O poder singular da poesia é permitir sermos caçadores e coletores persuadindo amplitudes desconhecidas. É ela um discurso inicial em que pelas palavras se encontra algum caminho, o começar, o continuar, o começar de novo, e considerar essa ação como garantia.

Do emergente subterrâneo humano e do luminoso do poético a poesia preserva do perigo de estabelecer um qualquer perfil formal e aceitar qualquer perfil que o contexto prepare, que pode moldar a pessoa diferentemente do intuído em sua individualidade, livre de experimentar o que significa ser.

            O nosso passado, o pretérito pessoal e coletivo não está terminado. Ainda está em processo. Vimos todos do passado. Quando analisado, este gera novas informações e muda à medida que está sendo reexaminado, com reinterpretação de novos factos, com outros enfoques e mudanças de paradigmas, por ressonâncias de equivalência tanto no horizonte da série histórica[1], tanto na verticalidade da intuição, afinidades que permitem convergências[2] em torno ao fuso da linguagem que fia.

            Quanto à poesia acerca do mar repetem-se os mesmos sentimentos e ensinamentos por todas as épocas em circunstâncias semelhantes. Identificando as decisões e considerando a sua tipologia obtemos a temática, o conjunto de temas, que a poesia acerca do mar, com o mar, versa.

            Em termos seculares, a felicidade tem sido o alvo, ainda quando secreto, de toda a decisão, ação e processos humanos. E, como no pretérito, o tempo adiante não mudará este sentido, quaisquer que sejam as circunstâncias, enquanto a natureza humana permanece. Todavia, havendo passado pelas experiência de mar, o humano ser perante o mar se revela ainda além do que é o seu objetivo, a felicidade.  Ali, perante a diferença do mar de si e na semelhança do mar em si, o ser-se humano transparece no que dele é evocado. Aquando com o mar sua existência é alongada até a extremos do surpreendente possível.

            Esta poética visa trazer ao conhecimento os caracteres pelos quais se vive o mar e no mar. Um elemento preternatural[3], em que o já dado na consciência se abre para outras referenciações, outra mundivisão, que retine por muitos ângulos de um inaudito para a vida comum, através da textualidade poética e de época nos autores portugueses. Experiências de humanidade que transcendem a norma dos dias e ainda não vieram à evidência. Não se tratam apenas de vivenciar as experiências limite de êxtase ou morte, mas uma temática e um processo de novas experiências que parecem adquirir sentido para nossa mesma humana revelação, a partir da relação próxima e profunda com o mar e seus entornos,  no passar pelo mar e ir ainda além do mar, sendo ele um trânsito, como viagem inicial para um outro mundo, mundo a descobrir a quem não passou no mar como seu intérprete.

            Interessa numa poética o escrutínio das imagens, os inerentes conceitos, reconhecer símbolos e colher metáforas persistentes, que permitam ao adentrar-se a reflexão na obra poética, conferir-lhe universalidade e descoberta do humano trânsito além de seu contexto primitivo. O conceber, o conceito produto da convolução que transforma o particular em universal, apesar de seu entendimento seja produzido sempre em situação e, por isso, datado cronológica e culturalmente, é também sempre um abstrato, portanto, aberto a todas as épocas.

            Esta poética procura recolher a ressignificação semântica, os outros ou novos significados do diálogo dos significados com suas referências no contexto mar, de modo a conhecer o sentido específico das experiências de mar, aplicáveis universalmente a toda humanidade. A memória, ali no mar, não encontra paralelos da vida do terrestre. Daí o novo e os extremos que a condição humana encontra.

            Porém, deteta-se alguma normatividade das experiências de mar, especialmente quando a comunicação dessa experiência é expressa pelos autores que viveram o mar, e com uma admirável sintonia, com a próxima afinidade de significações, apesar dos diferentes estilos e épocas.

            Uma poética opera, implícita ou explicitamente, perante uma criação acontecendo, mas acontecendo, como a poesia, para um humano sempre. Sempre em seu perfil humano, com e apesar das tipologias psicológicas. A linguagem não apenas é capaz de enarrar, pode sempre apresentar, para serem vividas ou revividas, manifestações das esconsas profundezas no cadinho fervente da subjetividade, tão funda como o mar e tão salgada como ele,  passagem a um maior conhecimento de si e do que, excedendo-lhe, ainda assim  lhe é dado participar, posto a cognição e a receção dessas referências, desse mundo, que se dispõem ao amplexo humano.

