidade poética que maior realidade diz do que sua manifestação aqui reflexivamente sugerida e exposta:

Atrás do morto vivo e digo mar,

(…) nos olhos líquidos a ilha

a que aportámos logo, perto e cedo. (…)

Pedro Tamen,Os Quarenta e Dois Sonetos (excertos),

Retábulo das Matérias, Lisboa, Gótica, 2001 (1973)

Não morreu aquele português que reside para sempre no colo do gigante. Pois ele, o morto faz parte de nossa viagem para a ilha da Lusitana ousada liberdade. Todavia, dispondo-nos em movimento temporal, nós que somos também saudade, somos a fronteira do impossível, como a terra é para o mar que vem à praia:

(…) Saudade, és todo este mar!

Eu sou a praia da fronteira.

Armando Côrtes-Rodrigues,«Mar» (excerto) in Planície Inquieta:

Poemas de uma Ilha Distante,

Vila Franca do Campo, Ilha Nova, 1987

Em na sua solidão de gigante enorme contido pelas pedras e areias – a nossa solidão nele também adquire empatia e parecença. A mesma eterna e imensa solidão de nós para nós, como são as quilhas depois de abrir a água, no grande silêncio do imenso mesmo:

(…) E quando as quilhas vêm, abre-se a água.

Depois…é tudo igual – a eterna mágoa

Da mesma eterna e imensa solidão.

Armando Côrtes-Rodrigues, «Sou mar, sou onda sou espuma ao vento»

(excerto)  in Planície Inquieta: Poemas de uma Ilha Distante,

Vila Franca do Campo, Ilha Nova, 1987 

E essa solidão do gigante toca-nos numa mágoa também contante no marulho eterno das vagas

(…) Minhálma é água,

que canta, que chora e fala:

doce cantiga das fontes,

brando choro das ribeiras,

marulho eterno das vagas…

No fundo, mágoa.

Armando Côrtes-Rodrigues, «Retrato»  (excerto) a Cecília Meireles

in Horto Fechado e Outros Poemas,

Porto, Imprensa Portuguesa, 1953

Chamando-o por Tu: tu gigante planície inquieta, traduzes a nossa perene inquietação magoada. Em nosso contínuo não podemos ser outro, como tu também. És a

Planície Inquieta

sem limites, sem marcas, sem caminhos,

tão vasta,

que só abrange o nosso pensamento;

tão funda,

que é sempre igual à emoção que geras,

porque traduzes,

no relevo inseguro do teu solo,

a perene inquietação

do coração humano.

Armando Côrtes-Rodrigues, Planície Inquieta,

Vila Franca do Campo, Ilha Nova, 1987

Tu gigante… aqui português como nós…, tu

(…) velho deus limoso,
Coração sempre lyrico, choroso,
E terno visionario (…)

– Nada é mais grande, nobre e doloroso,
Do que tu, – vasto e humido jazigo!

Nada é mais triste, tragico e profundo!
Ninguem te vence ou te venceu no mundo!…
Mas tambem, quem te poude consollar?!  (…)


António Gomes Leal  «Carta ao Mar»  (excerto)

in Claridades do Sul (1875) Mem Martins,

Europa-América, 1999

            Há muito que a mágoa de nossa imperfeição humana expressa-se envolta em mar. Seduzidos ou ambiciosos pelo mar, ali onde quem a vontade pôs/onde a nam pode tirar/ (…)e daqui o receio trágico: onde me aguoas levam alma, vam tambem o corpo levar. O gigante não nos tolhe nem por sua sedução nem por nossa ambição. Mas não nos podemos fiar de  nossa vida nas certas e perigosas batalhas elementais que ele trava em água, ventos, raios-fogo. Por isto, e por nosso limitado entendimento, nunca saberemos se quem vai tornará:

Pola ribeira dum rio
que leva as aguoas ao mar
vai o triste de Avalor;
nam sabe se ha de tornar,

as aguoas levam seu bem!
elle leva o seu pezar
soo vai e sem companhia

(…) [D]a barca levantam remos
e ao som do remar
começarom os remeiros
do barco este cantar:

«que frias eram as aguoas!»
quem as averaa de passar?
dos outros barcos respondem:
«quem sabe que he bem amar
e quem a vontade pôs
onde a nam pode tirar».
tras a barca ho levam olhos
quanto ho dia da lugar: (…)

«onde me aguoas levam alma,
vam tambem o corpo levar»: (…)

mas sam as aguoas do mar
de quem se pode fiar.

Bernardim Ribeiro, Romance de Avalor (excerto), 1554

            Se temos na terra nossa fronteira perante o mar, em que somos um «bicho da terra tão pequeno» (Camões, Lusíadas, I, 106), receosos de toda a natureza, no mar refletimos nossos receios ampliados pelo gigante mar, pois este contra as rochas erguidas e paradas faz-se e desfaz-se, desfazendo-nos também, em sua eterna lide. Se a fronteira-praia, a raia que temos com o mar, essa distância dele e de nós não se altera, senão em maremotos que tudo se desmundificam. Não termina nunca nele a nossa finitude e humana dificuldade. Todavia, o gigante desfazendo-se contra as rochas representa as impossibilidades, e reconstituindo-se nessa lide interminável, representa o Sísifo[3] que somos. Uma praia contudo não há onde que a desfaça: não há nem onde nem onda que desfaça a praia de nosso desejo por onde ele vem até nós:

Nuvens tocadas pelos ventos, ide!

Lá para além de vós, o céu não passa.

Contra as rochas erguidas e paradas,

Desfazei-vos na vossa eterna lide,

Ondas! Flocos de espumas encrespadas…

Que a praia, não há onde que a desfaça.

