Para os nossos Amigos de Sangue Salgado - com o bom Sal do Mar de Portugal.
Universidade de Aveiro
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Reflexão em Tempo de COVID-19

Homenagem Ilustrada a Uma Geração – e por mais estranho e paradoxal que pareça, a Portugal também

Sempre, naturalmente, com o Mar em Fundo

Firme em minha tristeza, tal vivi.

Cumpri contra o Destino o meu dever.

Inutilmente? Não, porque o cumpri.”

Fernando Pessoa

I – Nós

Ontem sucedeu-nos qualquer coisa de realmente estranho que ainda não conseguimos perceber exactamente o que foi…

Conversando com um velho amigo, muito velho amigo, sobre esta questão do novo COVID-19 que nos preocupa a todos, somos subitamente surpreendidos com uma interrogação sobre quanto mais decisivamente teria contribuído para a nossa formação musical _ ou talvez mais simplesmente, para nosso gosto musical…

Para a nossa formação musical ou gosto musical ???!!!…

Duros de ouvidos que nem uma porta, pouco dados a essas ligeirezas, mesmo

sendo Portugueses e de inevitável costela D. Sebastião, ou seja, de natural tendência para confundir e misturar tudo, sonho, imaginação, realidade, e ter sempre qualquer coisinha a dizer, seja o que for sobre o que quer que seja,  que poderíamos, todavia, dizer ???…

Estranha interrogação…

Que poderíamos realmente dizer?

Provavelmente, nada!…

Sim, um dia nascemos, mas falando com plena franqueza, não tendo  já muito exacta memória disso, quanto de mais recuado verdadeiramente recordamos não vai além do momento em que, tendo-nos subitamente descoberto, para grande surpresa e muito espanto nosso, rodeados de um Mundo repleto de luz, cor e uma estonteante diversidade imensa de  formas em encantatório permanente movimento, como se resguardando esse mesmo Mundo de outra ainda mais imensa diversidade de ainda mais misteriosos, secretos e maravilhosos universos, nos interrogámos como já Leibniz se havia interrogado a si mesmo: porque há alguma coisa em vez de nada?…

Realmente estranho _ não?!…

Era realmente necessário haver Mundo???…

Porquê?… Para quê?…

Não, não era fácil responder, o que implicaria, antes mais, compreender o que se afigurava demasiado vasta para ser passível de simples e imediata compreensão, tanto para nós  como para quem quer que fosse _ o que logo invalidava também a esperança de poder perguntar a quem quer fosse sobre tal assunto uma vez nunca podermos sequer crer em quanto dito, por melhores que fossem as intenções …

De certo modo, em certos aspectos, éramos a sós connosco no Mundo _ e, aparentemente, era assim que era para ser, e sendo assim que era para ser, de um modo ou outro, estava, fosse como fosse, certo.

E logo depois, não menos estranho e surpreendentemente também, algo que se figurava igualmente óbvia e simples constatação: se tínhamos consciência mínima de estarmos perante o Mundo, o que não deixava de implicar também uma consciência mínima de separação entre nós e o Mundo e, simultânea e concomitantemente, consciência mínima de haver o Mundo e havermos nós, se ainda não tínhamos plena consciência de nós, mas percebendo no entanto, mesmo que apenas vagamente, sermos nós perante o Mundo, quem esse nós, ou quem em nós, verdadeiramente interrogava?…

Éramos nós?…

Nós ou outro em nós?… Mas mesmo sendo outro em nós não estaria sempre implícito um nós, interroga-se ele ou não, mesmo que alguém por ele interrogasse?…

E sendo assim, quem verdadeiramente esse nós, quem verdadeiramente nós?…

Estranho, realmente. Mas, havendo nós _ e afigurando-se mesmo indiscutível haver um nós _ esse nós que havia e era, era afinal, estranhamente, nós.

Estranhamente nós, dizemo-lo, porque sendo esse nós, nós, não podendo esse nós deixar de o ser desde sempre e para sempre, o que isso implicava e explicava, simultânea e concomitantemente também, era porque, sendo nós anteriores a nós, não haver perfeita e absoluta coincidência de nós a nós.

Nada de extraordinário, dir-se-á, simples constatação de facto.

Mas se assim era, se assim é, como se afigura assim ser, indiscutivelmente, então, nem menos evidente nem menos facto, sermos sempre também, mesmo na incoincidência de nós a nós, sempre únicos, como mais ninguém.

Como se percebe, a nossa imediata primeira experiência de vida, as nossas primeiras interrogações, não foram de índole particularmente musical, como se logo despertados sob o encanto, com plena consciência e perfeita percepção, da Harmonia das Esferas.

Não, tudo sucedeu de forma bem mais prosaica, terra-a-terra.

Certo, quando deambulávamos a olhar os lírios do campo, ouvíamos o chilrear dos pássaros e ficávamos encantados a escutar a água a escorrer pelos ribeiros abaixo, não deixando nunca de acordar em nós um não estranho vago sentimento de proximidade a qualquer símbolo ou mais ancestral arquétipo primordial,  tal como impossível escapar ao verdadeiramente hipnotismo do contínuo movimento das ondas do mar até se desfazerem mais suave ou mais estrondosamente na praia, quanto mais nos surpreendia sempre era a não menos estranha harmonia de tudo,  o oculto sábio equilíbrio que levava a que tudo não desfizesse o momento seguinte.

Sempre extraordinário e admirável, sem dúvida.

Fora isso, mesmo quando, pelo fim-da-tarde, regressámos a casa e íamos ouvindo o bater os sinos na Aldeia, não era no seu timbre, altura ou sonoro cromatismo que nos prendia a atenção mas tão só já o marcado passar implacável dos sucessivos ciclos da vida, sem mais, i.e., sem qualquer outra conotação mais ou menos explícita, mais ou menos implícita, em termos musicais.

Eramos realistas, se assim se pode dizer.