            A função desta poética é a de estabelecer, no seu exercício, não apenas o nomear o mundo que a poesia referencia, mas também formular a existência humana tal como procede da própria linguagem poética, pela qual se firma e se define.

            Esta poética requer, como suposto, a exploração dos sentidos possíveis propostas à existência humana, tal surgindo no próprio exercício da linguagem poética e sua interpretação acerca do mar. A ligação da poesia à inauguração e criação de um mundo é a demonstração do seu potencial de conhecer anfibologicamente o velho e o novo.

            A leitura das poesias acerca do mar ligar-se-ão a temas específicos, mas a partir dos dados que os textos apresentam, rompe-se com todos os moldes de pesquisa. Na imaginação ou linguagem poética, a memória e o passado, são eficazes meios, assim como as figuras de estilo e o próprio estilo pessoal, a sonoridade e expressividade dos autores, mas é sobretudo no acontecimento da palavra que nasce, no momento do verso, no êxtase da novidade, num súbito relevo ou profundeza do psiquismo humano, assim como não surgem os acontecimentos na linguagem do autor por metodologias, também não ela a linguagem poética não se revela ao intérprete apenas por método. A novidade que o poema apresenta também acontece na sua reflexão interpretativa. A reflexão acompanhará os surgimentos poéticos sem necessidade de refazer-lhes em sistema e sem necessidade uma metodologia, senão o respeito pelo ciclo hermenêutico, na cognição dos sentidos possíveis, que os textos encerram na sua mesma finitude.

            A poesia de mar não é um eco de um passado ou sequer de um presente. O detonar poético tanto ressoa em nós um passado, recente ou longínquo, como uma novidade ativa, que se propicia ao leitor e exibe-lhe um interesse próprio dele: O modo de ser da poesia domar é um dizer em que ser e pensar se não distingue. Nada explica racionalmente, justificadamente, o inesperado da novidade poética, como também a adequação que suscita em quem a recebe não pode ser medida. Apenas num dinamismo contínuo, pois a língua poética não reconhece começo ou fim, é acontecimento que surge, apesar do senso comum, da cultura primitiva ou erudita, do sistema de crenças, da ordem e perceção de valores. Não podemos isolar qual a ação dela que convolvera-nos, senão pela metáfora e outras figuras que sucedem inauditas a nosso normativo mundo, mudando a referenciação e as qualidades.

            Ao nível da poesia, a dualidade do sujeito e de seu objeto é desfeita. Torna-se assim estritamente elementar a distância da comunicação. Talvez seja nessa unidade com a existência que reside sua origem. Admitindo que, é neste ponto confuso de ser que tudo se origina e assim se reencontra a palavra como que esquecida e se a relembra. Como se fossemos o que ainda não existia. O poder da língua poética ergue-se, pois, em ingenuidade ou primitividade em nós.

            Se na composição do poema intervêm aspetos culturais e psicológicos complexos e no contexto literário de uma época, e se o crítico literário é um necessariamente um leitor severo, sabemos também que, lendo poesia, intemporalmente revivemos nossos receios e tentações, e desejos de ser que subjazem sempre e ultrapassam a ordem dos dias. A obra poética não apenas diz respeito a algo em nós ou a nós, mas diz-nos também um ser que há-de ser. Se a expressão poética acontece, tal advém também numa necessidade vital, o abrir da vida a uma outra vida, que irrompe em nós no querer que também somos.

            Ao lado de considerações pelas palavras ditas, tal como na evolução de uma língua através dos séculos, a poesia apresenta diferencial nessa evolução, no que diz acerca do mar, cada vez com novos temas. A versificação teve e têm influência sobre a língua poética. Acolhe em formas ou sem formas definidas. Sendo que, então, a forma não é essencial. Porém, cada forma de versificação, de expor a linguagem poética com medida ou sem ela, com rima ou sem rima, essas formas definidas, cultivadas em diferentes épocas, operaram como uma rede que atrai ideias que de outro modo se não encontrariam… Todavia, a temática do mar tem acolhido consistentemente experiências tipo ou semelhantes, por todas as formas da linguagem poética, sempre com experiências similares e vitalizantes ao amplexo humano.

            A poesia é também um epifenómeno, isto é, apenas sintoma por um linguajar com alteridade, depois de declarado um estado da palavra que ressoa livre, e contudo com seus sons, ritmos e respirações, onde brilham cintilações, tão distintas do vulgar como oiro do pó.

