O mar, Elemental criatura, da era dos Gigantes anterior aos deuses e, com o elemental Céu, primeiro dueto simultâneo da criação na narração judaico-cristã, é primevo de toda outra Existência.

(…) nem deuses nem monstros nem tiranos

te puderam deter a mim os oceanos. (…)

Manuel Alegre «Regresso» in O Canto e as Armas,

Lisboa, Dom Quixote, 2000 (1970)

O mar, Elemental criatura, da era dos Gigantes anterior aos deuses e, com o elemental  Céu, primeiro dueto simultâneo da criação na narração judaico-cristã, é primevo de toda outra Existência. Anterior à interrogação filosófica «Porquê a Existência?» formulada pela língua humana, de quando não foi ainda necessária tal interrogação, enquanto Mar e Céu existem e entre eles mora e perpassa o Espírito. Neste profundíssimo cenário, mítico, no sentido de nos permitir entrar numa história antes de nossa mesma existencialidade pela criação literária, que nos transporta num plano ascencional, vertical, que não meramente vivido na sequencialidade histórica e cíclica da vivência humana. Neste profundíssimo cenário literário, dizia-se, onde as temporalidades não têm lugar, acedemos agora ao modo de ser desta matéria elemental, o mar, onde somos nós os portugueses, pela nossa criação literária em poesia e pelo seu acolhimento a nós com nossa prima arte de marinha e ciência oceânica e de rosto geográfico virado ao mar e a ocidente, ele é também o nosso silêncio, imenso de horizontes interiores e exteriores, ou tropel agressivo ou o dorso que nos deu, proporcionando também a visão de nossa mesma condição humana nas correrias com ele, e em prazeres e glórias que ainda hoje nos propicia. Nele fomos e vamos e iremos, sempre:

(…) cometendo os duros medos

Do mar incerto, tímidos e ledos (…)

Por tão longos trabalhos e acidentes (…)

Camões, Lusíadas, IX, 1572

            O mar, pleno de expetativas e tragédias é, por sua natureza e nosso requisito mesmo, de nós tão longínquo e próximo, tão intrinseca determinação em nós e tão longínquo desta era humana:

(…) Um mar longínquo e próximo humedece

Teus lábios onde, mais que em ti, descoras…

E, alada, leve, sobre a dor que choras,

Sem qu’rer saber de ti a tarde desce… (…)

Fernando Pessoa, «Passos da Cruz. Catorze Sonetos» (excerto), in Luiz Fagundes Duarte, Fernando Pessoa, 

Poemas Publicados em Vida, I, Dispersos, INCM, pág.30

            Nessa frialdade de Elemento perante nossa condição que de complexidade de elementos e sopros somos síntese, apenas pelo aspeto literário mostra a enorme distância existencial perante nosso modo, mortais e timoratos.

            O sentido que o Gigante oferece, permitindo em seu dorso nosso cavalgar, guardámos e guardamos como coisa nossa um abrigo, no pórtico adentro de nós. E, quando finalmente tudo nos falece, lá está ele no fundo abrigo de meu e seu pórtico, finalmente lá está ele: invade-nos unindo-se-nos, fechando-nos os olhos da vida de trânsito pasmoso. Quem nos invade na morte portugueses, é o mar:

(…) Tudo perde o sentido com que o abrigo em meu pórtico

E o mar entra por os Teus olhos o pórtico cessando… (…)

Fernando Pessoa, «A casa branca nau preta» (excerto)

in Luiz Fagundes Duarte, Fernando Pessoa,

Poemas Publicados em Vida, I, Dispersos, INCM, pág.38

            Se Neptuno,  deus dos mares, não tem mão neste Gigante Elemento, e este nos legou as correrias Oceânicas em seu dorso, em (…) recurvadas quilhas/ (…) aguda proa, os mastros, as antenas,/ As concavas cavernas/ E os voadores linhos! Pois os navios que fazemos percorrer em seu dorso, ainda vão hoje pelo saber de Pedro Nunes e Zacouto entre muitos outros.