José Régio, Ode (excerto) in Não Vou Por Aí – Antologia Poética,

Vila Nova Famalicão, Quasi Edições, 2001, 3ª ed.

É notório que na sua braveza a terra parece ser o nosso próprio refúgio quando consideramos o monstro mar:

(…) Que bravo o mar se vê! Como se ensaia

Na fúria e contra os ares se rebela!

Como se enrola! Como se encapela!

Parece quer sair da sua raia. (…)

Francisco Pina de Melo, «Solilóquio» (excerto) in Rimas,

Coimbra, Off. de Joseph Antunes da Sylva, 1717 (2ª ed 1727)

Porém, pelo visto, sempre saímos da raia para o mar ou para longínquas terras, somos afinal os primeiros atlânticos a chegar a Lassa e ao Japão.

Tem simpatia por nós. Talvez pela distância e sacrifício primeiro a que estamos dispostos sobre seu dorso e pelas semelhanças dele em nós. Diz-nos, pois, assim o mar, como ele a si: Homem, eu bem conheço o eterno sofrimento! (…) Ninguém como eu conhece o sofrimento humano:

Homem, eu bem conheço o eterno sofrimento!

Em nuvens, sobe ao céu meu constante lamento…

E sabem-no de cor os côncavos rochedos,

Que tremem, ao ouvir meus trágicos segredos!…

O meu soluço enorme atinge a luz da lua

Que é a tristeza de Deus que sobre mim flutua !

Doces rios que vêm do interior das terras,

Filhos dos lagos e das fontes que há nas serras,

Suavizar um pouco esta minha amargura

Que abrange toda a terra estéril, erma, escura,

Contam-me a soluçar histórias sangrentas

De martírios cruéis, de guerras e tormentas !

E suas águas, ó dor, doces e imaculadas.

Têm um sabor a sangue; estão ensanguentadas.

Quem conhece, como eu, a tua grande dor?

Lágrimas de tristeza e lágrimas d’amor.

Nas minhas ondas sinto o vosso sal amargo !

E há sepulcros também neste meu peito largo,

Insondável… Eu tenho a ciência do Mistério

Que há só no livro sepulcral dum cemitério !

Conheço todo o pó e leio nas caveiras…

Tenho assistido a muitas horas derradeiras.

Muito último suspiro agita minhas ondas…

Vagueiam muitos ais nas trevas hediondas

Que pousam no meu peito, aonde as ventanias

Cantam um salmo eterno e negro d’agonias…

Ninguém como eu conhece o sofrimento humano.

Eu, o mártir sem nome, o ensanguentado Oceano,

Um outro Prometeu…

Teixeira de Pascoaes, Para a Luz; Vida Etérea;

Elegias; O Doido e a Morte (excerto),

Lisboa, Assírio & Alvim, 1998 (1906-1924)

O mar surgindo em nós se nos torna a perceção duma grandeza que não é nossa, nem é dele completamente. Todavia, com essa transcendência ou infinito de aspiração: no canto das neblinas que sobe, ou, se para chegar ao divino manifestando a sua força, escorrem-lhe, como a nós, lágrimas divinas nas pedras escorrendo, e quedando-nos finitamente como ele em prisão líquida e imensa:

(…) Sobe, do mar salgado, o canto das neblinas.

Nos olhos duma pedra, há lágrimas divinas; (…)

Teixeira de Pascoaes, Para a Luz; Vida Etérea;

Elegias; O Doido e a Morte (excerto),

Lisboa, Assírio & Alvim, 1998 (1906-1924)

Na embarcação desarvorada, que somos nós por vezes, sobre o lombo do mar escuro, irado e verde, talvez se perca a vida… não há provisões humanas para uma eternidade desejada, mas, ali, tragédia apenas:

A vaga verde, aquele navio desesperado,

Aquele navio humano, cheio de porões,

Sou eu. Isto é, eu  ̶  o navio desarvorado; (…)

Vai o navio duro à vaga verde

Com sino de nevoeiro, lanternas, porões:

É um bocado de escuro que se perde

Na vida eterna, sem provisões. (…)   

Vitorino Nemésio «A Vaga Verde», (excerto)

in O Bicho Harmonioso,

Coimbra, Revista de Portugal, 1938

Além de gigante e leão com cauda de dragão, o gigante adquire asas no fio do horizonte. Com vida submarina em si, com isotérico mundo de aromas fortes e subtis para outras existências, também tem a monstra bocarra que sorve o homem:


A linha do horizonte é um fio de asas

(…) golfo de todo o esquecimento (…)

Vitorino Nemésio «Correspondência ao mar» (excerto)

in O Bicho Harmonioso,

Coimbra, Revista de Portugal, 1938


[1]     Não reconheço ainda algum paralelo em línguas não portuguesas tal intensidade e amplitude poética-cultural do mar como acontece com os autores de língua portuguesa. Assim sendo, procuro refazer por mera justiça uma apresentação nova e pela via cultural do Mare Nostrum.

[2]     «Uma língua é o lugar donde se vê o Mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir. Da minha língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio dodeserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação.»Vergílio Ferreira, (trecho) “A Voz do Mar” in Espaço do Invisível 5, Lisboa, Bertrand, 1999, pp. 83-84.

[3]     Castigado pelos deuses e condenado a rolar uma pedra até ao cimo de uma montanha, pedra que se desprenderá  uma e outra vez, e Sísifo terá de recomeçar o trabalho de a fazer rolar outra vez, sem cessar, até ao cimo da montanha. Metáfora de nossa impossibilidade de estabelecermo-nos nos píncaros da montanha reservada à transcendência.



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Da minha língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto.
Vergílio Ferreira
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