A Akademik Lomonosov já funcionou, em níveis mínimos, no âmbito das operações de ensaio que decorrem em Murmansk, antes da central ser rebocada para Pevek, na Sibéria, onde funcionará em pleno a partir do próximo ano
Akademik Lomonosov
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Na última semana, a central nuclear flutuante russa Akademik Lomonosov produziu a sua primeira reacção sustentada em cadeia, já no porto de Murmansk (onde estão baseados os quebra-gelos nucleares russos), refere um artigo assinado por Charles Digges, da Fundação Bellona, no Maritime Executive, com base numa informação da agência noticiosa russa RIA Novosti assente em declarações de uma fonte anónima da Rosatom, a empresa pública de energia nuclear da Rússia.

De acordo com o artigo, a fonte da Rosatom terá dito que “o lançamento físico do reactor nuclear a estibordo da central flutuante Akademik Lomonosov correu na Sexta-feira” e “atingiu o grau mínimo de produção energética às 17.58, hora de Moscovo”.

A esta operação vão seguir-se testes ao reactor, segundo a mesma fonte, e um segundo reactor, do lado do porto, atingirá os níveis mínimos de produção energética dentro de dias. Depois dos testes, a central será rebocada pelo Árctico até ao porto oriental de Pevek, na Sibéria, uma cidade de 100 mil habitantes em Chukotka, onde deverá entrar em produção plena no Verão do próximo ano.

De acordo com o artigo, a energia desta central flutuante deverá substituir a energia gerada pela central nuclear de Bilibino, onde se localizam os reactores nucleares comerciais mais a norte e que será desactivada em 2021.

O autor do artigo no Maritime Executive refere também que esta central é uma ambição da Rússia com pelo menos 12 anos para fazer chegar a energia nuclear a regiões remotas, e consiste num projecto que teve altos e baixos, até por razões económicas, e que nunca se livrou da controvérsia por diversos motivos, incluindo algum secretismo em que terá estado envolvido.

Entre as críticas que têm sido feitas ao projecto está a de se tratar de um golpe publicitário da Rússia. Outra envolve acusações de despesismo de um projecto que representou um investimento de 420 milhões de euros da Rosatom e não estará a ter perspectivas de grande retorno.

Todavia, as principais críticas, sem surpresa, serão de carácter ambiental e de segurança. De acordo com tais críticas, citadas pelo autor do artigo, a nova central, precisamente por ser flutuante, será vulnerável a tsunamis e, tratando-se de uma central nuclear próxima de uma localidade habitada, isso comporta um risco sério. O autor lembra mesmo as inesquecíveis imagens do acidente de Fukushima, no Japão, ocorrido há alguns anos.

A Rosatom tem referido frequentemente que a central é invulnerável a tsunamis e que o seu posicionamento flutuante lhe dá um acesso a uma infinita fonte de refrigeração para os reactores nucleares em caso de acidente. A própria Fundação Bellona, uma organização não governamental que trabalha em prol de soluções ambientalmente sustentáveis e contra os efeitos das alterações climáticas, foi convidada em Outubro a visitar a central.

Apesar disso, manteve-se algum cepticismo no seio da Fundação Bellona, designadamente quanto a outra crítica feita ao projecto, que é a da dificuldade de acesso à central precisamente por se situar num local remoto. Tal dificuldade criaria obstáculos a operações de socorro no caso de ser necessário um resgate de pessoas por ocorrência de um eventual acidente, ou no caso de serem necessárias operações de limpeza igualmente decorrentes de um acidente nuclear.

Os ambientalistas têm também mencionado um caso extremo em que a central possa não resistir às ondas e ser atirada contra terra ate se despedaçar junto a edifícios, com dois reactores nucleares, bem longe das fontes de refrigeração. A melhor resposta da Rosatom a esta crítica tem sido a de que existe uma fonte de refrigeração na própria estrutura flutuante que permite um suporte de 24 horas.

A originalidade da ideia de uma central flutuante, apesar dos seus riscos, tem motivado concorrentes. No seu artigo, Charles Digges refere que duas empresas chinesas apoiadas pelo Estado fazem planos para, pelo menos, 20 destas centrais, e que cientistas norte-americanos também já fizeram planos próprios para centrais deste tipo.



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