            O mal-estar do jovem Garrett em sua viagem por mar, durante apenas um mês, ainda assim lhe proporcionou avaliar quanto de ousadia e quanto de ponderoso saber e cumplicidade entre nós e o Oceano existe.          É claro para o jovem Garrett que muito pouco zeloso de seu reino anda Neptuno, o (…) rei das encrespadas ondas, porque na soledade infinda, entre céu e mar, a um jovem nauseado e enfastiado, faltou contemplar o meio em que ia, por tão antigo como intemporal e profundo cenário. Ainda não entendera que aquela solidão, aquele sofrimento, era dele, projetados e partilhados com o mar. Todavia, é a sua mesma condição de frágil e de mortal que lhe é desvelada, o que é a iniciação vívida de um acordar para as interrogações filosóficas:

(…) Como na fantasia tresloucada

O fado avesso e mau

Dos miseros humanos

Soube pintar-lhe as recurvadas quilhas,

A aguda proa, os mastros, as antenas,

As concavas cavernas

E os voadores linhos!

E tu, padre Neptuno, nem ao menos

Lhe soubeste c’o madido tridente

Pregar uma fisgada?

  Tam a salvo o deixaste

Levar ao cabo a desvairada emprêsa,

Que a pouco e pouco de teu vasto imperio

Ousada os mais escuros

Foi a pesquisar recantos?

O teu velho Protheu nos seus cantares

Nao te soube avisar que um dia um Vasco

(…)  [A]s magas cyphras combinando um Nunes,

Ao Universo admirado mostraria

O pasmoso instrumento?

Mui desleixado andaste,

E muito pouco zeloso de teu reino,

Neptuno, rei das encrespadas ondas.

Ah! se mais justiçoso

Houveras castigado

O quebrador primeiro de teus foros;

Se as marulhosas vagas sacudindo,

E o vendaval ruidoso

 Soprando das procelas

Tiveras sua audacia sepultado

No insondavel abysmo d’essas aguas,

     Nao viera eu mesquinho

Nao vieramos tantos

Pagar por ele agora, e sem remedio

Soffrer balanços, amargar enjoos,

Sêdes curtir ardentes,

Rapar canninas fomes;

Ver so entermeiar consigo e a morte

Fragil taboinha, que o bater das ondas

Póde num so momento

Fazer em mil pedaços!

Ai de mim! Trinta vezes no horizonte

O pae das luzes despontou radioso,

E co’a tocha brilhante

A meus cançados olhos

Nada mais amostrou que o quadro imenso

De soledade infinda, – os ceus e os máres!

Almeida Garrett «Longa Viagem de Mar» (excerto)

in Lyrica de João Minimo, 1821

Houvesse então Garrett assistido às ferozes batalhas dos Elementos, onde Contra a Furia do mar em vam combate, com os ventos e o raios do Céu,e já o Gigante adquire outro aspeto, o de revelador de um Desordenado Inferno que sobrevive a nossas expetativas e ordens de cognitivos andaimes:

(…) Contra a Furia do mar em vam combate;

Foge-lhe a terra, o Cèu desaparece,

Hũa onda o levanta, & outra o desce. (…)

Como em fera batalha (…)

O mar com o Ceo, o Ceo com o mar involvem. (…)

Oppoem Gigantes mares de insolentes

Contra mil rayos, montes sobre montes (…)

Os que erão dilatados Orizontes:

Quanto permitte ver tão grã tormenta

Desordenado Inferno representa.

Brás Garcia Mascarenhas Viriato Trágico (excerto), 1698

E, por causa destas batalhas entre os Elementos com o invicto mar, de que é testemunha o Poeta de Avis, Brás Garcia Mascarenhas, que regressou de um naufrágio, no mar tam sem caminho, representam essas batalhas uma conjugação desveladora entre o humano embarcado entregue ao dorso do Gigante, manobrando. Mas também se vislumbra que é o Gigante que nos leva com grande querer e autoridade, e, nós nele montamos como se monta um leão com cauda de dragão e asas de horizonte. Quão pouco a firmeza, vontade, desejo, esperança e forças que haviam em terra, importam no mar…

(…) Me reprezenta a ventura

Quam pouco contra ella monta

Firmeza, vontade e fé,

Desejo, esperança, e forças.