Ou seja e em suma, em termos musicais propriamente ditos, a nossa iniciação terá ocorrido como terá ocorrido a iniciação musical de quase todos, pelo embalo das pequenas caixinhas de música que nos colocaram na cabeceira da infância ainda mal abríamos os olhos mas ouvíamos já _ e que ainda hoje tanto nos deslumbra e fascinam _ o que, em si mesmo, não tem nada de surpreendente nem de extraordinário…

Para além disso, no que respeita à música, especificamente, o que tínhamos era a intuição _ vá-se lá saber porquê _ de ser a mais metafísica das artes, mas era tudo ainda muito vago e, eventualmente, pouco relevante.

Compreende-se, nesses mais recuados dias, o Mundo ainda era muito também o mundo fabuloso dos contos de fadas _ alguns dos quais, diga-se, não deixam de nos perseguir pela vida inteira _ acompanhados sempre também por uma fértil imaginação que nos incendiava a ilusão de um dia podermos realmente vir a montar um alado Lusitano que nos transportasse «lá onde só lá vai quem lá vai».

O que não deixava de ser algo estranho, surpreendente, era que, independentemente de muito nos divertirmos com as histórias do Coelhinho Branco, da Alice no País das Maravilhas, todas esses contos não deixavam de nos despertar uma espécie de ancestrais memórias, muito difusas, é certo, difíceis já de entender até, mas inegáveis, o que nos levava a interrogarmo-nos igualmente se era pura imaginação ou se a nossa memória é mais do que simplesmente a nossa memória e se, assim como herdamos a cor dos olhos, é igualmente possível herdarmos memórias como, no caso, por exemplo, de alguma mais esquecida costela nórdica.

O poder do sangue, da hereditariedade?…

Não sabemos, ainda hoje, se alguém saberá, com certeza, responder a tal interrogação, mas que não deixa de ser um pouco estranho, não deixa.

Perguntar-se-á: acreditávamos piamente nos contos de fadas e em todas essas mais fabulosas histórias?

Evidentemente que não e não era essa sequer a questão.

Não, os contos não nos importavam muito; sim, o que simbolizavam.

Olhávamos o Mundo e percebíamos o perpétuo movimento de tudo. Como não desabava tudo? Que estranha oculta força imóvel tudo sustentava?

Como um cosmos em vez de simples caos?

Não, o Mundo era, não podia ser, por acaso, i.e., sem causa _ e sabendo como a causa final é sempre a primeira das causas _ tampouco sem finalidade.

Que nos diziam, simbolizavam, ensinavam, os contos de fadas?

Que há mais mundos por detrás do Mundo, que outros mundos se escondem sempre por detrás da aparência deste mais imediato Mundo.

Que importa então senão desocultar, compreender, esses mesmos mundos, essas mesmas causas e finalidades que movem, afinal, o Mundo?

Como proceder?

Mergulhados ainda num mundo de imagens, de moventes imagens, e por isso mesmo, também mais movidos do que moventes, como nos libertarmos desse incessante movimento?

Sim, se não é possível pensar sem imagem, ou fantasma, imersos na imagem, fundidos na própria imagem, fazendo parte, de algum modo, do próprio fluxo da imagem, como compreender, como libertarmo-nos da mesma imagem para a compreendermos?…

O que nos liberta, verdadeiramente liberta, do terrível poder da imagem?

E tão surpreendente e mais estranho ainda, concluíamos só a palavra parecer ter esse poder; só a palavra, a palavra certa, se afigurar-se dar-nos esse poder; só a palavra, a palavra certa, separando-nos da imagem e, iluminada agora pela própria palavra, vista e reflectida agora na consciência, poder dar-nos acesso à sua compreensão, como se a própria palavra fosse um raio de luz que, unindo consciência e imagem, compreendendo em si a própria imagem, permitisse já um superior entendimento da própria imagem.

Estranho?…

Muito estranho: a palavra que liberta…

Sim, não pensamos sem palavra, de facto _ ainda que não pensemos por palavras, o que seria um absurdo, com certeza _ mas se não pensamos sem palavra, nascido Portugueses, pensando por Portuguesas palavras, que significado e implicação poderia isso ter também?…

Não havendo acaso, nada sendo sem causa e própria finalidade, mesmo que nos escapasse o seu exacto significado e implicação, não teria tudo isso profundo significado, a mais vasta implicação e a mais insondável repercussão?…

Tudo levava a crer que sim _ explicando, talvez porque tão Portugueses, mesmo se ainda inexplicavelmente então, sempre nos sentimos também.

Compreender…

Estranhos e surpreendentes dias de um tempo em que éramos felizes, com consciência disso, com consciência de serem os dias que tínhamos para sermos felizes, com consciência disso…

Um tempo que tínhamos ainda relativamente só para nós, para podermos estar sossegados a sós connosco mesmos e ir experienciando calmamente o Mundo e as nossas próprias capacidades, observar e sorrir ao surpreendermo-nos com as mais estranhas e desenfreadas loucuras de terceiros mais dados a tais aventuras, ou simplesmente deambular, perdidamente, sem destino nem propósito, apenas para ir explorando a vida e o tempo quando a estranha absoluta irreversibilidade das horas nos começava a inquietar também.

E, claro, havia sempre, naturalmente, os mais exaltantes dias de idas ao Circo de que guardamos, ainda hoje, as mais intemporais e comoventes memórias.

Dias felizes, sim, podendo ainda vaguearmos livre e sonhadoramente, sem eira nem beira, como próprio, certamente, da idade e, talvez até, da Portuguesa condição.

Felizmente, suficientemente fortes e saudáveis, salvo as pequenas maleitas próprias da idade, nem de sonambulismo sofrendo _ o que poderia ser sempre uma acrescida preocupação, para o presente e para o futuro _ as noites, calmas, eram povoadas, sem drama, de pensamentos, sonhos e pequenospesadelos próprios da idade também.

Haveria, por certo, uma progressiva consciência de o mundo poder não ser sempre um lugar tão seguro quanto supostamente seria para ser, mas isso fazia igualmente parte da vida e do crescimento, nada tinha de extraordinário, não deixando assim de prevalecer, como esperado, aquela sempre dita tão encantadora quanto natural infantil despreocupação.

