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Você sabe, ou lembra como descrever o que seja a frequência de rádio? Mais ainda, como é hoje o sistema de comunicação na navegação marítima, suas novidades tecnológicas na era da Internet das coisas, os problemas desse nicho de mercado? Foram as perguntas que eu levei para a visita à Radiomar, empresa sediada no Rio de Janeiro, com escritório em São Paulo, que ora comemora 43 anos de operação no Brasil, fundada por portugueses moçambicanos na época do governo militar.Aviso aos navegantes: passar pelos temporais sócio-políticos e econômicos desde aquela época não é para pescador amador.

Nos primeiros quinze minutos de amistosa conversa eu tive uma aula de pescaria, sobre tainha, sardinha, salmão, pesca industrial, aquacultura e ao final, quebrado o gelo rumo aos aparelhos eletro-eletrônicos, continuamos falando de peixes (como encontrá-los, os sistemas de comunicação utilizados na pesca industrial e uma gama de serviços correlatos fabulosa) e fiquei sabendo que no Brasil se come mais sardinha da Mauritânia do que a brasileira. Foi inevitável somar esta informação com um naco de peixe que me engasga sempre que o assunto vem à tona: não dá para engolir que espanhóis e chineses venham a nossa costa pescar, embalar nosso peixe e nos vender, isto é, importamos o que é produzido em nossas águas. Sem falar do peixe caríssimo congelado nos supermercados – e sem citar que, assim como os frangos, o filé de merluza e outros sofrem injeção de água para, ao congelarem, pesarem mais, um crime de lesa ao consumidor.

A problemática é antiga, desde quando no Brasil eram olhos humanos treinados empiricamente que de sobre os morros das encostas avistavam ou não, e reconheciam os cardumes para os barcos ao largo iniciar a faina de captura do pescado, até o atual estágio quando mesmo um barco de pesca considerada artesanal, possui algum tipo sofisticado de “fish finder” à base de GPS dependente de satélites ao redor do planeta.

Este observador Dom Quixote ao militar (de 2003) em prol da regulamentação da profissão da Oceanografia no Brasil (em 2008), sem ser oceanógrafo, teve o privilégio de investigar registros do precursor desta disciplina no Brasil, o Almirante Paulo Moreira, de quem escreveu a biografia, e é oportuna aqui uma de suas célebres frases: “Lagosta anda, não nada, se lagosta é peixe, então canguru é passarinho”. Na década de 1950, ele defendia nossas águas jurisdicionais numa pendenga com os franceses sobre a nossa plataforma submarina.

Hoje, porém, pode-se dizer quase cem anos mais tarde, e justamente quando o mundo começa a sussurrar sobre a Economia Circular, países ricos em recursos naturais, humanos e de toda a sorte, escolhem negociatas transfronteiriças e transatlânticas, descartando e mesmo ignorando o seu estoque local. Um exemplo: ouvi do Sr. Luis Pinho, fundador e presidente da Radiomar, que na inauguração do governo populista no início da década de 2000, vários empresários do setor da pesca, ele incluso, foram convidados a visitar o Palácio Presidencial e ouviram do próprio então presidente promessas de incentivo real que iam da criação de uma secretaria especial da pesca com status de ministério a linhas de crédito.  Afundado aquele governo, quase duas décadas após, em escândalos de corrupção e toda a sorte de mazelas ora em curso, aquela secretaria diluiu-se sob o ministério da agricultura que anda literalmente com a cabeça enterrada na terra de seus próprios interesses latifundiários e multinacionais, e os tais incentivos de crédito nunca foram vistos a olho nu. Em outra ponta, a indústria naval, alardeada como uma possibilidade de geração de milhares de empregos diretos, continuou estagnada, a ver navios. Mais uma vez este observador pode testemunhar, para não ficar a impressão de que é apenas um papagaio repetidor da choradeira: num vôo entre a África do Sul e o Rio, sentado ao lado de um cidadão asiático puxou conversa e soube que o fulano estava indo para o Brasil ser cozinheiro de uma empresa chinesa da construção naval; ou seja, eu acabara de descobrir uma ilha chinesa em pleno Brasil. Noutra oportunidade, na porta de um estaleiro em Niterói, município dormitório do Rio, ouviu um operário vestido de macacão engraxado dizer para o outro enquanto caminhavam para um restaurante na hora do almoço: – Não sei como vai ser, fui transferido para trabalhar lá em cima, eles só falam inglês.

Mergulhando em uma abundância de links, aqui mesmo via Internet, é fácil constatar que no Brasil não há indústria nem pesqueira nem naval genuínas. Uma é precária, sem estímulo real, a outra é importada. Até os inócuos submarinos da Marinha de Guerra brasileira ditos construídos em território nacional, na realidade são outra contradição; menos de 50% do que os fazem funcionar de verdade são feitos aqui ou por brasileiros.

Subindo à superfície novamente, o Sr. Pinho comentou que a legislação brasileira e sua forma de condução são o entrave definitivo para a safra minguada e permanente da pesca no Brasil. Segundo ele, há empresas que simplesmente pararam de operar, aguardando uma janela de tempo mais favorável, vivem “standing by”, em “waiting mode”. Não se consegue resolver nem o que não precisava ser um dilema; por exemplo, quando um barco de pesca traz na rede duas toneladas de sardinha, legalmente na época autorizada da captura dessa rica fonte de nutrientes e sabor, a mesma rede pode trazer alguns quilos a mais de tainha, fora de época e, segundo a lei, deve jogá-la de volta ao mar. Os desdobramentos da psique humana quanto a esse dilema, no Brasil, são abissais, tendendo do radical ao criminoso hediondo.

Nesse quadro, sobra pouca água de manobra para uma empresa sólida, ou menos talvez para as mais jovens. Como fica, por exemplo, o investimento de décadas de fidelização com uma marca de reconhecimento mundial, para o status de representante exclusivo? Se a importação online de qualquer bem ou serviço é hoje tão fácil quanto uma conversa via VOIP… Refiro-me aqui aos instrumentos eletrônicos utilizados nos sistemas de navegação, incluindo comunicação marítima, para não ir mais longe. Já que o Brasil não fabrica esses produtos…

Mil palavras não esgotariam esse assunto, nem as duas horas conversando com o Sr. Luis Pinho via Skype, ele em Lisboa, eu no Rio na nova sede da Radiomar com Ed Sander, Diretor Comercial, que revelou orgulhoso: “completo 30 anos de Radiomar em 2018”.  Segundo ele, a Radiomar se equilibra nesse mar tumultuado, ocasionalmente favorável, numa engenharia infalível de negócio: não apenas vende um equipamento, fornece soluções completas de navegação e comunicação marítima conversando pessoalmente com cada cliente, os antigos e os potenciais, sempre atento às suas necessidades e às novidades do mercado. Como por exemplo o assunto que eu deixei cair na mesa quase sem querer: dos terrenos à venda no fundo do mar. O que?! Leia aqui



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