O Mar e as Metamorfoses do Amor
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As metamorfoses do amor que têm o mar como impulso poético ou como cenário são vários. Podem contar-se treze essas cambiantes do amor considerando os poemas aqui mencionados: Amor na raiz poética; amor desejo; amor livre; amor eterno; amor fénix; amor nocturno; amor incompleto; amor felicidade; amor como radicalidade de vida e morte; amor aprisionado;  amor saudade; amor indiviso; amor em provação.

O acesso ao universo amoroso a partir dos elementos marítimos não resulta somente na exaltação amorosa propiciada directamente pelo visível, posto que os poetas também respondem pelo sofrimento da distância do objecto amado, pela sua perda ou por outros nexos em que o amor se propõe. O mar não só permite a reflexão acerca do amor nas propostas estéticas líricas, mas também propicia a emergência do próprio sujeito artístico, a sua apercepção de sujeito para recriação na profunda e misteriosa realidade da dimensão artística. Nesta apercepção de si do sujeito poético como vaso de recriação cultural, ponderada no cenário marítimo, urge amor na própria raiz poética:

(…) ao som do mar, dou-lhes [aos poetas] a boca

da Amada à espera da metamorfose (…)

Fiama Hasse Pais Brandão (Relógio d’Água, 1995)

 

Outrossim, o amor é eternizado quer pelo uso do pretérito perfeito quer num constante e prospectivo desejo nunca satisfeito, surgindo à consciência inquieto e nunca aprumado, fonte de ilusão, enganos e desgraça, tanto embebido de entusiasmos, como em mágoas e tristezas, pois também em forma de pesar e sacrifício se manifesta o amor. 

Os fenómenos marítimos instam, sobretudo pela fruição estética visível, à produção descritiva da exaltação amorosa. O mar, despertando com intensidade e abundância a fruição estética é capaz de induzir manifestações que exibem os modos do objecto desejado, exaltando-o e tornando presente a sua beleza:

Foi no mar que aprendi o gosto da forma bela
Ao olhar sem fim o sucessivo
Inchar e desabar da vaga
A bela curva luzidia do seu dorso
O longo espraiar das mãos de espuma
(…)
Sophia de Mello Breyner Andresen (Caminho, 2010-1997)

 

O gosto da forma, o sucessivo inchar e desabar da vaga, a bela curva, o longo espraiar das mãos, a Amada à espera da metamorfose, são expressões do universo amoroso pelos quais os poetas, suscitados pelas formas visíveis do mar se introduzem plenos de entusiasmo. Estas sugestões directas ao objecto amado na aparência do mar são dinâmicas artísticas transfiguradoras que sobressaem também do manancial visível dos modos marítimos:

 Onde – ondas – mais belos cavalos

Do que estes ondas que vós sois?

Onde mais bela curva do pescoço

Onde mais bela crina sacudida

Ou impetuoso arfar no mar imenso

Onde tão ébrio amor em vasta praia?

Sophia Mello Breyner Andersen, Caminho, 2011 (1989)

 

Se da visibilidade do cenário marítimo pode levantar-se o entusiasmo amoroso disposto no presente, já a sonoridade marítima verte acontecimentos passados, permitindo vislumbrar um amor eternizado pelo pretérito ou memória de um desejo que permanece, mas que a musa dispõe já completamente inacessível à sua reapresentação actual:

Versos de amor, búzios do coração.

Ressoam – mas a onda que passou.

Sons da recordação

Eternizam apenas a emoção

Que a Musa ciumenta estrangulou.(…)

Miguel Torga (Dom Quixote, 2007)

 

Há também outro tipo de amor, aberto ao grande vento e ao largo mar onde considera-se o livre desejo aberto utopicamente na amplitude da praia, plena de doce piedade. Uma praia cujos braços são os cabos que abraçam as ninfas, oferecendo sobre as vagas suas nítidas formas amorosas. O poeta, na mesma fonte estética marítima, a visibilidade, encontra-se numa abertura que surpreendeu e suspendeu amor (…) [como] livre jogo:

Minha praia ardorosa e solitária

aberta ao grande vento e ao largo mar

tu me viste querer-lhe com a doce

piedade das sombras do luar

 

teus cabos se adiantam como braços

para abraçar as ninfas receosas

que fugindo oferecem sobre as vagas

suas nítidas formas amorosas

 

braços paralisados por desejo

que o mundo e sua lei não permitiu

ou suspendeu amor que livre jogo

maior que posse em fugaz tempo viu

 

e como vós me alongo e como tu

areia me ofereço a toda a sorte

por sua liberdade ou por destino

que por só dela seja belo e forte.