Éramos felizes num tempo ainda sem responsabilidades nem quaisquer mais complexas atribulações, com uma única questão que nos rodopiava na mente constantemente: são os sonhos para serem reais? Se são, como estabelecer a relação?…

Fora isso, tudo corria leve, suave, placidamente, vivendo como num mundo encantado e maravilhoso.

Quanto à música, ou à formação do gosto musical, sejamos francos, nada­ salvo os encantatórios acordes do realejo tocado pelo amolador de facas e navalhas que passava semanalmente pela rua, sempre acompanhado pela mais encantadora e adorável «pequena suja» que alguma vez nos foi dado conhecer, sempre a saltitar, a esvoaçar e a devorar chocolates atrás de chocolates que sempre partilhava como o seu mais simpático pequeno rafeiro que, para o merecer, não parava, por sua vez, de sempre tentar imitar as mesmas pantomimas, continuamente a saltar e a desequilibrar-se em duas patas.

Não, não pensávamos, e muito menos, de qualquer forma, lhe dizíamos: «Come chocolates, pequena; Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolate. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. Come, pequena suja, come! Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!».

Pelo contrário, quanto nos apetecia era só pedir àquele pequeno anjo de cabelos tecidos a raios de luz e brilhantes olhos de mar, que nos ensinasse também, «sem metafísica», uma canção para dançar _ mas imaginando já, sabendo mesmo, quanto  nos diriam, nunca ousámos…

Teria, compreensivelmente, de ficar para mais tarde.

Tempos felizes, realmente, quando ainda não se havia inventado o disparate, ou estrita necessidade, do Pré-Escolar, a obsessão de nos organizarem todo o mínimo tempo-livre ainda vinha longe e o inevitável choque com a realidade ainda podia esperar.

Infelizmente, não muito.

Referimo-nos, naturalmente, à entrada para a Escola Primária.

Não, nada contra a Escola em si, mas porque, nesse tempo, preferíamos estar, indiscutivelmente, a sós connosco mesmos, distraídos a falarmos com as plantas, os cães e os pássaros, e todo o contacto humano se nos afigurava não só relativamente inútil mas esquisito, estranho, até mesmo extremamente arriscado.

Sabendo, mais a mais, para tudo quanto verdadeiramente importa aprender na vida serem os verdadeiros professores sempre outros, tampouco se vislumbrava especial razão para tal imposição.

Mas era assim, evidentemente. Não sabemos se compreensivelmente, mas era assim.

Importante, diz-se, como já se dizia também, aprender a conviver, a socializar, surrealizar, ou seja lá o que for e o quer que seja que tal possa ou queira significar.

Nada a fazer senão aceitar _ e aprender: «a vida é um Palco» e, para «não morrermos de verdade», como diria o velho sábio amigo do operático Wagner, importava abraçar, por inteiro,  não «Arte» mas a ironia _ a sempre tão louvada «socrática ironia» que todos tanto celebram e tão poucos acertam onde Patão verdadeiramente a colocou ou verdadeiramente fez com ela.

Quanto ao mais, tínhamos o tempo do nosso lado e nada melhor fazermos exactamente tudo quanto todos os rapazes e raparigas da nossa geração faziam também, de modo a passarmos o mais desapercebidos que fosse possível.

Era o mais sensato, sabendo tudo na vida ter o seu tempo próprio e ser tão estúpido quanto inútil querer antecipar quanto não chega nunca senão quando é realmente tempo de chegar _ mesmo que a sensação fosse já de ser já tarde, «sempre tarde demais»…

Nada a fazer, nada a fazer mais senão aguardar, calma, pacientemente, a passagem das horas e ir tentando aprender quanto a vida sempre tem a ensinar _ e que é sempre muito.

Exemplo disso mesmo não demorou a chegar e, curiosamente, através da música _ ou talvez melhor, através de um episódio de alguma forma relacionado com a música.

No que respeita a formação musical, indo já longe os dias de um mais entusiasta D. João V que chegou a compor peças sinfónicas e trouxe à Corte de Lisboa uma figura tão magnífica como a de um Domenico Scarlatti, a nossa tradição, como sabemos, não é particularmente exuberante, reduzindo-se _ como talvez ainda hoje se reduza, _ na maioria dos casos, às mais simples aulas do que vulgarmente se denominada Canto Coral.

Assim, uma vez iniciado o «calvário» da Primária, logo na primeira aula de Canto Coral, quando a turma entoava arrebata, a capella, um qualquer desconhecido mas magnífico tema que, sem sabermos ainda exactamente porquê, nos exaltava e entusiasmava também, a Professora, num tão súbito quanto desmedido e inesperado gesto, ordena imediato silêncio e, fitando todos com uma estranha expressão facial, entre o meio perplexo e o arrepiado, fixa o seu olhar em nós e, acto contínuo, dá indicação para entoarmos, a solo, para avaliação dos nossos dotes vocais, com certeza, algo tão simples como um mais simples Parabéns a Você.

Ainda meio atordoados pelo inusitado da situação, ainda mal entoáramos os primeiros acordes, manda-nos, acto contínuo, sem contemplação, calar e abandonar o grupo que pôde então prosseguir _ agora, sim _ harmoniosamente, o respectivo ensaio.

Sorrimos.

Além de perfeitamente compreensível, perfeitamente justo.

Nada a acrescentar _ a não ser, talvez, agradecer, reconhecidamente, tão bendita Escola que nos proporcionava,  para além do mais tradicional ensino teórico que sempre se aprende nos livros, também, em complemento, a mais decisiva experiência prática para virmos a conseguir alcançar, de facto, o êxito e o sucesso que todos desejamos realmente alcançar na vida.

Longe de irrelevante.

Neste Mundo Moderno, crescentemente competitivo em que a vida não é mais senão do que uma permanente cavalgada em busca do  reconhecimento que Hegel dava já como a primordial aspiração de todos, dada a nossa tão natural quanto inevitável tendência para a «nota fora de tom», a chamada «fífia», ou seja, para desafinar, nada como procurar manter sempre, tanto quanto possível, o mais prudente silêncio e ter a humilde inteligência de sabermos sempre seguir, convictamente, sejam quais forem as circunstâncias, simplesmente quem sempre importa seguir _ sem mais.