            A consciência de uma poética domar é, pela linguagem residente, dizendo novidades na qual não se podem considerar correlações entre o passado e o presente: escapa à temporalidade. Pois os poemas são vívidos, são acontecimentos que se podem retomar enquanto forem recitados ou relidos. As poesias nem acolhem necessariamente ideias tranquilizadoras nem ideias definitivas. A imaginação poética, incessante, intemporal, traduz a riqueza do humano ser vivendo em se especulando e, em assombro, a si se explora, no abrir de si para si. Não se trata de um devaneio do normativo, mas efetivamente transforma, convolando a experiência e visão humanas. Todavia, apenas poderá morar com intensidade neste domínio da língua poética quem já soube reduzir-se a pessoa singular.

            Na poesia acerca do mar, o pequeno e o grande não são ou podem ser entendidos em objetividade. Nada se caracterizará humanamente senão por uma participação íntima no movimento de ser, na exigência de ser e pela exigência do saber, na intimidade do encontro pela palavra que é em nós, na oportunidade de uma eventual semântica nova, na atividade nossa de ser em imaginação e apresentação. Este processo mimético com a poesia e com o mar não advém apenas de uma representação do vivido, mas de um «estar em». Não basta considerar o poema como um objeto sobre o qual pudéssemos elaborar julgamentos. É preciso deixar que ele nos diga, nos deixe ver e pensar algo, algo que nos co-mova a um descentrado e depois reencontrado ser.

            A atração pelo lugar poético não é alguma coloração suplementar à vida humana: É a procura e eventual conhecimento de uma morada nossa humana, mais modesta, mais funda e mais alta. O poema não é um cosmos, um único universo ordenado. E essa morada não é um cosmos. Trata-se sobretudo do viver na genuinidade da experiência. Mais do que adequação ela é expressão da primitividade da manifestação, no sigilo que a existência e vida guardam em si.

            Os pontos de partida nunca são inícios absolutos, o veículo que habitamos já estava em andamento antes de para lá entrarmos. Não há refúgios estáticos senão ilusórios e delirantes, pois os aposentos de nossa morada estão sempre em obra, para construção e para restauração. O devaneio, a conformidade com a existência, sendo esta tão enorme, não passará apenas disso, devaneio pleno e fora de si ou devaneio em qualquer conformidade ignara.

                        Conferindo sentido à nossa Finitude, a poesia pode transformar fogo em refrigério, após alumiar nossas sombras e nossos disformes avantesmas, e pode transformar água fluída em fogo ardente, pelo qual a vida se tempera, permitindo que em memória, imaginação e ser atual não haja dissociação.

            Nos poemas acerca do mar tocamos também aqueles baixios e os profundos de nosso ser em devir, que ficará tendencialmente organizado e com características que sempre nos tornarão empedernidos, não recetivos, erigidos de pedra brutal, sem memória da construção, sem refazermo-nos novos no rememorar e no espantoso acordar. Nada está garantido pela linguagem poética por si mesma, nem pela aplicação dela ao mar. Ela não nos livrará do mundo pretérito e fixado, destino escrito pela ação passada, se nela não reconhecermos o dinamismo do contínuo romper-se da existência, que, obviamente, em nós também acontece.

            A poesia, como arte, não nos abriga do devaneio, nem protege o sonhador. A sua aventura permite apenas que este sonho se sobressalte. Tampouco nos sustém através da tempestade. Nela o leitor mexe-se como na gestação de seu mesmo ser. Sem ela seriamos dispersos na verdade do que existe sem porquê. O que confere sentido à poesia é ser ela o nosso naufrágio de um primeiro mundo, antes do mundo que vem e virá.

            Se quisermos ir além de uma temporalidade enclausurada, por super-estruturas, sejam elas quais sejam, não poderemos apenas permanecer na sequencialidade histórica, sempre contingente, de modo a não obstruir a voz poética como se pudesse esta ser enquanto voz algo apenas epocal. Considera-se que essa voz é intemporal. A mitologia helénica, e acolhendo-os como grandes paradigmas (megala paradigmata) tal como veio Platão a pensá-los na sua obra de maturidade. Aí, a palavra é oferecida ao humano na distribuição dos dons por Epimeteu, seguidamente da dádiva do fogo por Prometeu, sem esclarecimento de pormenor. Todavia, a palavra pode ser apenas um rumor, e, enquanto discurso, fábrica do mundo.    Pela possibilidade de referênciação e de simbolizar da palavra, pelas dinâmicas em que se lhes imprimem, todo o nomeado poderá então encontrar relacionamentos, afinidades, seus limites e domínios.

