Um mercado potencial de 59 mil milhões de euros para Portugal até 2030
Tauron
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No âmbito das iniciativas de celebração do primeiro ano de exercício do actual Governo, a ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, apresentou a estratégia para as energias renováveis marítimas numa sessão em que estiveram presentes os ministros da Defesa Nacional, José Azeredo Lopes, e da Economia, Manuel Caldeira Cabral, entre outras personalidades.

Na ocasião, foi igualmente divulgado publicamente o relatório do Grupo de Trabalho «Energia no Mar – Roteiro para uma Estratégia Industrial das Energias Renováveis Oceânicas», por Ruben Eiras, do Gabinete da Ministra do Mar, e por Ana Brito e Melo, Directora Executiva da WavEC – Offshore Renewables e Secretária Executiva Ocean Energy Systems (Agência Internacional de Energia para a Energia dos Oceanos).

Em discussão esteve “o modelo de desenvolvimento sustentável das energias renováveis oceânicas em Portugal, nomeadamente as boas práticas e princípios orientadores para a competitividade deste sector, no que concerne a tecnologias emergentes como a eólica offshore flutuante e a energia das ondas”, lê-se numa nota do Ministério do Mar.

A ocasião serviu para apresentar orientações estratégicas dirigidas à criação de um cluster industrial das energias renováveis oceânicas em Portugal e foi aproveitada pela ministra do Mar para defender o abastecimento de navios com gás natural liquefeito – que já pode ser produzido a partir da tecnologia e plataformas em utilização na produção de energia eólica marítima nacional – em Portugal.

 

Benefícios para a economia e o ambiente

 

De acordo com o roteiro, que tem a chancela do Governo, as “energias renováveis oceânicas poderão suprir 25% do consumo nacional anual de electricidade” e “substituir o carvão na quase totalidade no mix de energia eléctrica nacional”. Neste cálculo, só é considerada a energia eólica offshore, “dado a tecnologia se encontrar num nível de maturidade tecnológica próxima do nível comercial, facto que não se verifica na energia das ondas”, refere o documento.

Ali se estima que a energia eólica offshore nas águas portuguesas pode produzir o equivalente a 7,1 milhões de barris de petróleo/ano, sem emissões de CO2, enquanto a energia das ondas pode gerar uma média equivalente a 100 barris de petróleo por metro de costa ao longo de 500 quilómetros da costa oeste.

Recorda-se também que a produção eléctrica nacional baseada no carvão (8 milhões de petróleo/ano) equivale a 8 milhões de toneladas de CO2 e que a importação anual de carvão para a produção de electricidade custa 285 milhões de euros anuais.

Além de “crucial para descarbonizar o sistema, mantendo a segurança energética”, refere o roteiro, a energia oceânica renovável representa valor para a economia, designadamente devido à mobilização de empresas nacionais para fabrico e manutenção de equipamentos e ao acréscimo de 20% na independência energética nacional.

O roteiro sugere também modelos de negócio alternativos para rentabilizar a energia renovável dos oceanos, como o abastecimento eléctrico “de ilhas e povoações isoladas”, por contraposição ao uso de geradores e combustíveis fósseis, a dessalinização da água, em vez do recurso à osmose inversa e a processos térmicos, mais dispendiosos, ou o power-to-gas (um processo de armazenamento da energia produzida sob a forma de gás em forma de hidrogénio ou gás sintético, muito seguido na Escócia, Holanda e Noruega).

Outra vantagem adiantada pelo documento relativamente ao aproveitamento destas energias reside nas sinergias “com outras indústrias oceânicas”, como a exploração de petróleo e gás, a aquacultura offshore, a mineração submarina e a energização de plataformas de observação e vigilância oceânicas.

 

Vento versus ondas

 

O documento considera que “a indústria metalomecânica nacional apresenta custos e qualidade competitivos para os fornecimentos” ao sector da energia eólica offshore, “fazendo-o já hoje para torres eólicas e peças de transição (entre a torre a fundação)”. Parte das empresas já se estão a posicionar para alargar os fornecimentos, além de o país estar também bem colocado em matéria de Investigação & Desenvolvimento (I&D), refere o roteiro.