Soubéssemos ser fiéis aos mais altos ensinamentos da Escola e seriamos felizes.

Memórias antigas, dir-se-á, desses mais recuados dias de 60 em que, entretanto, começávamos a suspeitar também _ embora, no início, de forma ainda algo um pouco vaga e até ligeiramente confusa _ pertencermos já, com muito forte probabilidade, realmente a uma outra geração, ou seja, uma geração talvez mais anglo-americana do que seria de esperar, nascida, eventualmente, mesmo mais crua e solitária do seria igualmente expectável, tal como viria a suceder, de resto, também com as seguintes.

Geração talvez um pouco mais excessiva do que as anteriores, sem dúvida, mas, apesar disso, com a inegável virtude de estar sempre disposta a pagar o respectivo preço.

Sim, eram já os Anos 60, a segunda metade dos famosos Anos 60.

Tempos curiosos e interessantes _ indiscutivelmente.

A rápida expansão económica do pós II Guerra tinha vindo a criar o que se começava a designar como a Sociedade da Abundância, ou de Consumo, com a grande vantagem de, menos preconceituosa e mais libertária (o «politicamente correcto» ainda não se tinha afirmado como actualmente), ser também muito mais democrática, permitindo, e a todos facultando, sem distinção, inclusive, «meios de transporte» até então apenas acessíveis a muito poucos _ entre os quais, como sempre, basicamente, selectos grupos de elite e privilegiados artistas.

Nada de extraordinário, dir-se-á, cada geração calça as botas que lhe são adequadas e dá os passos que lhe são próprios, como, aliás, como a geração anterior já o havia feito, mas, nesses já mais longínquos dias de 60, algo estava realmente a mudar, e mesmo que muitos não o entendessem,  a mudar muito mais radicalmente do que alguns gostariam mas, muito menos também do que outros pretendiam fazer crer.

Se a natureza humana é a natureza humana, muito mais permanece do que realmente se altera _ e da natureza faz exactamente parte uma contínua diferente manifestação, uma contínua diferente expressão, da sua própria natureza e essência.

O que houve de realmente diferente nos Anos 60 que fizeram deles a Década que marcou o Século e moldou o futuro?

Em primeiro lugar, talvez a invenção da pílula que começou a ser comercializada exactamente no início da década, em 1960, e que fomentou e permitiu a exaltação do chamado «amor livre» _ ou, mais poética e portuguesmente, ser o amor, sempre, o «o momento em que eu me dou, o momento em que te dás».

Alguns preferirão falar da «emancipação feminina» mas se houver um mínimo de memória e não se esquecer, por exemplo, uma Leonor da Aquitânia que, além da Corte própria e de todo o poder que dispôs, chegou, inclusive, a comandar exércitos durante a II Cruzada, em terras do que hoje serão da Síria, ou, entre nós, uma D. Beatriz, que chegou, inclusive, a Mestre da Ordem de Cristo, percebe-se a necessidade de moderar um pouco certas opiniões, por muito boas que sejam as razões que se imagina ter para as defender.

A «explosão» do amor marcou, de facto, os Anos 60, mas talvez importe igualmente não deixar de meditar, independentemente desse mais nobre e genuíno sentimento, associado, de resto, sempre também a uma certa ideia de liberdade, no porquê da regra «comunidade» das mulheres, desde a República de Platão aos mais famosos falanstérios de Fourrier, ter sido sempre igualmente uma constante de todas as mais disparatadas utopias, bem como, correspondentemente, a educação comum das novas gerações.

Curioso…

Entretanto, se a invenção da pílula teve a importância que teve, e as consequências que teve, não menos importante terá sido também a ascensão, se assim se pode dizer, do conceito de  «Juventude», até aí significando apenas a fase de transição da puberdade à adulta, a um novo conceito «categoria social», se assim se pode dizer, perfeitamente autónoma e não menos perfeitamente caracterizada por uma bem determinada e específica visão do mundo, de atitude e de comportamento, a opor-se, ou a afirmar-se mesmo, em contraposição à adulta idade, ou quanto tendia a mais tradicionalmente considerar-se como adulta maturidade.

Mais do que isso, como específica visão de vida, correspondente atitude e consequente comportamento, «Juventude» passou a considerar-se mesmo como um «estado de espírito» _ como se o «espírito» fosse algo susceptível de ter «estados» _ passível, inclusive, de se assumir e manter-se, uma vez atingida, por toda a vida.

Interessante era também o facto de grande parte dessa nova «juventude» surgir como emergindo de um purificador banho lustral, livre de todo o «pecado original», envolta numa espécie de aura de imanente ligação às mais primitivas e primordiais forças ctónicas ou em permanente cósmica comunhão com o mais profundo ser do Universo.

Novos de tempos, de facto _ ou talvez não tão novos…

A natureza humana não muda tanto e muito menos rapidamente assim, de uma década para a outra, sem mais _ e se houver um pouco de memória, não é difícil lembrar os velhos grupos mendicantes em plena Idade Média, como múltiplos sempre foram os movimentos de índole mais ou menos comunitária, imaginando e tentando impor uma outra perfeição possível para o Homem, desde os Cátaros aos Anabaptistas e à República Jesuítica do Paraguai, entre outras experiências não muito felizes, assim como muitos e muito diversos sempre foram os vários movimentos milenaristas que têm  povoado a História ao longo dos séculos.

Nada disso foi novo _ ou foi inteiramente novo.

O que houve de verdadeiramente novo e quase único foi a sincrética conjugação de tudo isso com a música, não já apenas mero espectáculo e um negócio mas real expressão de alma, de uma específica compreensão e atitude de vida, num momento em que o Ocidente atingia também uma nova fase de desenvolvimento tecnológico e o Mundo, como diria Marshall McLuhan, se transformava realmente, pela primeira vez na História, por via dos novos Meios de Informação e Comunicação, entre os quais, preponderantemente, a Televisão, numa «Aldeia Global».