 

Agostinho da Silva (Ulmeiro, 1997 4ªed -1989)

 

Este amor, que a posse apenas em fugaz tempo viu, conduziu o sujeito poético a alongar-se à emulação: como vós me alongo e como tu / areia me ofereço a toda a sorte. Trata-se agora, já não um amor eternizado na memória, um desejo que as musas fixam preteritamente, nem é objectivação do desejo presente, mas o suscitar de uma certa liberdade, individual e sem limites mundanos, que florescere amorosa. Este amor te como resultado um humano mais belo e forte, porque, segundo o poeta, manifesta-se numa liberdade primeira, primitiva, mais próxima da espontaneidade da natureza e de utopia que sempre acompanha esta perspectiva.

A nossa condição não dispensa a ilusão, companheira inseparável, falsa mas amparo da fragilidade e da insignificância do indivíduo. Na galera da ausência uma ilusão enfuna e enxuga a vela, e uma desilusão a rasga e molha. Porém, renovado feitiço nasce ao final de uma desgraça, e amor renasce como fénix:

       Água, sal e vontade – a vida!

      Azul – a cor do céu e da inocência.

      Um lenço a colorir a despedida

      Da galera da ausência…(…)

 

      Uma ilusão enfuna e enxuga a vela,

      Uma desilusão a rasga e molha;

      Morta a magia que pintava a tela,

      O mesmo olhar de há pouco já não olha.

 

      Na órbita vazia um cego ouriço

      Pica o silêncio leve que perpassa…

      Pica o novo feitiço

      Que nasce do final de uma desgraça.(…)

Miguel Torga (Tip. Gráf. de Coimbra, 1978-1946)

 

Também o amor, relativo às coisas do mar, apresenta-se metamorfoseado com modo nocturno e segredado. Apresenta-se aqui num dizer íntimo e longo, isto é, sem tempo cronológico, apenas como acontecimento intersubjectivo, sendo e dizendo-se  nas maravilhas do verbo navegar, do mar e suas ilhas. Nesta voz íntima, segredada, este amor bonançoso, de tempo doce, na sua misteriosa coisa amar exprime também como dói desembarcar em ilhas misteriosas. Ilhas  – inesperadas dores do verbo amar –, os desconhecidos e dolorosos obstáculos que surgem no amar, análogos aos obstáculos que no navegar sucedem. Todavia, sem olvidar as dificuldades de amar, é no decurso de um brando amar-navegar que o nocturno amor se apresenta:

 

(…) Contar-te o amor ardente

e as ilhas que só há no verbo amar.

Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.

Contar-te longamente as misteriosas

maravilhas do verbo navegar.

E mar. Amar: as coisas perigosas.

 

Contar-te longamente que já foi

num tempo doce coisa amar. E mar.

Contar-te longamente como dói

desembarcar nas ilhas misteriosas.

Contar-te o mar ardente e o verbo amar.

E longamente as coisas perigosas.

Manuel Alegre (Dom Quixote, 1989-1976)

 

De outro modo temos o amor incompleto e é ainda o mar quem convoca a imaginação poética para este novo aspecto. A esperança, que vem vestida de luz – como aurora que desponta – está cercada de escuridão. Assim, o amor-aurora requerendo toda a luz não pode exprimir-se plenamente. A aurora de amor sobre o mar, despertada ao final da noite, revela um amor que não verte ainda luz por inteiro. Esta esperança e aurora luminosa, que constituí dos mais altos benefícios humanos, encontra-se diminuída pelas sombras que sempre habitam a incompletude da alma humana e suas incoerências práticas, seja ela disto consciente ou insciente. O grande mar do tormento antigo representa uma memória delimitada de receios, que impedem o encontro do amor presente em plenitude. Assim, nesta luz e nesta escuridão vinda do mar, em tormentoso mal sobrevive o amor, se chega a viver, com o véu negro da desconfiança e com as ilusões que fraca luz despendem. Neste poema do ‘Soropita’ o mar é cenário do amor aprisionado, incapaz de romper as malhas da exiguidade humana:

 

Do grande mar do meu tormento antigo,

Como aurora d’amor sai a esperança,

Vestida já da luz que de si lança

O sol que eu sempre temo e sempre sigo.