No quadro da energia eólica, os sectores eléctrico e de electrónica de potência têm boa “capacidade de concepção de engenharia e projecto” e capacidade significativa em instrumentação e monitorização, “embora muitas empresas não tenham os seus produtos ou serviços validados para fornecimentos no mar”, reconhece o roteiro. Entre as principais debilidades identificadas está a falta de experiência da indústria naval portuguesa em projectos de apoio às operações offshore.

O documento também considera que no âmbito da energia eólica offshore “a base da criação de valor não vai além do binómio custos-qualidade” e que o grande desafio será “subir na cadeia de fornecimento”, pois as empresas “não têm acesso à engenharia de concepção e dimensionamento”.

A clara preferência pela energia eólica face à energia das ondas, que nem sequer é uma novidade quer no sector, quer entre entidades administrativas, não impediu que os autores do relatório identificassem potencialidades nesta última. De acordo com o roteiro, o facto de não existir actividade comercial ou pré-comercial nesta área “abre oportunidades a novas start-ups e empresas já estabelecidas em todas as fases da cadeia de valor”.

A posição destacada de Portugal nas actividades de I&D, com instituições em posições de liderança na Europa, e em consultoria especializada, bem como a participação do nosso país em elevado número de projectos de I&D europeus e nacionais e em “4 projectos de teste no mar de protótipos”, demonstram que a energia das ondas tem potencial de desenvolvimento, apesar da fase inicial de desenvolvimento em que se encontra, sem “conceitos tecnológicos estabilizados”, com dificuldade de acesso a financiamento e incertezas relativamente a licenciamentos.

De acordo com o documento, os principais desafios que Portugal enfrenta neste tipo de energia renovável são a agressividade do meio marítimo, o “factor que mais dificulta a tecnologia para o aproveitamento da energia das ondas”, e o controlo dos sistemas de energia das ondas, que constitui uma área difícil no campo da investigação mas que é “crucial para aumentar a produtividade de energia sem crescimento significativo de custos”.

 

Oportunidade exportadora

 

A exportação está indiscutivelmente no horizonte dos autores deste documento estratégico. “Num cenário conservador”, a indústria exportadora das energias renováveis oceânicas pode gerar “280 milhões de euros em valor acrescentado bruto, 254 milhões de euros de investimento e 1.500 novos empregos directos, com uma contribuição para o crescimento da balança comercial em 118 milhões de euros”.

Este cenário corresponde a uma duplicação do valor acrescentado bruto “actual da indústria naval portuguesa”, que fornece as tecnologias para a exploração energética offshore, e que se situa “nos 119 milhões de euros”, segundo a Conta Satélite e o Instituto Nacional de Estatística (INE). Para alcançar este objectivo, o cluster das renováveis offshore deverá depender essencialmente de investimento privado, pelo menos, na fase do arranque.

O roteiro considera o mercado de exportação vastíssimo, em particular na Europa, que é mais de 80% do mercado mundial até 2030, com destaque para o Reino Unido e França. Para Portugal, os autores estimam um mercado potencial de 59 mil milhões de euros até 2030, nos sectores em que tem estado mais activa (39 mil milhões no mercado de torres, peças de transição e fundações e 20 mil milhões no mercado das pás). Um cenário que representa aumentar 10 vezes “a dimensão do mercado e do emprego actuais”.

Para os autores, “Portugal tem as condições naturais, científicas e industriais para o desenvolvimento duma fileira industrial para o eólico offshore em águas profundas e/ou de transição e de dispositivos de energia das ondas, focada na exportação de componentes de maior valor acrescentado”.

A curto prazo, a principal oportunidade será a “criação de modelos de negócio assentes no licenciamento de tecnologia, componentes de maior valor acrescentado” pois “a cadeia de fornecimento ainda não está completamente estruturada e existe potencial de desenvolvimento de Propriedade Industrial”. No futuro, França e Marrocos serão oportunidades para exportar energia em grandes volumes, através de interconexões.

Enfrentar o mercado exportador nesta matéria comporta desafios, como o desenvolvimento de novas turbinas, cuja tecnologia é controlada pelos fornecedores, de novas fundações, onde existem oportunidades na operação e manutenção, a redução do custo da operação e manutenção, posicionar a rede portuária, especializando portos e estaleiros neste cluster emergente, mobilizando o conhecimento universitário a partir de uma dinâmica industrial e criando uma nova geração de empregos.



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