Algo semelhante no Mundo, em diferente amplitude mas não menos decisiva repercussão, só havia sucedido no período áureo da Cultura Galaico-Portugueso-Provençal a que a Europa deve a sua verdadeira unidade cultural e civilizacional _ não sendo também por mero ou simples acaso que o acontecimento que ficou simbolizar para sempre esses mesmos  Anos 60 não foi senão o também para sempre mais célebre Festival de Woodstock, anunciado como “Uma Exposição Aquariana: 3 Dias de Paz & Música”, que teve lugar em Agosto de 1969 perante uma tão inimaginável, à época, quanto inesperada audiência contabilizada em mais de 200 000 assistentes.

Curiosamente, salvo tudo quanto oito séculos de História separam, se a Cultura Galaico-Portugueso-Provençal não deixaria de vir ter decisiva influência na formação de um São Francisco e, mais tarde, na própria Ordem, sobretudo via Oxford, na própria evolução do Pensamento Europeu, se assim se pode dizer, também muito do que se poderá designar como o mais genuíno «espírito de Woodstock», uma espécie de «Franciscanismo Neopagão», manifestando, inicialmente, uma mesma equivalente atitude de despojamento e entendimento da vida como uma dádiva a ser plenamente assumida em cada momento, em renovada harmonia com a «Natureza» e perfeita irmandade com todos os seres criados, não deixa de estar igualmente na raiz de muito do melhor de um certo Ambientalismo Moderno ainda não totalmente corrompido por muita da perversão político-ideológica que muitos desses movimentos têm vindo igualmente a sofrer desde então.

Mais do que o passado importava agora o futuro, infinitamente aberto, infinitamente portador de infinitas oportunidades, de infinitas virtualidades, de infinitas possibilidades.

Com certeza, os Anos 60 não se reduziram nem podem ser inteiramente reduzidos a Woodstock.

Um mês antes, em Julho de 1969, a Apolo 11 descia na Lua e «num pequeno passo para o Homem e um gigantesco avanço para a Humanidade», Neil Armstrong descia do Módulo Lunar e tornava-se o primeiro homem a pisar a Lua, seguindo-se-lhe Buzz Aldrin, marcando assim igualmente não apenas o triunfo da Nova Era Tecnológica mas também o domínio Norte-Americano do Mundo e a afirmação plena dos Estados-Unidos como a Potência Mundial por excelência do Séc. XX _ não sem afirmação da correspondente hegemonia cultural evidentemente.

Para além disso importa não esquecer também que a década tinha começado já com a tão surpreendente como inesperada eleição de John F. Kennedy como 35º Presidente dos Estados Unidos em 1961, a primeira eleição ganha, dizem os especialistas, pela sabedoria no controlo dos Meios de Comunicação, ficando para sempre célebre também o célebre primeiro debate Nixon-Kennedy transmitido pela televisão que Nixon teria ganho de um ponto de vista conceptual e de exposição de ideias mas do qual saiu completamente derrotado por uma questão de imagem e pura exposição retórica, apresentando-se algo cinzento, mortiço, sem vida, enquanto a juventude e a boa-forma física de Kennedy o faziam brilhar, sobressair e apresentar-se com uma capacidade de afirmação de poder completamente distintas, independentemente de todas e quaisquer verdadeiras ideias políticas expostas ou tão só subentendidas.

John F. Kennedy, pela sua juventude, pela ideia de liberdade que transmitia e sábio controlo da imagem que exerceu, é bem representativo de uma nova geração, a «Geração de 60», tendo sido, muito provavelmente, inclusive, o primeiro político da nova era a atingir uma popularidade que só os ídolos pop viriam a atingir mais tarde, inaugurando também o que Guy Debord designaria, depois de 68, como a Política Espectáculo, ou Sociedade Espectáculo, melhor se compreendendo assim porque o seu assassinato em Dallas, dois anos mais tarde, tanto chocou a América e o mundo inteiro.

Por um daqueles sempre também muito curiosos paradoxos ou lei das compensações do Destino, importa não esquecer igualmente terem a década e o mandato de Kennedy sido praticamente iniciados com o desastre da invasão da Baía dos Porcos, a subsequente Crise dos Mísseis e o Bloqueio Marítimo a Cuba, com a crescente tensão Leste-Oeste a conduzir à eminência  de uma I Guerra Nuclear, que a população Norte-Americana chegou a pensar estar por horas, levando-a a preparar-se mesmo para tal eventualidade ou fatalidade.

Tal não veio a suceder porque, in extremis, por compreensível, embora secreta, negociação intensa entre Kennedy e Khrushchov, os Estados -Unidos acabaram por ceder, permitindo assim levantar o Bloqueio e ao Mundo, finalmente, respirar.

Ficou, porém, a tensão, a mais famosa tensão Leste-Oeste e a chamada Guerra Fria que atingia entretanto os seus anos críticos e passava a jogar-se sobretudo via terceiras partes, tal como foi o caso da mais célebre Guerra do Vietname que dominaria e contaminaria a política internacional até à queda de Saigão em 1975, e nós a experienciámos também em África, com especial incidência sobretudo em Angola, como bem se sabe.

O Mundo mudava, era um facto, mas se o Mundo muda e, por vezes, parece mesmo muito mudar, não tanto assim com a natureza humana.

No caso dos Estados Unidos, por exemplo, o presente centro das nossas atenções como então o era do Mundo, o ímpeto da conquista do Oeste e o relativo menosprezo pelo  Índio, por exemplo, com séculos de distância, não terá sido muito diferente do ímpeto de conquista de Gales, da Irlanda e até da Escócia, ou seja, o equivalente desprezo pelo Celta, assim como, em diferentes termos, a brutalidade da Guerra Civil (sempre as mais terríveis e cruéis) e um equivalente desdém pelos Sulistas; e se, em outros tempos, pela vastidão do território, europeus houve que procuraram a América para aí fundarem as suas singulares Comunidades, e viverem isolados e em liberdade, como os Quaker ou os Amish, agora outros procuravam igualmente o Oeste para formar outras Comunidades, para viverem também de acordo com toda as liberdades e peculiaridades próprias da época e que o já referido Festival de Woodstock não deixaria de patentear e divulgar para todo o mundo_ e chocar, como sempre sucede também, uns mais do que outros.