Por hum mar tam sem caminho,

Morada tam perigoza(…)

Francisco Rodrigues Lobo, Primavera (excerto), 1619

E nós na coragem e fraqueza de frágeis, que são dados ser ao mesmo tempo, em seu hórrido clamor nos turbamos:

(…) Turba-se o vasto oceano,
Com hórrido clamor;
Dos vagalhões nas ribas
Expira o vão furor,
(…) o estourar da vaga,
Na praia, que revolve,
Na rocha, onde se esmaga (…)

Alexandre Herculano, «A Voz» in A Harpa do Crente (1838),

Mem Martins, Europa-América, 1986

Mesmo quando está o Gigante embrenhado em suas próprias e perpétuas guerras, e de nós por força se esquece, também é assim por vezes o estado de nosso psíquico, turbado,  vitoriosos ou trágicos, somos nós quem somos nele:

Em pedaços a fazem [os ventos a grande vela], com um ruído

Que o mundo pareceu ser destruído.

O céu fere com gritos nisto a gente,

Com súbito temor e desacordo,

Que, no romper da vela, a nau pendente

Toma grã suma d’água pelo bordo:

Três marinheiros, duros e forçosos,

A menear o leme não bastaram;

Talhas lhe punham duma e doutra parte,

Sem aproveitar dos homens força e arte.

Os ventos eram tais, que não puderam

Mostrar mais força do ímpeto cruel,

Se para derribar então vieram

A fortíssima torre de Babel.

Nos altíssimos mares, que cresceram,

A pequena grandura dum batel

Mostra a possante nau, que move espanto,

Vendo que se sustém nas ondas tanto. (…)

Agora sobre as nuvens os subiam

As ondas de Netuno furibundo;

Agora a ver parece que desciam

As íntimas entranhas do Profundo. (…)

Camões, Lusíadas, VI, 1572

            Três marinheiros, duros e forçosos não bastam, mesmo aparelhando duas talhas que apõem ao leme duma e doutra parte. Não se aproveita do homem agora nem força nem arte. Sobre as nuvens os marinheiros subiram e às íntimas entranhas do Profundo desciam. Aguentam e esperam deslumbradamente temerosos com as chicoteadas embarcações pela ira do Gigante. Mas nesse ronco que estrondea também na praia solidária, ela permanece, não fosse ela a beijada e a revolvida pelo mar e para sempre… Ela, a praia, e eles, os três marinheiros ao leme, enquanto duram esses combates, permanecem, remanescendo-lhes a solidão infinita, absortos, enquanto range a embarcação, chicoteados com a deusa quase morta, praia de libertação:

Rangem os barcos na sombra,

como portas mal fechadas,

noite adiante quebradas

no segredo que as deslumbra.

Rangem os barcos, e o vento,

com sua voz incompleta,

a chicoteá-los, inquieta,

o corpo todo sangrento

da praia que de longe, absorta,

já se não move – mas grita,

na solidão infinita

de uma deusa quase morta

David Mourão Ferreira «Nocturno numa Praia de Inverno» in Tempestade de Verão,

Lisboa, Guimarães Editora, 1960

Enquanto continua o Gigante em suas contínuas batalhas com os outros Elementos, aí em seu dorso furioso mais ardem os desejos, as ilusões, os fulgores que douram as trevas:

(…) o mar bramindo, o céu troando  

Teu ímpeto ameaçam:

Ardem-te na alma os sôfregos desejos.

Fulgurante ilusão, dourando as trevas (…)

Manuel Maria Barbosa du Bocage «Cantata de Hero a Leandro» (excerto)

in Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas, Braga, Mocho, 1979

E enquanto isto, se o espaço se bifurca/ em siderais paisagens e profundos abismos, e se o caos [na subjetividade ganha lugar e] se revela um outro mar maior povoado de nadas e infinitas cores (…)? Aí começam as visões as visões interiores caóticas e sem padrão:

(…) se o mar acaba o espaço se bifurca

em siderais paisagens e profundos abismos

entre macro galáxias e micro sensações

em frágeis borboletas e estranhos atractores

onde o caos se revela um outro mar maior

povoado de nadas e infinitas cores

……………………………………………………………..

onde esse mar acaba / começam as visões

Maria da Saudade Cortesão «Praia-Mundo» (excerto)

in Onde o mar acaba: antologia de poesia e prosa sobre as descobertas,

Dom Quixote, Lisboa, 1991

Aí, nesta disposição, em reviravoltas no caos, tão somente com micro-sensações, como se fossemos não nascidos ou apenas conscientes adentro de um seio materno, ou, como ignaros e impotentes perante os poderes Elementais, aí ao nosso encontro vêm os mortos vindo, na companhia de sua mesma solidão. Solidão de morte. Porém, a morte, a certa, quando é aproximado de nós o existencial final, ainda é uma onda onde irmos. Subindo e recuando, naquela disposição do espírito/ que faz de ver inteligência e estado. Todas as ilusões são pois possíveis ao que nos pode fazer de ver… Mas é a ondeação quem respira ao fundo do nosso sangue/ (…) na cicatriz [que se abre] do seu fulgor sagrado:

