Estabelecer pontes oceânicas com a Santíssima Trindade: Reciprocidade, Reconhecimento e Sustentabilidade.
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Reciprocidade…

Escapava saltando pela janela. Nem era um ato de coragem, era um rés-do-chão, era apenas um ato estúpido, só isso – estúpido. Um adolescente a fugir das explicações de francês. O novíssimo jogo “Chuckie egg”, do ZX Spectrum, os solos de guitarra do Mark Knopfler, no “Brothers in Arms”, a vizinha do outro lado da rua que finalmente me disse olá, tudo se me afigurava bem mais prioritário…

O meu avô materno tinha um córtex forrado com obras literárias, muito parecido às estantes de livros que os intelectuais gostam de usar como pano de fundo numa entrevista para a TV. Comunista dos quatro costados, viajante na União Soviética e preso nos calabouços da PIDE, nunca me falou desse seu passado não muito longínquo. Por diversas vezes, e sem qualquer aviso, enquanto me esforçava no passé composé do être e do avoir, dizia: “cuidado com o perigo amarelo…”. Dizia-o sem qualquer expressão e sem procurar qualquer reação da minha parte – “cuidado com o perigo amarelo…” – apenas isso – e eu, continuava – “…nous avons été, vous avez été, ils ont été…”

A palavra tolerância, na sua etimologia, remete para a palavra suportar. Assim sendo, tolerar o outro, é posicionar-se numa perspetiva superior, criando desde logo uma hierarquia e reconhecendo o outro como alguém que se tolera, mas que não se reconhece como igual. Ciente disso, Kant, em vez da tolerância, propõe o “reconhecimento recíproco”, ou seja, reconhecer o outro como igual, digno de respeito na sua autonomia e liberdade.

Reconhecimento…

Em 1864, no reinado de D. Luis I, concluiu-se a ligação férrea Lisboa – Vila Nova de Gaia, Norte e Sul finalmente unidos!

Do outro lado do Atlântico, um outro aficionado pela linha férrea, em plena guerra civil que aboliu a escravatura, Abraham Lincoln, lança as bases daquela que seria a primeira linha férrea transcontinental, a Pacific Railroad. Essa linha, que alguns historiadores invocam ter trazido o Oeste para o Mundo e o Mundo para o Oeste, entre muitas outras coisas, inspirou o capitalismo financiado pelo Governo, tal como o conhecemos hoje.

Os empreendedores põem um pouco do seu dinheiro, os empreendimentos são executados com empréstimos e garantias governamentais, esses empréstimos vencem, os empreendedores recusam-se a pagar e, consequentemente, o Estado tem de suportar os custos… Onde é que já ouvimos isso?

Voltando à Pacific Railroad, essa ambiciosa empreitada só foi bem-sucedida porque 20.000 imigrantes chineses, que já se encontravam na corrida ao ouro nas terras do Tio Sam, lançaram mãos à picareta e à dinamite por metade do salário exigido pelos trabalhadores americanos, e concluíram-na.

Sustentabilidade…

O Cardeal D. Tolentino de Mendonça, meu conterrâneo, no seu discurso do Dia 10 de junho, intitulado “O que é amar um país”, reclama a urgência de implementar um novo pacto ambiental: “… Hoje é impossível não ver a dimensão do problema ecológico e climático, que tem uma clara raiz sistémica. Não podemos continuar a chamar progresso àquilo que, para as frágeis condições do planeta, tem sido uma evidente regressão…” e continua – “… está tudo conectado. Precisamos de construir uma ecologia do mundo, onde em vez de senhores despóticos apareçamos como cuidadores sensatos, praticando uma ética da criação, que tenha expressão jurídica efetiva nos tratados transnacionais, mas também nos estilos de vida, nas escolhas e nas expressões mais domésticas do nosso quotidiano”. Verdadeiramente inspirador, o dom da palavra…

Não precisamos tocar a alma como Tolentino, mas concretizemos. Chamemos-lhe “Green deal”, “economia circular”, “blue growth”, “descarbonização da economia”, “eletrificação da energia”, “desassociar o crescimento económico da geração de resíduos”, chamemos-lhe o que quisermos, mas concretizemos.

As pontes…

As pontes oceânicas entre a Europa e o Mundo devem respeitar a Santíssima Trindade: Reciprocidade, Reconhecimento e Sustentabilidade, senão não devem ser construídas de todo.