E se falamos do Oeste, do mítico Oeste, terra de liberdade, das oportunidades quase sem limite, até mesmo para os mais famosos fora-da-lei, tendo assistido já à mais desenfreadas e louca febre do ouro no Séc. XIX, assistia agora, entrados já em plenos Anos 60, à permanente chegada de novos forasteiros que, não deixando de estar igualmente em alguns elementos preciosos com nomes mais exóticos, «Golden Brown», «Brown Sugar», munidos não já de pá e picareta, mas, mais prosaicamente, de uma simples flor presa no cabelo, buscavam, acima de tudo, a mais mítica e tão falada liberdade.

Distintos propósitos, com toda a probabilidade, mas talvez um mesmo velho sonho de abundância, felicidade e liberdade na  busca de outras não menos excitantes vibrações e universal partilha de Paz e Amor, com um renovado olhar também para o Oriente «onde talvez Deus ainda exista realmente», na vívida experienciação de um momento que se sabia provavelmente único, talvez eterno, absoluto.

O «sonho a tornar-se verdadeiramente carne»?…

Os idos de 60

Tempos generosos também, se assim se pode dizer, em que se prestava, de facto, uma renovada atenção à Condição Humana, não apenas de um ponde vista da mais tradicional contestação política e social, como hoje se diria, mas num olhar mais circunstanciado às nem sempre fáceis circunstâncias reais da existência, a um certo quase heróico despojamento, como também à mais humana inquietação pela terrível solidão anónima tão própria e característica das grandes metrópoles, ou, talvez mais simplesmente, à crueldade e ao mal que sempre significa o mal que os homens fazem uns aos outros, sempre presente também na mesma humana condição.

E não menos singular e interessante, apesar de tudo isso, apesar de toda a mais perfeita consciência de não deixar nunca de haver, mesmo nas mais complexas, tortuosas, sombrias, extremas e desesperadas situações passíveis de sempre sobrevirem, inesperadamente, a qualquer momento, mesmo nesses mais complexos, tortuosos, sombrios, extremos e desesperados momentos, sempre sinal de sempre haver também razões de esperança e esperança de haver sempre para quem, nesta longa caminhada como «peregrinos do absoluto», a singular e individual redenção de cada um sempre verdadeiramente conta também.

Dir-se-á, do alto destes mais estranhos dias de pleno Séc. XXI,  ter ficado sobretudo a memória, desses já mais longínquos Anos 60, de um tempo primordialmente  inspirado por mais exóticas musas em que, livres de qualquer mais freudiano sentimento de culpa das gerações anteriores, o amor era a Chave que abria as portas à exploração de outros mundos da percepção, o acesso mesmo a outras dimensões, a outras iluminações ou, mais simplesmente, a outras singulares viagens que as experiências  de um Timothy Leary com a LSD davam, inclusive, foros de cousa científica, logo, cousa séria, permitindo a todos, quem sabe,  viver em poucas horas as sensações de uma vida inteira.

Será assim, mas o que actualmente se diz e enaltece como preocupação com terceiros, com os mais «desfavorecidos», não deixando de conduzir sequer a consequente acção, era incontestavelmente genuíno também, tal como no início da década seguinte viria a ficar plenamente demonstrado com a organização do primeiro Concerto de Beneficência de ajuda humanitária da História, no caso, de ajuda ao Bangala Desh depois da calamidade ocorrida com passagem do ciclone Bhole em que terão perdido a vida mais de meio milhão de pessoas e deixando a restante população à fome e a viver em condições deploráveis.

A década começava a encaminhar-se para o seu termo, a geração que não conhecera e não sabia já quem tinha sido Vera Lynn, embalada em velhas utopias revolucionárias, mesmo sabendo-se não ser esse o caminho, começava a manifestar-se inquieta e, um pouco por todas as grandes Universidades do Mundo Ocidental, a exigir levar a «imaginação ao poder», de imediato, tudo culminando, como se sabe, em Maio de 68­, com as grandes manifestações de contestação e revolta nas ruas em Paris _ sem desvios por Praga, que ficava fora de mão e a União Soviética já lá estava em mais uma das suas muito habituais demonstrações das mais «amplas liberdades» revolucionárias.

Para surpresa e desgosto dos intelectuais universitários Franceses, a Contestação não teve início em França, nem Paris, na Sorbonne, a velha Universidade Dominicana, mas em Berkeley, os Estados Unidos.

Como poderia ser?…

Não era a velha Universidade Europeia e, em particular, o modelo Francês, ainda fortemente influenciada pela Cultura Clássica, pelo Racionalismo, pelo Humanismo, que estava em crise por inadequação ao «tempo moderno», ao contrário do modelo Norte-Americano, de Cultura Geral, mais especializado e técnico?…

Ainda ecos do velho ressentimento e revolta contra a Escolástica e, muito em particular, contra a Escolástica Ibérica que antes do Século de Descartes dominava a Europa?

Possivelmente mas, fosse como fosse, se assim era, o que estava então realmente em causa no actual momento?

Isso era quanto importava e talvez tudo pudesse ser reformulado e resumido na seguinte interrogação: «como pode a gestão de uma unidade social ser, simultaneamente, autónoma livre, por um lado, e democrática, por outro, ao mesmo tempo que se mantém devidamente coordenada com as solicitações sociais exteriores vitais?»

Estava melhor.

Assim formulada a questão, residindo o ponto fulcral numa questão primordial e eminentemente «técnica», tal como a questão foi realmente tratada nas Universidades Norte-Americana, só os Franceses saberiam, porém, «elevar» uma questão «eminentemente técnica» a uma questão de dimensão verdadeiramente «universal», i.e., transformando a questão numa questão eminentemente Política.

Estava salva a honra do Convento.

E assim sendo, então também livre trânsito era igualmente concedido para se enveredar pelas mais eruditas discussões sobre saber, por exemplo, se a Contestação constituía ou não constituía uma verdadeira Revolução, sobre o nascimento eventual de um novo poder real dos «Estudantes» e que poder era esse, para além de múltiplos outros temas, entre os quais, naturalmente, o da «legitimidade da violência», sempre tão próprio e do agrado da Esquerda.

