Apesar do agravamento das regras de segurança na exploração petrolífera offshore desde o acidente no Golfo do México, há cinco anos, a indústria e as autoridades temem que o comportamento humano e as restrições financeiras continuem a potenciar riscos.
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Cinco anos depois da violenta explosão da plataforma Deepwater Horizon de perfuração petrolífera da BP no Golfo do México, que causou 11 mortos e o pior derrame de petróleo da história dos Estados Unidos, o sector continua a enfrentar preocupações de segurança, apesar dos esforços da indústria e das autoridades norte-americanas para reduzir os riscos associados à exploração offshore. Em Abril deste ano, os reguladores norte-americanos apresentaram uma proposta que inclui novos padrões para equipamentos de selagem de poços de petróleo. Afinal, o derrame de 2010 levou 87 dias a estancar.

A iniciativa, porém, não responde a todos receios. O erro humano, que esteve na origem da explosão da Deepwater Horizon, continua a ser uma preocupação, quer das autoridades, quer da indústria. Os investigadores descobriram que os erros que conduziram ao acidente tinham começado meses antes. Na tarde do dia fatídico, tripulantes da plataforma interpretaram mal um teste e só perceberam que uma bolha de gás subia pelo poço acima quando era tarde demais. A bolha rebentou e provocou uma explosão na plataforma. “A equipa podia ter evitado o acidente, ou pelo menos, minimizado o seu efeito, se tivesse reagido a tempo e de forma adequada”, segundo um membro da comissão que investigou o caso, citado por um jornal norte-americano.

 

Um sistema com defeitos

O Governo norte-americano e a indústria petrolífera criaram um sistema destinado a melhorar a qualidade das decisões tomadas nas plataformas, mas as novas regras ainda não provaram a sua eficácia em termos de procedimentos de segurança. Em declarações públicas, Brian Salerno, director do Bureau of Safety and Environmental Enforcement, um gabinete criado pelo governo norte-americano após a tragédia do Golfo do México, considerou a situação mais segura, mas admitiu “que ainda há trabalho a fazer”. Para este responsável, o programa criado, conhecido como Sistema de Segurança e Gestão Ambiental, rege-se pelos padrões da indústria, que precisam de ser actualizados, pois são estabelecidos pelo Instituto de Petróleo Americano, ele próprio um poderoso agente de lobby do sector. Ao abrigo deste programa, as companhias devem dispor de protocolos de segurança escritos para os seus fornecedores, colaboradores treinados para manter e inspeccionar equipamentos e procedimentos para troca de pessoal, entre outros requisitos. Em 2013, os operadores de perfurações offshore foram obrigados a manter registos de auditorias realizadas aos seus programas de segurança. Em Agosto do ano seguinte, uma inspecção governamental detectou que muitas dessas auditorias não eram rigorosas, depois de descobrir que faltavam provas de que a eficácia dos programas era avaliada regularmente. Desde Junho que os planos de segurança se submetem a auditorias de investigadores certificados por um grupo chamado Centro para a Segurança Offshore, integrado no Instituto de Petróleo Americano. O Governo pretende rever os protocolos do centro e as auditorias que realiza. Em todo o caso, as perfurações offshore tornaram-se mais seguras. Só houve uma vítima mortal em 2014, o número mais baixo de fatalidades desde antes do acidente, e não ocorreu mais nenhum grande derrame. Desde o levantamento da moratória do governo norte-americano à exploração de petróleo nas águas profundas do Golfo do México, no final de 2010, o ritmo das perfurações offshore intensificou-se e em 2014 os reguladores emitiram 49 novas licenças para poços em águas profundas.

A BP também reagiu ao acidente. A par da venda de várias operações para fazer face a despesas associadas ao incidente, a companhia iniciou uma série de reformas com o objectivo de reconquistar a confiança de consumidores, Governos e parceiros de negócio. Uma das medidas tomadas foi o desenvolvimento do seu próprio simulador, denominado Applied Deepwater Well Control, utilizado por membros de todas as equipas que trabalham para a BP nas águas profundas do Golfo do México, incluindo fornecedores. Outra novidade foi a monitorização da prospecção de petróleo no Golfo do México em tempo real a partir dos seus escritórios de Houston. Uma medida que os reguladores querem aplicar a todos os prospectores em offshore.

Outro receio dos reguladores é a combinação do esquecimento com a quebra dos preços do petróleo. “A história ensina-nos que quando qualquer indústria faz cortes, as primeiras coisas sacrificadas são a segurança e a formação”, referiu à imprensa Michael Bromwich, que supervisionou a reformulação das regras após o desastre, antes de deixar o cargo de presidente do Bureau of Safety and Environmental Enforcement, em 2011. Charlie Williams, que dirige o Centro para a Segurança Offshore, considerou à imprensa que as companhias não farão cortes na segurança. “Em vez de fazerem as coisas mais depressa e mais baratas, limitam-se a decidir o que não vão fazer”, refere. “Limitam-se a desenvolver menos projectos”, concluiu.



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