Recebi convite para o Media Relation Conference a ser realizado no National Press Club (Clube Nacional da Imprensa), ícone da congregação de jornalistas com sede em Washington, DC, até aqui motivo para regozijo não fosse o teor obsceno do press release, desde o “lead” até a última gota do esforço de PR.
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É verdade que este me chegou indiretamente, via email informando que a Diretora de Comunicação Corporativa da empresa PayPal, Amanda Miller, lá estará como palestrante, na “mesa das estrelas”, diz o texto.

Não é novidade o vento morno rotulado de “fake news” que tem circulado o globo terrestre invertendo a aridez de notícias institucionais em “hard news” e viralizando notícias quentes publicadas sem a devida checagem. Em outras palavras, e menos metáforas, o jornalismo tem informado pouco, e sem a veracidade de informação apurada (verificada por mais de uma fonte, com sorte contraditórias). Sofre o público em geral permanecendo desinformado e esta é uma velha notícia. Isto é, desde os tempos da crônica produzida pelos caixeiros viajantes que cruzavam a Mesopotâmia, em pleno nascimento do Crisitanismo, quando não sabiam tudo sobre o que informavam, simplesmente inventavam um pouco e era assim que o povo reverberava as notícias, debatia, formava opinião, estabelecia seus lados do muro, e do balcão. Ou seja, a notícia publicada sempre foi um contaminante perigoso.

Pois avisa aquele convite acima que Amanda Miller irá falar na conferência de imprensa sobre a importância da aproximação dos profissionais de Public Relation com os Jornalistas. Perigo à vista, tão velho quanto o tapete voador das Mil e Uma Noites. Quem articula é Justin Joffe, gerente de relações públicas e ela crava: “…dados nem sempre são compartilhados com jornalistas de um modo fácil para que possam ser trabalhados. Em parte porque estamos sempre muito ocupados garimpando “press releases” que revelem histórias atraentes.” Mais adiante ela destaca uma declaração de Amanda Miller, sua cliente: “Eu acredito que o relacionamento de um publicitário e um repórter é como uma sociedade”. No jargão tradicional e romântico do jornalismo (alguém no meu time?) esta frase poderia ser considerada um estupro. Hoje em dia, porém, não há lugar para escrúpulos, portanto ninguém daria importância ao vandalismo conceitual e filosófico que agride a ciência da comunicação.

Este evento me lembra um outro no Rio de Janeiro, lá ainda numa das primeiras bolhas da Internet (2003) onde um “evangelista” da mídia digital bradava eufórico, para uma plateia apatetada, sobre a capacidade fantástica dos metadados indicarem precisamente hábitos de clicks e padrões de visitantes (consumidores potenciais); ele ensinava como capturar indivíduos, como induzir o percurso de navegação no território das páginas de um website e assim por diante. E ali naquela plateia havia todo o tipo de webmaster, inclusive empregados de empresas jornalísticas.

“Então, como exatamente PayPal empacota seus dados e “insights” de modo a induzir facilmente os jornalistas em suas histórias?”, palavras de Amanda Miller que irá revelar suas melhores práticas na Conferência do National Press Club, tais como “Menos é mais quando se trata de compartilhar dados”, explica ela generosamente: “nós aprendemos a compartilhar menos, não é porque temos todos esses dados é que devemos compartilhá-los”. Desce a cortina, acabou o teatro de mau gosto.

E o mar, de Portugal?

A notícia no Jornal da Economia do Mar de que está em Lisboa o Capitão Charles Moore, fundador da Fundação Algalita, descobridor da ilha continente de plástico (descartado pelo homem) num dado vácuo do giro oceânico do Pacífico, e que ele revelaria para alunos universitários como extinguir esta malfadada ilha e inclusive mitigar a existência futura de outras similares, sinaliza um ressaibo embrionário de “fake news”. Explico: primeiro, porque não é “news”, o descarte irresponsável e desumano de plástico no meio ambiente, que por sua vez chega aos rios inapelavelmente e, ao final, como o Tejo e tudo mais, deságua no mar; enquanto escrevo recebo o resumo de uma pesquisa revelando resíduos microscópicos de plásticos fotodegradados contidos no sal de cozinha, isto é, a nossa mesa; segundo, porque é muito ingênua a idéia do Capt Moore, a quem já tive a oportunidade de entrevistar e traduzir um de seus primeiros textos sobre a sua interessante descoberta; ele recomenda que se consuma menos, ou nenhum, plástico.

Não é necessariamente eliminando um mal necessário que se vai resolver um problema da civilização; como se fosse possível reverter a natureza nômade do homem, voltando aos tempos anteriores da caverna, para evitar a imigração e seus impactos transfronteiriços. O plástico veio para ficar e não estou falando da famosa frase do filme The Graduate: “I have only one word for you, kid: plastic!”. Alguns séculos ainda passarão por debaixo da ponte, antes de exaurirmos os substratos que produzem a enorme família de polímeros. Até lá, teremos que conviver com os benefícios dos plásticos.

A Economia Circular aplicada tanto no mar quanto em terra, assim como o conceito jurídico e no mais amplo sentido do termo “responsabilidade solidária” é a saída. Ora, se o plástico não é biodegradável, que a sua fotodegradação seja o vetor positivo do seu reaproveitamento, de um jeito ou de outro. Descartá-lo é burrice. Alardear que a sua utilização prática deva ser evitada é uma forma de “fake news”, de notícia mal apurada, não checada.

Este raciocínio acima é verdadeiro também para um viés da comunicação, especialmente esta veiculada em “jornal”. Se ela for muito erudita, empolada ou revestida de vaidades, ainda que rica em saber, não alcançará o seu objetivo, o de informar; igualmente se ela for muito superficial, molinha, ou pouco contextualizada (dada a capacidade fantástica de apreensão multissensorial da geração milênio e subsequentes).

Quando eu colocar um ponto final neste texto, terei digitado mil palavras. Se eu não tiver informado nada útil, ou se eu não tiver sido compreendido, a única alternativa teria sido “desenhar”. Neste caso é sinal de que a palavra, o verbo e assim o início de tudo não significou nada, o homem não conseguiu chegar a lugar nenhum, até hoje.



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