            No Paraíso atemporal judaico-cristão, ao homem foram atribuídas três tarefas. A primeira foi a de nomear, ou seja, a de significar, referenciando assim o mundo. A segunda e a terceira foram ‘cultivar’ e ‘guardar’ esse Paraíso. Fazer, decidir ou agir, e significar ou pensar, criando o apreensível o mundo, eis os três verbos que humanizam… pois assim só assim será o homem ίkanóϛ, suficiente, e, capax, competente, nos helénicos e latinos.

            Interessa salientar que, em mitologia, (μυθολογία) se conjuga μῦθος «palavra», fala humana, rumor humano, e «discurso» (λόγος), numa saturação de integração total entre a singular palavra e o rio onde ela corre ou correrá. A palavra clama em nosso imo, pelo ouvido e boca, como rio talvez até ao mar, onde se apaixonará também pelo impossível. A palavra será sempre “mitologia”, no sentido que acima se atribuí nos contributos convergentes dos primeiros e principais escritores helénicos. Palavra em discurso… necessariamente pelo barro circunstancial e em moldes paradigmáticos, é invocação para o novo e para que se não deixe de velar os ancestrais pelo mundo existente, pela existência mesma em seu florescer contínuo.

            O mesmo indagar nos mitos da origem das várias culturas havidas no tempo começa pela palavra. Esse apelo da palavra, que convoca a narrativa, pela qual um coletivo se identifica, não apenas em sua língua partilhada, em seus arquétipos e símbolos, mas também em suas histórias, personagens e acontecimentos memoráveis, continuam a morar connosco.

            De facto, nos temas e experiências inscritas e desveladas pelos poemas acerca do mar, obtemos constelações regulares. Um conjunto de constelações que proporcionam sentido – e, no seu conjunto total um zodíaco temático. Uma zona, uma esfera de compreensão, que produz uma determinada cultura, que acolhe vários modos em que a compreensão de si como humanidade se distende. Porém, frisando, na poesia acerca do mar esta consideração temática ou constelações de temas, não tem equivalência em outras leituras a partir da natureza, senão na relação do homem com o mar.

            Enquanto pensado e sentido, numa poética do mar, não apenas acolhemos suas enseadas e seu ser profundo, dedilhando as cordas de nosso ser, na sonoridade poética, ou seja, na voz que é voz que convoca e nada mais requer. O delírio não tem interesse suficiente para entender o vigor poético. Quando é um poeta quem fala e o leitor o reverbera, conhecem ambos a repercussão no ser.

            A poesia é maior que a existência já dada. Só as artes nos permitem viver esta demasiada realidade para nós humanos. A casa natal, a que procuramos remontar como nossa própria morada plena, essa casa desaparecida, não é nem será a que sonhamos.

            Viver ou revisitar a primitividade e a especificidade dos sentimentos e pensamentos nos labirintos corredores, onde estão e se bifurcam infinitamente rotundas reside sempre um segredo. O segredo que somos nós para nós. Nenhuma rede de galerias o esconde e contudo toda a expressão o oculta,. O acesso a essa transcendência que nos acompanha pode nascer de uma experiência, de uma ideia e até pela mudança de nosso vulgar contexto.

            Perante situações primitivas humanas, próprias das artes e poesia que as expõem, um receio de escala cósmica, próprio de um “bicho da terra tão pequeno”, fazendo eco dos dramas, que se viveram e vivem nós, em nossa mortalidade. É preciso tocarmos na primitividade do refúgio ou do segredo em nós, que se nos apresenta como pessoa para que a voz poética primitiva surja.

            O sonho que é vida desejada, querendo nisso vivermos um outro, sempre pela porta larga da imaginação, para procurar um eterno ego feliz… mas, em cuja procura vivemos o devaneio de não-sermos. A fala poética seria, pois, a fala da falta, o desejo de um impossível ser em devir, som que dedilha o lugar perene de nossa inquietação, a irremediável inquietação humana. Mas, vai além disso. Enganarmo-nos onde estamos é certo pelo desejo de ser outro é de enganador do si-mesmo. Se a prática de um valor suscita todos os outros, como a prática de uma virtude suscita todas as outras, assim também o desejo de ser outro pela imaginação suscita todo o tipo de desejos. A primitividade restituída, do homem em vigília, ou seja, apenas em disponibilidade, é apenas acontecimento. Este estado é função da poesia.