 

Ao seu aparecer foge o perigo;

Aonde quer que a claridade alcança,

Rompe o véu negro da desconfiança

Que juntamente aprovo e contradigo.

 

Mas o secreto d’alma, inda toldado

Das nuvens negras com que antigamente

Acercou por mil partes meu cuidado,

 

Se a luz de tanta glória inda não sente,

São efeitos cruéis do mal passado

Que lhe não deixam ver o bem presente.

Fernão Rodrigues Lobo ‘Soropita’

(Campo das Letras, 2007- Typ.Lusitana, 1868)

 

De diferente matiz, sempre com o mar em cenário, o amor apresenta-se em nova metamorfose. Esta outra objectivação em que o amor existe encontra-se na experiência pessoal tal quanto no colectivo histórico, pois há uma situação existencial portuguesa é comum a todos e transversal às várias épocas. Está registado no cancioneiro galaico-português, na dor da despedida dos marinheiros e de seus familiares, especialmente desde o século XV, nas despedidas e chegadas dos bacalhoeiros, nas despedidas e chegadas dos soldados, nas despedidas e chegadas dos emigrantes. Acontece nesta situação de despedida um rompimento de alma que nela se vinca pelo abismo que é a distância em que é disposta o amado e o receio de o perder. No cancioneiro galaico-português registam-se alguns poemas reveladores do mar como veículo desta rutura de alma. A donzela, símbolo da vida anímica, ansiosa e solitária, sabe que morrer ou encontrar o amado são as únicas curas possíveis para seu mal. O amor exige estes extremos de nossas faculdades, claro ou escurecido, morte ou felicidade, e, se a distância é anteposta à proximidade, converte-se assim a mais escorreita em fraca criatura:

 Quand’eu sobi nas torres sôbe’lo mar

e vi onde soía a bafordar

o meu amig’, amigas, tam gram pesar

houv’eu entom por ele no coraçom,

quand’eu vi estes outros per i andar,

que a morrer houvera por el entom.(…)

Gonçalo Anes do Vinhal

 

Nesta poesia que segue, a donzela vendo vir as barcas no mar foi esperá-las para ver se nelas vinha o amigo. Quase desespera de ansiedade, pois o amor contém a radicalidade da morte, ou vida plena e amor ou morte:

 Vi eu, mia madr’, andar

as barcas eno mar,

e moiro-me d’amor.

Nuno Fernandes Torneol

 

O que se representa na alma lírica é radical como a morte. O amor, como a morte, abre o sujeito além dos limites da experiência normativa. Assim, o amor é também como o espraiar da imensidade marítima, semelhante à imaginada morte, um espraiar imenso além da fronteira humana a que místicos, artistas ou profanos se entregam consoante sua consciente experiência:

(…) respirando devagar

depois do amor meu amor

eu quero morrer no mar.

António Lobo Antunes (D.Quixote, 2002)

 

O cuidado ao amor de quem ama deve ser em proximidade, não cabendo elaborar justificações para uma glória que o coloca à distância, descuidando-o (Lusíadas, IV, 90-104). Antes da fala do velho do Restelo dizia a mãe envelhecida:

«(…) Ó filho, a quem eu tinha
Só para refrigério, e doce amparo

Desta cansada já velhice minha,
(…) Por que me deixas, mísera e mesquinha?
Por que de mim te vás, ó filho caro
(…)»

Lusíadas, IV, 90

Dizia a esposa:

« (…) Ó doce e amado esposo,
Sem quem não quis Amor que viver possa,
Por que is aventurar ao mar iroso
Essa vida que é minha, e não é vossa?
Como por um caminho duvidoso
Vos esquece a afeição tão doce nossa?
Nosso amor, nosso vão contentamento
Quereis que com as velas leve o vento?
»

Lusíadas, IV, 91
Mas um idoso que estava na praia entre estas pessoas, sobre estas lágrimas meneando três vezes a cabeça, descontente detes desamores declama, referindo-se à procura de glória e riqueza:

(…) Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
(…)

Lusíadas, IV, 95

 