Se ao nosso encontro vêm os mortos vindo,

(e mesmo alguns já estão ao lado)

é porque a morte é uma onda onde irmos

subindo às vezes, outras recuando,

aponta aquela disposição do espírito

que faz de ver inteligência e estado.

Por isso é doce a ondeação.

Por isso respira ao fundo do nosso sangue o branco

desgarramento que traz o paraíso

na cicatriz do seu fulgor sagrado.

Fernando Echevarría «Se ao nosso encontro

vêem os mortos vindo» in Sobre os Mortos,

Porto, Afrontamento, 1991.

Assim, certamente, quando

(…) morrerá um poeta

nas ruas de Lisboa.

(…) alguém lhe fechará

os olhos

que ele desejava

abertos

sobre o mar.

Y. K. Centeno «Nas ruas de Lisboa» in Canções do Rio Profundo, Porto, Asa, 2002

…Bem morreria se no mar acontecesse esta tragédia humana, certeza tão nossa, pois afinal não está ele no nosso sangue e ondulação vital? Quando a vida meneando se for em

(…) Lençóis de algas e peixes

de barcos a menear

no dia em que tu me deixes

eu quero morrer no mar. (…)

António Lobo Antunes «Eu Quero Morrer no Mar» (excerto)

in Letrinhas de Cantigas, Lisboa, D.Quixote,  2002

E vivificados e confundidos nele poeticamente, nos

(…) seus confins submersos,

onde à vontade me enamorava da beleza,

em companhia de sereias e tritões,

tão enamorados da terra,

como eu do mundo líquido. (…)

Edmundo de Bettencourt «As meninas velhas» (excerto) in Rede Invisível, Lisboa, Assírio & Alvim, 1999  (1930-1933)

Desde a orla onde a viagem começa, tudo começa intacto. Imersos extaticamente no sagrado, [n]um centro com o mar em horizonte em profundidade e transparência. [Onde o] céu cego de luz bebia o ângulo do seu vôo/ (…) a forma necessárias das conchas/ (…) [o] desabar ininterruptamente a arquitetura das ondas. De olhos abertos na transparência das águas se reconhece a anémona a rocha o búzio a medusa e na pedra o eixo reto para a construção do possível:

Desde a orla do mar

Onde tudo começou intacto no primeiro dia de mim

Desde a orla do mar

Onde vi na areia as pegadas triangulares das gaivotas

Enquanto o céu cego de luz bebia o ângulo do seu vôo

Onde amei com êxtase a cor o peso e a forma necessárias das conchas

Onde vi desabar ininterruptamente a arquitetura das ondas

E nadei de olhos abertos na transparência das águas

Para reconhecer a anémona a rocha o búzio a medusa

Para fundas o sal e na pedra o eixo recto

Da construção possível

(…) Desde a sombra do bosque desde a orla do mar

Caminhei para Delphos

Porque acreditei que o mundo era sagrado

E tinha um centro

Que duas águias definem no bronze de um voo imóvel e pesado

Sophia Mello Breyner Andresen «DELPHICA IV» in Dual,

Lisboa, Caminho, 2011 (1972)

Tudo está entre nós e o mar. Na onda da morte e na onda de vida:

(…) Vem até mim, onda que trazes vida!
Soro da redenção!
Vem como o sangue doutra mãe pedida
Na hora de dar mundo ao coração!

Miguel Torga, Odes, Coimbra, Tip. Gráf. de Coimbra, 1978 (1946)

E eu, nesta medida com os Poetas:

Prestes, larguei a vela

E disse adeus ao cais, à paz tolhida.

Desmedida,

A revolta imensidão

Transforma dia a dia a embarcação

Numa errante e alada sepultura …

Mas corto as ondas sem desanimar.

Em qualquer aventura

O que importa é partir, não é chegar.

Miguel Torga, «Viagem» in Câmara Ardente, Coimbra, Gráf. de Coimbra, 1995 (1962)



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