            A forma simples é vestida com os tecidos da situação. Mas tudo o que é convocado pela palavra pode vir morar à leitura, como comunicação assíncrona entre seres além das épocas, que, pela interpelação e diálogo de um com o outro se tornam síncronos. Os caminhos primitivos da poesia não são claros. Só nos despojos da embarcação desfeita Ulisses alcançou a praia de Ítaca. Ela, a embarcação, a estrutura, nunca serviu senão para sofrer o furioso embate das ondas que espumavam. Assim somos, também na gigante onda e na cólera do vento, nas forças impessoais, elementos, natureza crua, que desfazem qualquer tipo de habitação humana. E, se não cedendo à imaginação e não ultrapassarmos o reino dos factos, então fica apenas um Ninguém, ou seja, a modéstia de ser homem, ou, possibilidades desumanas. Um dos traços terríveis do homem é este seu ser Ninguém, onde se arruína na força elemental, até desfazendo a “esfera do mundo”. Como experimentou Camões, Brás Mascarenhas e tantos outros, eles foram, como somos, um modo de ser que de nada se podem servir para enfrentar os elementos, dispersos, cósmicos, violentos. O problema não é então um problema do ser, não há comunhão dinâmica do universo com o homem ou com as forças elementais, mesmo as que residem no homem, pois estamos por elas, longe de qualquer referência a formas humanas, sequer a simples formas. Ergue-se então o Fantástico que tudo pretenderá devorar.

            Os acontecimentos súbitos de um mundo novo e de um não-mundo, apenas acessível e dado por tempestades, veras ou metafóricas, quando todo o desespero toma rosto humano, nada resta. E é aqui nestes extremos, e há muitos outros extremos fora desta imagem da tempestade: O de um cosmos aberto em sua enormidade, alheio ao homem. Em quem se pode transformar a pessoa neste aspeto da existência? A arte dá a viver isto como nenhuma outra possibilidade expressiva. Sem conforto onde abrigar-se… quem fica?

            O complexo entre existência e sonho nunca está definitivamente resolvido. Mas aí, na situação limite, como na arte, quando se começa a viver humanamente perdendo toda a objetividade do mundo, o que vem aos sentidos, ao entendimento, e ao entendimento de si próprio? Aí não encontra referências senão o que o transcendem como pessoa. Desligado dos devaneios e dos sistemas, que pode marcar uma biografia? Os ingénuos devaneios e os fortes sistemas, que achamos nossos, são aí na enormidade existencial risíveis. Apenas a surpresa que vive aí é. Não há no coração humano abrigo que imaginamos. A gratuidade aí pode nascer. Não é a elasticidade que se condensa ou se expande segundo o desejo que permitirá guardar-nos de alguma extensibilidade infinita, pois, sem finitude, não é interpretável.

            Apenas a aventura, os trânsitos, poderão conferir sentido para que a pessoa se expresse como um si num cósmico, na evidenciação onde a pessoa é, em toda a sua expressão, uma ânsia. Dizer que se vive tanto na segurança da ordem do dia como na aventura é factual, apesar de não estarmos conscientes de nossa fragilidade vivemos numa aventura permanente, junto ao abismo dos sistemas explicativos que nos conferem segurança. E sem esta fragilidade a vera coragem, origem de toda as qualidades humanas, não pode emergir. No mar não há casa humana e cósmica, que essa existe apenas potencialmente como em todo o sonho. As experiências de mar isso revelam com forte evidência. Não se pode habitar o universo, apenas se pode singrá-lo. Não há uma morada, ou, havendo, é ela o caminho inicial e novo, é o ir o único vero sentido.

            Nada explica justificadamente o inesperado, como também surge na novidade poética, e também se não explica a adequação que suscita em quem a recebe: O poeta pelas suas imagens enraíza-se de modo imediato em mim, a dualidade do sujeito e do objeto é desfeita. O acontecimento poético que surge apesar do senso comum e do sistema de crenças e valores. Nessa unidade com a existência, esta simplicidade é original. O poder poético ergue-se “ingenuamente” em nós, sem que saibamos jamais como. Aí se reencontra a palavra esquecida pela sua vulgaridade e a expressão, poética, torna-se, assim, uma necessidade vital, uma retonificação da vida, um abrir de mais vida à vida.  E, como sabemos, um grande verso também tem influência sobre a alma de uma língua..


[1]     Sendo que a visão de continuidade é uma forçosa lei da História, mas que nos constrange a proporcionar-lhe sentidos possíveis.

[2]     Tradição, diferentes perceções do valor, simpatias estéticas e fluxo simbólico.

[3]     Plutarco, Isis e Osíris, acerca do que pensavam os sacerdotes egípcios acerca do Mar: elemento preternatural, isto é, não natural e com conotações sobrenaturais.



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