Nos tempos actuais, ou seja, num ciclo de preponderante sentimentalismo como o que vivemos, todo o diálogo, qualquer diálogo, sobretudo em temas tão controversos como o da eventual exploração de hidrocarbonetos em Portugal, tornam-se desde logo não apenas difíceis mas quase mesmo impossíveis.
ENI
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Um diálogo, qualquer diálogo, só é possível quando as partes, todas as partes, estão dispostas a aceitarem poderem estar erradas ou, pelo menos, a considerarem outras perspectivas não tidas anteriormente inteiramente em conta.

No caso em apreço, ou seja, na questão da eventual exploração de hidrocarboneto em Portugal, percebe-se porque esse diálogo é difícil.

De facto, quando uma das partes se coloca, antes de mais, não numa posição de ver o mundo tal como ele é mas como entende que deveria ser, e deveria sê-lo já, partindo assim de uma posição que poderemos designar como eminentemente ética, bem como perfilhando, ainda por cima, uma visão essencialmente misantrópica do mundo, muito própria de uma certa corrente de pensamento, se assim se pode dizer, que se tem vindo a afirmar de modo triunfante no Ocidente ao longo dos últimos, muitos, decénios, as possibilidades de um verdadeiro são, evidentemente, particamente nulas, tanto mais quanto, em tal enquadramento, tornando igualmente impossível estabelecer quaisquer pressupostos comuns, tudo o mais, pouco mais será senão uma sucessão de equívocos em que a partes, ao inverso de procurarem uma possível convergência, só tendem a afastar-se progressivamente mais, até à mais perfeita das dissonâncias ou mesmo irredutível confronto.

Como todos sabemos, o mundo não é a preto e branco e quanto importa em todos os momentos é, avaliando, tanto quanto possível, na sua mais vasta amplitude, as repercussões de uma decisão, tentar seguir o caminho que, no cômputo geral, maximize as respectivas virtudes e minimize os consequentes aspectos negativos ou mesmo malefícios, entendendo sempre, naturalmente também, que estes não podem superar os primeiros.

No caso da Exploração de Hidrocarbonetos na Era da Transição Energética, o diálogo que importa estabelecer coloca-se, desde logo e acima de tudo, no plano do interesse nacional, ou seja, no plano da sua contribuição para uma reafirmação de verdadeira soberania, real independência e efectiva autonomia estratégica.

Admitindo, por hipótese, que esse contributo seja nulo, a questão estaria concomitantemente resolvida por si, como é evidente, mas, admitindo também a possibilidade de uma resposta positiva, i.e., de esse mesmo contributo poder ser relevante para uma reafirmação de verdadeira soberania, real independência e efectiva autonomia estratégica em termos nacionais, nessa circunstância importará então avaliar igualmente os seus eventuais aspectos negativos e riscos.

Admitindo, por hipótese, como anteriormente, a inexistência de quaisquer aspectos negativos ou eventuais riscos, a questão estaria também resolvida por si, como é evidente, mas sendo não menos evidente, no presente caso, a existência de potenciais aspectos negativos e eventuais riscos, importa perceber igualmente não apenas as possíveis forma de mitigação dos mesmos aspectos negativos e potenciais riscos como avaliar eventuais possíveis alternativas, existindo.

No presente caso, a questão coloca-se, evidentemente, em relação às energias alternativas ou renováveis, como as eólias, terrestres ou marinhas, energia fotovoltaica, das ondas, das marés, ou mais tradicionalmente, hídrica, entre algumas outras igualmente possíveis mas estados de desenvolvimento muito inicial. Mas serão, desde já, realmente alternativa?

Admitindo, por hipótese, uma vez mais ainda, como anteriormente, constituírem uma possível efectiva alternativa, a questão estaria, uma vez mais também, resolvida por si, mas não se constituindo ainda como verdadeira alternativa, como não menos se sabe, voltamos de algum modo ao início, avaliando quais os riscos ou os sacrifícios que estamos verdadeiramente dispostos a correr e a enfrentar, ou seja, simplificando um pouco mas não excessivamente, que riscos estamos dispostos a correr em nome uma reafirmação de verdadeira soberania, real independência e efectiva autonomia estratégica, ou quais os sacrifícios que estamos dispostos a realizar em nome de um determinado conceito de ética ambiental.

Podemos dizer que, de uma perspectiva democrática, ser aceitável qualquer que seja a decisão, o que não é aceitável, nunca será aceitável, é não sabermos, não termos plena consciência, ou pior ainda, fingir não ter esse conhecimento nem essa consciência, de todas as respectivas consequências e repercussões, tanto quanto é possível prospectivá-las hoje.

E por tudo isso também a importância do Seminário exactamente dedicado ao tema da Exploração de Hidrocarbonetos numa Era de Transição Energética, a ocorrer no Auditório da Casa das Histórias, no Museu Paula Rego, em Cascais, no próximo dia 27.

A não faltar, evidentemente.



Um comentário em “Diálogo sobre a Exploração de Hidrocarbonetos”

  1. Alexandre diz:

    Excelente iniciativa. Seguramente lá estarei para ouvir e dar o meu contributo para este debate apaixonante.

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