Os imigrantes chineses há muito que não são aqueles corpos franzinos, sem conhecimento técnico que, ainda assim, de picareta, esventraram a supostamente intransponível Sierra Nevada, na Califórnia. Já não são, apenas, aqueles turistas que tiram milhões de fotos e copiam as marcas e as tendências do mundo ocidental. Não, hoje eles perceberam a importância do valor acrescentado, a importância da inovação e do desenvolvimento, de cultivarem as suas próprias referências, riquíssimas aliás, e evoluíram como sociedade.

            E nós? Nós hoje continuamos a ensacar ouriços nas nossas praias, às escondidas da GNR e da Polícia Marítima, para os espanhóis transformarem e venderem como caviar. Queremos ensacar lítio para os alemães acrescentarem o valor. Queremos ensacar concessões dos portos estratégicos. Queremos ensacar a EDP, já lá está metido um autêntico arco de governação, um quase governo sombra na elétrica. Que mais ativos estratégicos vamos ensacar? Haverá um racional? Há uma visão de Estado? De futuro?

É de agora? Não. Expulsamos os judeus, num miserável erro histórico, eivado de excessivo zelo religioso e preconceito, e lá tivemos que nos socorrer de mercadores italianos e holandeses que faziam o preço – E que importou? – serviu bem para quem ensacou, a oligarquia burguesa de então.

Há políticos, empresários e empresas portuguesas de sucesso? Há exceções? Inúmeras! Invoco-as vezes sem conta, de tanto orgulho que me dão.

A nova rota da seda, invoca a rota da seda da Dinastia Han que trouxe o Oriente para o Mundo e o Mundo para o Oriente, tal como a Pacific Railroad, um intercâmbio comercial, mutualismo, portanto, benéfico para ambas as partes. Essa nova rota interessa-nos? Quem a promove pratica reciprocidade? O que é suposto ganharmos com isso? Ou, por cá, continuarão apenas a ganhar os que ensacam ao desbarato?

O Governo Chinês traçou quatro grandes objetivos para a sua nova rota da seda: fortalecer a conexão com as estratégias dos países relevantes; melhorar o nível de facilitação de comércio e investimento; continuar a melhorar o sistema de serviço público e assegurar a liberalização de guias de investimento para países específicos; e orientar as empresas para efetivamente prevenirem e resolverem riscos. Têm, portanto, uma agenda muita concreta onde estão bem acautelados os interesses do seu país. Nós temo-la?

E o comércio é justo? É sustentável? É suposto acreditar que uma camisa clássica de homem que embarca num porto do Oriente a 1€, e é vendida por cá, já ordinariamente especulada, a 8€, é útil para o nosso comércio? É suposto acreditar que 1€ de custo de produção é Fair Trade? O trabalho é justamente pago e a produção é ambientalmente sustentável?

É importante respeitarmos os outros se pretendemos ser respeitados. Não são os outros que estão mal. Estão a fazer o seu caminho. Nós só temos de fazer por merecer este país extraordinário e de construir as pontes justas, que respeitem princípios básicos de reciprocidade, caso contrário, deitemo-las abaixo sem hesitações. Ou isso ou aceitamos transformarmo-nos em novos índios que ensacam ao desbarato até o próprio solo, “land grabbing”, como está literalmente a acontecer em África, a troco do último grito das bugigangas e de gadgets eletrónicos e de fausto para oligarquias corruptas e medíocres.

Um déjà vu. Se assim for, assim seja, que pelo menos tenham, por lá, padres António Vieira que nos possam acudir na nossa aflição…

Na verdade, começa a parecer inevitável, cada vez mais amorfos, cada vez mais higiénicos, cada vez mais normalizados, cada vez mais adormecidos, cada vez mais controlados, cada vez mais indiferentes. De contida indignação em contida indignação, de efémero “Je suis Charlie” em efémero “Je suis Charlie”, de viral em viral, sucedendo-se e sobrepondo-se, de alerta em alerta, de última hora em última hora, num presente interminável …“Todos os registos foram destruídos ou falsificados, todos os livros foram reescritos, todos os quadros foram repintados, todas as estátuas, todas as ruas, todos os edifícios renomeados, todas as datas foram alteradas. E o processo continua dia a dia, minuto a minuto. A história interrompeu-se. Nada existe além de um presente interminável no qual o Partido tem sempre a razão.” – Winston Smith, protagonista do romance distópico “1984” de George Orwell.



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