O mar e o futuro

Todos sabemos que, entre nações civilizadas, as tradicionais guerras militares se transformaram, no Séc. XXI, eminentemente em guerras económicas.

Todos sabemos que no Séc. XXI as questões cruciais que se colocam primordialmente à humanidade respeitam à disponibilidade de Água Potável, à Alimentação, à Energia e às Matérias-Primas em fase de exaustão em terra.

Todas sabemos como as possíveis soluções para cada um desses primordiais problemas que hoje preocupam a humanidade, virão, com fortíssima probabilidade senão mesmo com quase absoluta certeza, não de terra mas do mar.

Se pensarmos na Água Potável, bastará olhar para o Médio-Oriente e os conflitos gerados pela sua falta, ou para a África Subsariana e percebermos como só Angola e Moçambique são superavitários nesse recurso, afinal, escassíssimo, para compreendermos o potencial de conflito passível de ser resolvido, por exemplo, através da dessalinização.

Se pensarmos na Alimentação, mesmo sem recordar Malthus mas não deixando de ter em atenção o explosivo crescimento demográfico mundial, bastará olhar, por exemplo, para as compras de terrenos férteis em África protagonizadas pela China ou Arábia Saudita, entre outros, para compreendermos o que começa a passar-se e algumas tendências de futuro, sendo uma possível solução a aquacultura e a extracção de novos elementos marinhos, entre os quais, as já nossas famosas algas, ainda por cima, com múltiplas outras aplicações.

Se pensarmos na Energia, reconhecendo o acerto da famosa frase do célebre Sheik Árabe segundo o qual a era do petróleo irá terminar como terminou a era da pedra lascada, mas reconhecendo também a insustentabilidade da prossecução desta era de petróleo por toda a poluição causada, entre outros aspectos nefastos, das eólicas em mar aberto à energia das ondas e das marés, até à futura exploração dos hidratos de metano, além de outros eventuais recursos que não somos, hoje, capazes de imaginar sequer, é ainda do mar que as soluções, com fortíssima probabilidade, senão mesmo, uma vez mais, quase absoluta certeza, poderão vir.

Se pensarmos nas matérias-primas e na exaustão de muitas delas em terra, bastará olhar, talvez, para o caso mais crítico e emblemático das terras-raras, indispensáveis ao funcionamento de quase todos os mais avançados equipamentos electrónicos da actualidade e hoje um quase monopólio da China, para percebermos a importância de se encontrar uma alternativa à sua exploração, uma vez afigurar-se difícil imaginar a descoberta ou desenvolvimento de um seu sucedâneo, para compreendermos como a solução, uma vez mais, residirá no mar dado sabermos também da fortíssima probabilidade, senão mesmo quase absoluta certeza, da sua existência no nosso solo e subsolo marinhos, em condições e quantidades exploráveis.

Por tudo isso importa saber olhar para o mar.

Por tudo isso importa saber olhar para o mar e pensar, raciocinar, elaborar a consequente estratégia e agir, conduzindo o pensamento ao acto.

Por tudo isso tão importante foi a presença de uma nova geração de empresas portuguesas de biorecursos na V Conferência Biomarine, ilustrando e afirmando decisivamente a atitude indispensável a quem quer e sabe pensar, mentalmente antecipando, o futuro.

Por tudo isso importa igualmente saber olhar para a Noruega.

O paralelismo entre a Noruega do Século XXI e Portugal do Século XV é extraordinário, tão extraordinário como extraordinário parecer haver quem não dê por isso. O que fez a grandeza de Portugal no Século XV não foi a Índia, foi a inteligência de tudo quanto se fez para lá chegar. O que faz a grandeza da Noruega no Século XXI não é o petróleo é a inteligência de tudo quanto souberam e sabem fazer para o capitalizar e irem além disso.

Não tem o governo português uma clara acção em relação ao mar?

Não, não tem, mas não é grave. Grave seria não termos empresas com a adequada visão do mar. Ainda são poucas? Possivelmente. Ainda não são suficientes? Eventualmente, mas nessas é que reside a nossa esperança, toda a nossa esperança. E boas razões temos para termos esperança ao olharmos para a Biomarine, como razões temos ao olharmos para a nossa robótica e um pouco para tudo quanto aqui sempre procuramos dar nota. E estamos certos de nunca nos virmos a desiludir, como alguém diria, «Se o mar fez Portugal, foi Portugal que deu ao mar a dimensão que hoje tem».



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«Foi Portugal que deu ao Mar a dimensão que tem hoje.»
António E. Cançado
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