O setor da Náutica de Recreio e o exemplo da Marina de Vilamoura

Embora com menor expressão do que outros sectores da Economia do Mar em Portugal, casos da construção e reparação naval, os transportes marítimos, a actividade portuária, etc., a náutica de recreio compreende ainda assim cerca de 12.900 espaços de amarração em marinas e portos de recreio distribuídos pelo Continente, Açores e Madeira, estimando-se para os próximos anos um aumento expressivo da procura externa, a par da estabilização, ou mesmo um ligeiro aumento, da procura interna, o que tenderá, por sua vez, a induzir um aumento da correspondente oferta. Dito de outra forma, o futuro do sector afigura-se promissor.

Apresentado muitas vezes como integrando o sector dos desportos marítimos e do turismo costeiro, há, contudo, um largo conjunto de outros sectores e subsectores dependentes da actividade da náutica de recreio, para além de um significativo número de postos de trabalho.

É o caso da gestão de marinas, os clubes e escolas de vela, a comercialização, manutenção e reparação de embarcações, os fabricantes e revendedores de aprestos náuticos, as velarias, cujos materiais, em muitos casos, são hoje verdadeira tecnologia de ponta, os motores marítimos, os instrumentos electrónicos, as cartas náuticas, a decoração e a carpintaria dos interiores das embarcações, diversos moldes plásticos, etc. Todos estes equipamentos e/ou materiais são produzidos, ou podem vir a ser produzidos, em Portugal e não apenas para o mercado nacional, mas também para o mercado externo com elevada incorporação tecnológica nacional, conferindo-lhe ao sector uma vertente exportadora de elevado valor-acrescentado, cada vez mais relevante.

A questão que se coloca é, por isso, a de saber se o pais está a ganhar tudo que pode com este sector da actividade económica para o qual temos indiscutível potencial, não só no Continente mas também nas Regiões Autónomas.

Cumpre-nos, por isso, recordar que perfaz agora cinco anos desde que foi publicado o relatório do Grupo de Trabalho da Náutica de Recreio do Fórum Permanente para os Assuntos do Mar, sob o título “Náutica de Recreio em Portugal – Um Pilar do Desenvolvimento Local e da Economia do Mar”, no qual foi evidenciada a escassez de infraestruturas na costa portuguesa, para além de outros aspectos que têm condicionado o desenvolvimento do sector.

É hoje cada vez mais claro que esta situação é em boa parte explicada pela inexistência de um Plano Nacional de Dinamização e Desenvolvimento da Náutica de Recreio, no quadro mais geral da implementação da Estratégia Nacional para o Mar, a corporizar por um organismo, público ou privado, com vocação para o efeito.

O mesmo relatório referia que a oferta nacional de espaços de amarração “é ainda relativamente limitada”, mas considerava que existia “um apreciável potencial de crescimento”.

Por outro lado, a atribuição, novamente, à Marina de Vilamoura, do prémio “International Marina of Distinction” pela The Yacht Harbour Association mostra que, de facto, Portugal tem do melhor neste setor – exemplo que é preciso replicar ao longo de toda costa continental e das Regiões Autónomas, fazendo do país um destino internacional de náutica de recreio de relevante interesse económico, à semelhança do que já hoje se verifica com o golfe.

O referido relatório salientava ainda a necessidade de fazer mais e melhor para trazer ao país um maior número de nautas estrangeiros. É preciso aumentar o seu período de permanência nas nossas marinas, pelo que temos de melhor entender as razões pelas quais um grande número de embarcações de recreio que passam ao largo da costa portuguesa vindas do Norte da Europa a caminho do Mediterrâneo, de Madeira, das Canárias ou das Caraíbas não utilizam as nossas marinas e portos de recreio.

Importa, por isso, (re)analisar os bloqueios referidos para que possam ser encontradas medidas correctivas que possam contribuir para alterar o atual paradigma e em que todos os parceiros, particularmente o Turismo de Portugal, têm uma importante palavra a dizer.

A maior parte das questões suscitadas e das meritórias propostas apresentadas pelo Grupo de Trabalho do Fórum Permanente para os Assuntos do Mar ainda estão para resolver, ou por aplicar, muitas das quais ao nível da regulação do sector, tanto ao nível da legislação aplicável como da burocracia associada, as quais são claramente da responsabilidade do Governo, mas há diversas melhorias que podem ser implementadas e contribuir para o desenvolvimento do setor, tirando partido do exemplo da Marina de Vilamoura.

É preciso perspectivar as marinas de Portugal no seu conjunto; a concorrência não é tanto entre elas como para outros destinos. Será muito mais eficaz projetar Portugal como um destino de náutica de recreio, não para uma ou outra marina isoladamente. Mas, para isso, todas têm de melhorar, para não estragar a imagem da totalidade. Assim, quando a maré sobe, terá de ser para todas (as marinas) e para todo o setor de náutica de recreio e os sectores que dele dependem em Portugal.



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