Sobre a «legitimidade da violência» as dúvidas não eram muitas e o consenso afigurava-se mesmo plenamente estabelecido, já sobre saber se a Contestação constituía ou não, o se poderia conduzir, a uma verdadeira Revolução, as posições dividiam-se mais.

Edgar Morin, por exemplo, era peremptório: «numa Revolução dão-se, em média, cerca de 50 mortes por fim-de-semana. De Maio a Junho não houve mais do que 5 (cinco) mortes» _ logo, conclui-se, não se trata, não se tratou, de uma Revolução.

De facto, não há nada como a Ciência da Contabilidade para desfazer dúvidas: contar cadáveres é objectivo, rigoroso, já pensar ideias é muito abstruso, muito duvidoso.

Uns patuscos.

De qualquer modo, a dita Esquerda não gostou do Maio de 68, menosprezando tudo como cousa muito pequeno-burguesa, individualista _ quem sabe se não mesmo com alguns perigosos laivos tendencialmente mesmo mais liberais.

Não que não houvesse justas reivindicações.

Ainda em Nanterre, Daniel Cohn-Bendit, Maoista, que viria a transformar-se na figura de proa do Movimento _ e hoje um muito digno, respeitado e ilustre Deputado Europeu _ exigia, por exemplo, entre outras questões de capital importância, a «livre circulação e visita das raparigas aos dormitórios dos rapazes».

Percebe-se a relevância de tal reivindicação.

A Esquerda, porém, nunca gostando do que inteiramente não controla, já plenamente instalada, enraizada mesmo, na Universidade afastou-se do Movimento _ como se afastaram os principais Partidos Políticos da Esquerda e até os Sindicatos e principais Centrais Sindicais.

Por essa altura, a Esquerda Universitária também descobria Gramsci e, nada dizendo de novo, de interessante ou significativo, era uma desculpa e uma justificação perfeita para continuarem a fazer o que já faziam: «transformar o mundo» ex-cathedra no doce remanso dos Salões Universitários.

Talvez importe não esquecer também a preponderante importância que o Estruturalismo, tipicamente de Esquerda, começava a ter e a assumir, por esse tempo, nos meios universitários e, como agora se diz, na «sociedade» em geral.

Com a aura de «cientificidade» que a modernidade sempre gosta de ostentar, uma vez toda a teoria partir, supostamente, da «lógica dos conjuntos», a tese essencial é simples: todos os organismos, como toda as organizações, têm sempre uma «estrutura» subjacente _ a não ser assim, mais não se trataria senão do puramente «inorgânico».

Assim sendo, o que age são as «Estruturas» e a «individualidade», e «liberdade», não passam de ilusão porquanto o que pensa no homem não é senão a «língua» como verdadeira «estrutura» do pensamento e levará Lacan a afirmar tanto, a «língua pensa-nos», como «o que em nós pensa é a língua».

Interessante como toda a «modernidade» sempre tem uma quase patológica constante obsessão na destruição do indivíduo, da individualidade _ para não ficar senão, talvez, o sossego do «colectivo».

Nesse sentido, mas não por acaso, um dos primeiros e mais visíveis resultados de Maio de 68 foi, assim estava tudo mais calmo, a introdução da cadeira de «Linguística» em Nanterre.

Compreende-se: «quem domina a palavra domina a luz; quem domina a luz domina os homens; quem domina os homens domina o mundo».

Nada de novo.

Porém, a mais importante e decisiva tese, e de como mais imediatas e devastadores consequências, foi, como se sabe, a solene proclamação da  «perfeita igualdade de todas as culturas», como defendido por Lévi-Strauss, Etnólogo, não putativo mas manifesto Pai do próprio Estruturalismo, base, desde então para os constantes ataques às bases da Civilização e ao Mundo Ocidental, permitindo, inclusive, alguém defender ser o «canibalismo» uma «cultura» persistente lá na sua terra _ e como «culturas» e gostos gastronómicos não se discutem…

Seja como for, a tese, independentemente de todos os possíveis erros, excessos e mesmo abusos cometidos por homens supostos civilizados, representantes da Civilização, não deixaria de conduzir, por um desmedido unilateralismo de perspectiva, não só a uma certa má consciência do homem branco em relação a todas as culturas, incluindo as  culturas indígenas, apenas porque indígenas, assim como, mais tarde, a uma espécie insanável e muito freudiano sentimento de culpa e, mais gravemente, por compensação e suposto acto de contrição, ao puro ódio à Civilização, tal como hoje vemos surgir e manifestar-se um pouco por todo a parte, naquela espécie de cacofónica dança pós-moderna tão característica da actualidade.

Embora, pelo absurdo de algumas teses, o Estruturalismo tenha sido tido por muitos como relativamente inócuo, as suas consequências estão longe de o ser.

Negando o pensamento, o que o Estruturalismo estava a negar também, ou mesmo a repudiar, era a Filosofia, a base da Civilização.

Uma vez repudiada a Filosofia, logo igualmente impossível se torna «Pensar a Justiça», ou seja, o Direito, entretanto descido a mera Sociologia _ essa falsa ciência erigida com o intuito de conduzir os homens ao ateísmo, ou seja, à servidão.

Descer o Direito a mera Sociologia mais não significa senão reduzir o Direito a um mera Moral e assim deixar o mundo, pela «perfeita igualdade de todas as culturas», à mercê da «arte retórica» de todos os pantomineiros que sempre pelo mundo, com perfeita inconsciência, sempre alegremente pululam.

Maio de 68 marcou o Mundo, como Woodstock, no ano seguinte, em diferente plano, não deixaria de marcar também.

Hoje, a primeira e mais imediata memória de Woodstock será a de ter sido um Festival de Música que correspondeu ao esplendor do movimento «hippie», de uma celebração de comunhão com a Natureza  e eventual  tentativa de recuperação impossível de uma perdida inocência edénica, onde o espectro da contestação anti-Vietname não deixou nunca de também pairar, fosse na expressão mais crua e militante de uns Country Joe & the Fish,  fosse  numa expressão mais poética e subtil, mas não menos veemente, de uns Crosby, Stills, Nash & Young.

