Gonçalo Magalhães Collaço e Sardinha Monteiro fizeram intervenções na Universidade Sénior do Seixal sobre a importância do mar para Portugal e as possibilidades de desenvolvimento de uma consequente economia do mar.
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O oficial da Marinha e ex-Comandante da Sagres, Sardinha Monteiro, e o Director do Jornal da Economia do Mar, Gonçalo Magalhães Collaço, foram os oradores convidados para duas palestras na Universidade Sénior do Seixal (UNISSEIXAL), onde abordaram os temas do valor económico do mar e do papel deste jornal na divulgação da importância do mar para Portugal, respectivamente.

As intervenções enquadraram-se na disciplina de Economia e Finanças da instituição, leccionada em regime de voluntariado por Luís Lapa, Capitão-de-fragata reformado (na reserva), que foi o moderador das intervenções, assistidas por uma audiência participativa.

 

Um jornal, um projecto

Na sua intervenção, Gonçalo Magalhães Collaço considerou que os portugueses têm pouca consciência de si como Nação Marítima, até porque “tem faltado a transmissão de tradições de geração para geração”, algo que as “gerações mais antigas têm sabedoria e maturidade para poder fazer” relativamente às mais novas.

Manifestou igualmente a opinião de que “nos encontramos hoje relativamente desligados dos assuntos do mar e que, ou temos perfeitamente consciência disso, ou corremos o risco de nos tornarmos irrelevantes como Nação”, sendo exactamente para tentar dar  maior consciência disso aos Portugueses que nasceu e foi lançado o projecto do Jornal da Economia do Mar, a cumprir agora três anos de vida.

Para sustentar o papel que no seu entendimento o mar pode desempenhar no destino do país, tal como já desempenhou no passado, o Director do Jornal da Economia do Mar lembrou, entre outros aspectos, a proposta de extensão dos limites da plataforma continental portuguesa ser discutida em breve será nas Nações Unidas. Processo que, embora longo, não deixará de transformar Portugal na 11ª nação do mundo com maior área marítima sob jurisdição nacional, com tudo quanto tal implica quer em termos de importância geoestratégica quanto de recursos naturais.

Todavia, o Director do Jornal da Economia do Mar não deixou de acentuar igualmente os desafios a que Portugal está sujeito, desde a questão dos muitos Cruzeiros Científicos realizados em águas sob jurisdição nacional sem qualquer supervisão, como o facto de o Tratado de Lisboa ter retirado às respectivas nações a gestão da coluna de água da própria ZEE, sem escândalo nacional, bem como outros desafios que não se deixarão de colocar em termos de defesa e segurança, para os quais nos temos de preparar devidamente.

 

O valor económico do mar

 

Sardinha Monteiro dedicou a sua intervenção à demonstração da importância económica do mar no futuro da Humanidade e começou por divulgar dados de 2010 apresentados por um estudo da OCDE de 2016, de acordo com os quais o valor económico do mar, à escala mundial, é de 1,5 biliões de dólares. Paralelamente, o estudo revela que, à escala global, o mar representa 31 milhões de empregos directos e 2,5% do Valor Acrescentado Bruto (VAB). Disse ainda que segundo a OCDE, em 2030, o mar valerá 3,5 biliões de dólares, correspondentes a 5% do VAB mundial e a 40 milhões de empregos directos.

Ao analisar a economia do mar, o orador destacou três grandes tópicos: recursos piscícolas, transporte marítimo e recursos energéticos. A que acrescentou os usos emergentes (energia das ondas e marés, aproveitamento de recursos minerais e a biotecnologia azul).

No plano dos recursos piscícolas, Sardinha Monteiro apresentou dados de 2014, segundo os quais este segmento da economia do mar representava então, à escala global, uma produção de 167,2 milhões de toneladas. O mesmo ano em que a produção em aquacultura ultrapassou, pela primeira vez, a captura de pescado. Segundo o orador, o consumo de pescado tem crescido mais do que a população e nesse contexto, a aquacultura tem crescido particularmente. No início deste século, chegou a crescer 10% ao ano, segundo Sardinha Monteiro. Hoje, cresce a uma média estiada de 3% ao ano, prevista até 2025.

Relativamente ao transporte marítimo, o ex-comandante da Sagres referiu que actualmente cerca de 90 mil navios transportam anualmente 10 mil milhões de toneladas de mercadoria, correspondentes a 90% do comércio mundial e a 2/3 do petróleo extraído em todo o mundo.

Nesse contexto, Portugal assume um papel relevante, decorrente da sua localização geográfica face às principais rotas de navegação, num momento em que estas se ajustam à duplicação de vias no Canal do Suez (2015), ao alargamento do Canal do Panamá (2016) e aos efeitos do degelo na chamada Passagem do Nordeste (que encurta distâncias). E num momento em que o próprio transporte marítimo revela um crescimento (9,7% entre 2017 e 2019 e 4% estimados desde 2019 e até 2040).

Quanto ao aproveitamento dos recursos energéticos em alto mar, ou offshore, Sardinha Monteiro optou por distingui-los entre combustíveis fósseis (gás natural e petróleo) e energia eólica.

Neste momento, segundo o orador, cresce a extracção de petróleo e gás natural em águas profundas. O primeiro, corresponde a 37% de todo o petróleo extraído mundialmente; o segundo, a 28% de todo o gás natural produzido no mundo. Sendo que o mar alberga 37% das reservas petrolíferas marinhas identificadas e que se prevê um aumento de 3,5% ao ano na extracção de petróleo offshore até 2030.

Já a energia eólica offshore tem conhecido uma aproximação de custos face à sua produção em terra, designadamente no Mar do Norte. Sardinha Monteiro recordou que, segundo a União Europeia, esta indústria foi a que mais cresceu na Europa desde 2007. E tem uma previsão de crescimento de 28% ao ano até 2020, ano em que esse ritmo deverá abrandar.

Finalmente, o oficial da Marinha recordou que entre os novos usos, vão existindo diversos projectos. No caso da energia das ondas e das marés, existem protótipos, alguns até testados em Portugal, e que há perspectivas de investimento nessa área, mas é uma área com um grau de desenvolvimento incipiente. Quanto aos recursos minerais, Sardinha Monteiro admitiu que a mineração marinha tem avançado com dificuldade, especialmente devido à natureza da actividade e aos seus impactos ambientais. A biotecnologia azul, por seu lado, vale 4,6 mil milhões de dólares, segundo a OCDE, e é particularmente interessante para a indústria farmacêutica, mas não só, concluiu o orador.



Um comentário em “Economia do Mar na Universidade Sénior do Seixal”

  1. Universidade Sénior do Seixal diz:

    Gostei imenso das vossas intervenções.
    Não é um tema novo para mim, pois o professor já tem levado vários palestrantes que abordam este tema.
    Muito obrigada pelo interesse demonstrado por temas tão polémicos como este.

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