A luz é feita de cor, e quando ela chegar ampla, ao fundo do fundo dos oceanos, vai ser possível acrescentar mais um azul ao catálogo dos azuis.
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A juntar ao ardósia, ao brasilis, ao cobalto, ao areado, furtivo, cantão, eterno, iznik, água, da Prússia, royal, granito, persa, eclesiástico, puro, jazz, etc, etc.

Eduardo Agualusa, flanêur bantu, escreveu coisas belíssimas sobre o azul e a luz, sobretudo a partir de observações feitas a sul do equador.

Por exemplo, que no Antigo Testamento não se conhecia a cor azul. Julgo que, provavelmente, porque também não se conhecia o Céu.

Na pintura europeia, o mar apenas começou a ser pintado de azul, a partir do século XV. Até aqui, era representado por uma mescla de cores, com predominância para o verde.

O azul chegou até nós, como tantas outras coisas, a partir do oriente.

Foram os pintores afegãos que o criaram, quando moeram o raríssimo lápis-lazuli, obtendo um pigmento forte e luminoso, a que depois os pintores venezianos atribuíram o nome de azul ultramarino.

Durante muito tempo esta foi a cor mais cara, e por isso mesmo uma raridade nos quadros das grandes escolas.

E também considerada a mais bela. E sinceramente, não vejo qualquer razão para ter deixado de o ser.

Azul vem de lazúli, que veio do latim, que veio do árabe, do persa, e do sâncristo, numa mistura maviosa de sons e tons.

E se no início não fosse o verbo, mas a cor, tínhamos outro azul: o primitivo.

Pessoalmente acho maravilhosa a evolução do azul, desde a terra, o lápis-lazuli, até ao teto da Capela Sistina, do oriente profundo ao berço da cristandade, onde ali sim, suspenso, já se conhecia perfeitamente o Céu.

Outra coisa que vai ser necessário catalogar, vão ser os minerais arrancados àquela crusta da Terra, adormecida há milhões de anos sob esse imenso mineral liquido que é a água, e que podem adquirir formas tão exóticas quanto a dos seres vivos que habitam a mesma profundidade.

Extraídos de combinações surpreendentes dos elementos da tabela periódica, ou caixa mágica de Dmitri Mendeleev, onde existem respostas que antecedem perguntas.

Depois de a química ser a génese da vida, a mineralogia pode ser o palco da sua representação, porquanto toda a restante ciência, ou melhor, conhecimento, utiliza a solidez da sua existência para procriar e desenvolver.

O darwinismo, que explica a evolução das espécies em função da sua adaptabilidade ao meio, e que parece por isto mesmo mais do reino animal e vegetal, foi arrancar as suas especulações, ao mais sólido terreno que se conhece: a formação das grandes massas continentais.

A paixão pela mineralogia caracterizou o iluminismo, e chegou à transição do século XIX para o XX.

Artistas, filósofos, políticos, cientistas, fizeram da mineralogia a sua paixão.

E os mais afortunados de entre eles, raríssimos eleitos, lograram legar os seus nomes aos minerais que identificaram antes de quaisquer outros.

Um destes, personifica pura e simplesmente a cultura alemã.

Nem mais nem menos do que Goethe. O grande Goethe!

Johann Wolfgang Von Goethe, poeta, romancista, filósofo, estadista, cientista, autor de obras que reconfiguraram a literatura mundial, lidas apaixonadamente de Weimar a Santa Fé de Bogotá e a S.Paulo de Luanda, como Os sofrimentos do Jovem Werther, ou apenas Werther, para aqueles que experimentaram agruras semelhantes, o doutrinador do movimento Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto), o dramaturgo de Fausto, que recupera e trata o problema eterno da venda da alma ao diabo, por troca com a beleza ou a arte, de As Afinidades Eletivas, onde utiliza os seus imensos conhecimentos químicos e mineralógicos, para explicar a atração/repulsão entre os seres através de idênticos fenómenos ocorridos com os elementos, o cronista da maravilhosa Viagem a Itália, sempre este mesmo, deixou-nos também uma bipirâmide ortorrômbica cristalográfica, um óxido de ferro de fórmula FeO (OH) chamada Goethite.

Já a Andradita, qualquer coisa como um silicato, de fórmula Ca3Fe2Si3O12, que cristalograficamente tanto pode aparecer como dodecaedro e trapezoedro, e mais raramente como hexoquetaedro, ficou a dever o seu nome ao grande Bonifácio de Andrada, o Patriarca da Independência do Brasil.   

José Bonifácio de Andrada e Silva, nasceu português em Santos, em 1763, e morreu brasileiro em Niterói, em 1838.

Estudou em S.Paulo, e depois em Coimbra, tanto leis quanto ciência, em ambas as matérias com igual brilhantismo, e depois de ter estado em Paris antes da Revolução

Conheceu particularmente bem as universidades nórdicas, onde se ensinava mineralogia e engenharia de minas, ficando rendido ao ensino de Upsala, na Suécia.

Teria gostado de ficar por estas paragens a estudar os seus amados minerais, se não fosse chamado pelos deveres do Estado ao Brasil, para desempenhar os mais elevados cargos, defendendo o fim da escravatura, e a plena integração dos índios no mosaico da nacionalidade do novíssimo país, sendo ainda tutor do pequeno Pedro de Orleães e Bragança, depois Pedro Segundo, o único monarca das Américas, do Alasca ao Estreito de Magalhães.

Deixar o nome associado a um mineral, constituía a maior glória a que podiam ambicionar aqueles que estudavam as pedras a sério.

Existem casos interessantes no assunto: ambições frustradas, injustiças cometidas, modéstia e oportunismo.

Por uma qualquer razão, a taxidermia dos minerais é bastante simples, quase rústica, sobretudo quando comparada com a luxuriante das plantas, onde a infestante mínima que apareça no nosso jardim, tem um nome latino duas a três vezes maior do que a singela ervinha.

Residiu seguramente nesta característica do catálogo dos minerais, uma das causas do insucesso de uma luminária, que travou uma longa e árdua batalha com as revistas da especialidade, para inscrever um mineral com o seu nome.

E talvez por nunca se esquecer de que provinha de gente que tinha estado em Ourique, Aljubarrota e Alcácer – Quibir, propunha um nome do qual, tal como os ilustres seus, não recuava um palmo.

Gastão Maria Albergaria de Noronha e Proencite.



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