Percebe-se.

A contestação à Guerra do Vietname, uma ferida que nunca não deixou, como ainda hoje não deixa, de perturbar profundamente os Norte-Americanos, estava no seu auge e era, sem a mínima dúvida, a questão decisiva, dominando de tal modo e tão avassaladoramente tudo que, fosse a referência tão só implícita, tão só genérica, como até mesmo mais simplesmente abstracta, era sempre o fantasma do Vietname que ecoava e estava presente, o que, perfeitamente compreensível em determinadas circunstâncias, não deixava de se afigurar nitidamente rebuscado em muitas outras, sobretudo quando a  referência histórica explícita era mesmo, inclusive, distinta.

Ainda assim, compreende-se: o Vietname era mesmo uma das mais, senão mesmo a mais, decisiva das decisivas questões da época, só encontrando talvez paralelo na questão dos Direitos Civis, embora, neste caso, sempre algo visto também como um tão insustentável e incompreensível quanto anacrónica idiossincrasia americana, não deixando, nesse particular, de chocar igualmente o mundo o assassinato, em 1968, de Martin Luther King, uma figura que viria a encontrar apenas paralelo, décadas depois, num Nelson Mandela que conseguiu proceder, como todos sabem, igualmente sob inspiração da própria figura de Martin Luther King, à transição pacífica do Regime de Apartheid da África do Sul para um Regime Livre e de igualdade racial.

Para os Europeus, embora em condições completamente distintas e quase sem paralelo, o que se passava nos Estados Unidos em termos de Direitos Civis era realmente incompreensível, tanto mais quanto, para além de se verem figuras desde um Louis Amstrong e um Otis Redding até uma Nina Simone a serem tão universalmente admiradas e aclamadas, com toda a justiça, como também sempre foi reconhecido e celebrado ao longo dos anos, era realmente à anterior geração de figuras cimeiras dos Blues e Rhythm & Blues norte-americanos que as novas gerações deviam, essencialmente, o melhor da sua formação musical e, por consequência, também, em grande parte, da sua própria atitude de vida.

Situação realmente paradoxal, realmente, mas, entretanto, a década encaminhava-se rapidamente para o seu termo e muito, quase tudo, iria, uma vez mais, mudar.

Se Woodstock simbolizou, e simboliza, o culminar de uma época, o culminar da «Geração de 60», não deixou de ficar também, um tanto paradoxalmente, como o prenúncio do fim dessa mesma época, dessa mesma Geração.

Compreensivelmente, para falarmos com franqueza, até pela idade, como não será difícil de depreender, não assistimos a todos esses anos senão de longe, de muito longe, sem directo testemunho.

Mais do que isso, quanto à questão musical propriamente dita, de formação musical, ou de formação do gosto musical, leitmotiv de quanto aqui escrevemos e de quanto aqui nos ocupa, para dizer a verdade, para além da Sandie Shaw (por ter actuado descalça no Euro Festival) e do nosso grande Eduardo Nascimento, a nossa memória é, de facto, bastante vaga.

Nesses anos, a nossa preocupação, a nossa obsessiva preocupação, era mesmo a de agarrarmos o futuro (pelos cornos, como diríamos agora recorrendo a mais rigorosa expressão do nosso melhor vernáculo), numa permanente inquietude e ânsia de vermos as horas correrem para, inevitavelmente, atingirmos a maioridade, sermos, finalmente, Livres _ afinal, a única e verdadeira grande ambição de toda a vida.

Chegavam os 70…

Jimi Hendrix e Janis Joplin que inauguravam a maldição dos 27, a que se seguiria, pouco tempo depois, Jim Morrison, em Paris, ficavam também a simbolizar, de algum modo, essa mesma «Geração de Woodstock» perdida.

Havia realmente um Mundo que se esgotava, que desaparecia…

Janis Joplin, imortalizada também por Leonard Cohen no assombroso Chelsea Hotel #2 e que, nada percebendo nós de música, e, por consequência, hesitando e incapazes de recomendar qualquer versão como referência, se o original, se a tão inesperada quanto tão igualmente surpreendente versão de Lana Del Rey a solo, ou da mesma a duo com a descendência, ou, até para tudo conjugar, da mesma com o próprio, por aqui nos ficamos nesse particular, pode ser realmente vista como o símbolo desse Mundo que desaparecia _ como John Lennon não deixaria, logo em 1970, de anunciar e devidamente proclamar.

Muitas as encruzilhadas dos mundos

O que ficava dos 60?

O poder da imagem _ o poder da imagem mesmo sobre a palavra, não deixando sequer de se afirmar valer «uma imagem mil palavras»;

O poder da tecnologia _ autonomizada já da Ciência, de toda a Ciência;

O poder da Comunicação (global) _ tudo o que se comunica é real, todo o real é comunicável, só o que se comunica é real;

O poder do espectáculo _ o poder do Poder como espectáculo;

Como ficou o culto da Juventude e, com o culto da Juventude, o culto do sentimento e, com o culto do sentimento, o primado absoluto da vontade e da acção sobre o pensamento;

Como ficou, um tanto paradoxalmente, o culto da liberdade, o culto da individualidade, como o culto da espontaneidade, o culto da Natureza e uma certa permanente «revolta contra o mundo moderno» e contra o «homem unidimensional».

Na verdade, tudo, ou quase tudo, quanto temos por muito moderno na actualidade, do Ambientalismo à cultura New Age, encontra as suas raízes nos Anos 60.

Com certeza, tais mudanças não ocorrem, como não ocorreram, de um dia para o outro, da noite para o dia.

Durante algum tempo, ainda se tentou preservar algum do espírito de 60 mas os tempos eram já realmente outros e mesmo quando se procurava avançar mantendo a ligação às raízes, era visível algo ter nitidamente mudado, algo estar a mudar e haver outra geração a despontar já, com diferentes inquietações, com diferentes preocupações _ como alguém diria, «The Show Must Go On», mas nunca seria mais exactamente o mesmo.

(CONTINUA)



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