A explicação que o idoso oferece para descrever a nossa condição é bem conhecida: O que nos afasta do solo pátrio e do amor é o fraudulento gosto das ambições, é o buscar o reconhecimento pessoal sobressaído da comunidade primitiva, pelo enriquecimento, mando, fama, glória ou honras. Somando à dura inquietação d’alma e da vida (IV, 96) para os que nas despedidas partem, na incerteza da chegada, encontra-se a alma presa a um rodízio de justificações que, nelas fazendo confiança a atém, seja pela vontade de mobilidade social seja pelo compromisso de um cumprimento estratégico português transcendente ao indivíduo, mas em ambas situações sacrificando o amor deixando-o a esperar, adiando seus esplendores para outros dias, de glória, quiçá de pranto. Segundo o dizer do Velho do Restelo, a fantasia tem poder para afastar os amantes. Porém, esta procura do extraordinário não poderá ser também uma espécie de amor que permite aos indivíduos transcenderem-se? Não há para o idoso alguma vida que, sendo extraordinária, mereça o risco da aventura que distancia os objectos amados? É com a visão pessimista, de sermos geral e facilmente seduzidos a destinos fantasiosos que o velho do Restelo remata sua fala: Mísera sorte! Estranha condição!

A consciência transformada pelo distanciamento do amado toma o estado das lágrimas, da tristeza e da saudade, relatado em prosa poética por João de Barros na primeira das Décadas, 1552, relativamente aos que ficam na praia. Deste lado: (…) foi tanta a lágrima de todos que neste dia tomou aquela praia posse das muitas nela se derramam na partida das armadas que cada ano vão a estas partes que Vasco da Gama ia descobrir; donde com razão lhe podemos chamar praia de lágrimas pera os que vão e terra de prazer aos que veem. Do outro lado, e por outro autor, em 1571, representa-se a fala dos marinheiros que  refletem sua condição e suas dores de amor: (…) em altas vozes e os olhos cheios de lagrimas pedião a Deos, que tão perigosa navegação lhes fosse a todos próspera e boa; e que tendo dado bom acabamento a aquelle feito, voltassem todos à Patria com salvamento; e já mesmo entre muitos se levantara tal pranto e taes lamentos, que disseras os levarão ao moimento [à prostração], prorompendo nestas lagrimas: «Ah miseros mortaes, onde nos arrojou tal ambição e tal cobiça! (…) Tão longos e desmesurados mares tem de perpassar, tão desapiedadas montanhas de ondas, que tem de atravessar, e os riscos que em tantas paragens lhes estão a vida ameaçando! Não lhes fora mais comportavel acaballos com qualquer feição de morte, que lançallos em tal desvio da Patria n’huma campa de salgadas ondas.»

Porém, em outra feição, diferente e contrária, teremos de referir aqui as heroínas portuguesas do tempo dos descobrimentos que acompanharam seus amados esposos na aventura, nas dificuldades e nos perigos extremos da guerra. Na época de quatrocentos e quinhentos, mas também aquando da emigração nos anos cinquenta e sessenta do século XX. Aqui os amantes nunca foram distanciados dos amados e plenamente aceitaram partilhar seus destinos de aventura em conjunto. Aqui amor se não põe em espera de outra condição e não se alonga de seu amado. Trata-se de um amor radicalmente indiviso.

Com diferente experiência apresenta Camões uma outra tese acerca do amor. Toma para isto Temistócles, almirante grego vencedor de Salamina que depois veio a ser estratego dos Persas, responde ao poeta grego Simónides: Não, não prefere toda a memória de sua vida, que este lhe poderia ensinar a obter, mas apenas aquilo que dela servirá o ensino para ser homem. Sobretudo interessa referenciar a memória daquilo que lhe alterou a percepção do que mais importa, a fundamentação e revalorização da vida própria humana. A tese de que as dificuldades constituem a prova dos homens também é relativa ao amor. Servem as dificuldades se lhes dermos sentido como provas para altear as virtudes e o amor que temos. Apesar de ter de suportar vãs esperanças e duros trabalhos, as saudades da pátria, ter de enfrentar a sua morte iminente e as efetivas mortes de seus companheiros, propõe Temióscles a única experiência que merece ser viva e perene lembrança, afastando o intento de Simónides que era dar-lhe toda a memória da vida ou o pessimismo pela aventura no velho do Restelo. Declama então por Temióscles deste modo:

 

 

(…) Se o sentido

em puro amor tivestes, e inda agora

da memória o não tendes esquecido; (…)

nunca houve cousa que mudasse

o firme Amor do intrínseco daquele

em cujo peito ûa vez de siso entrasse.

Ûa cousa, Senhor, por certo assele:

que nunca Amor se afina nem se apura,

enquanto está presente a causa dele. (…)



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