Encerraram-se neste mês de Fevereiro de 2018, mais precisamente no dia dois, com a emissão de um selo alusivo à data, as comemorações dos 125 anos do Porto de Santos, e que já vinham desde o ano transacto, uma vez que o porto foi fundado a dois de Fevereiro de 1892.

A ligação do porto de Santos com S.Paulo (o Estado e a cidade) caracteriza à perfeição um relacionamento de causa/efeito, no sentido de que a grandeza e as agruras de ambos variam de forma proporcional e íntima.

E a razão principal é o café. Oriundo das estepes etiópicas, o café foi introduzido no Brasil em 1727, no Pará, e em perfeita sintonia com mapeamento politico e económico da altura, a sua agricultura foi feita nas regiões mais relevantes do país, ou seja a mancha que centrada no Rio de Janeiro abarcava o Nordeste e Minas Gerais, mas tendo rapidamente evoluído para sul, até Santa Catarina, e para o interior até Goiás, fixando-se com grande sucesso no Rio de Janeiro, cerca de 1760, e com mais sucesso ainda, no oeste paulista um século depois.

Em breve, o extraordinário desenvolvimento da cultura do café, a sua progressiva produtividade e qualidade, e sobretudo a aceitação no mercado mundial do produto, evidenciaram duas coisas: que as terras moderadamente altas do planalto paulista, eram as mais apropriadas ao plantio, e que o porto de Santos, era o melhor posicionado em termos de desanuviamento de cais e de acessibilidades, para escoar o produto.

Assim, embora o café ainda hoje prospere por quase todo o território brasileiro, é no triângulo Minas Gerais/Rio de Janeiro/S.Paulo que ele tem a sua maior incidência, nomeadamente no Rio de Janeiro e S.Paulo, sendo esta última, a maior região produtora do mundo, há muitos anos.

Uma vez fixado nas terras roxas do planalto paulista, o café vai promover e acelerar o desenvolvimento da região, fazendo, na transição do século XIX para o XX, deslocalizar o centro de gravidade do Brasil, do nordeste açucareiro, para o sudeste cafeicultor, em termos económicos, políticos e culturais.

Em termos políticos, o café, e S.Paulo, são responsáveis pelas grandes mudanças operadas naquele período; a substituição da monarquia imperial pela república, e depois a sustentação desta mesma república.

O reinado de D. Pedro II, chega ao fim em 1889, quando o imperador decidiu abolir a escravatura no ano anterior, prejudicando com este gesto, os grandes produtores cafeeiros, que ainda dependiam, mais no Rio do que em S.Paulo, da mão-de-obra escrava, e que por esta razão vão abandonar o monarca à sorte dos militares republicanos positivistas, que em quinze de Novembro daquele ano, implantam a república.

O gesto de abolir aquela chaga infame, é tão mais grandioso quanto D. Pedro sabia perfeitamente que fazê-lo, era perder o poder, mas mesmo assim, fê-lo, colocando os interesses legítimos e a dignidade do Brasil, à frente de quaisquer considerações egoístas e mesquinhas.

Com o imperador, parte para um exílio voluntário na Europa, sobretudo em Paris e Londres, uma grande parte dos maiores cafeicultores, os celebrados barões do Café, porque na realidade tinham sido agraciados em abundância com aquele título pelo monarca, e podemos encontrá-los nas páginas deliciosas que Eça de Queirós nos deixou sobre os seus jantares e serões, na Paris fin-de-siècle, e também na residência do nosso cônsul, em Neuilly, sobretudo os passados com o seu grande amigo Eduardo Prado.

Chegados os novos tempos, com a abolição e a república, S.Paulo, para além de possuir os terrenos mais propícios para a agricultura do café, revela-se melhor adaptado ao momento, sobretudo porque já vinha a introduzir no país e no Estado mão-de-obra livre, da imigração europeia, naquela altura abundante e barata, resultado da vontade de tantos em abandonar um território assolado por fome, perseguições religiosas e politicas, guerras, e epidemias.

Surge o S.Paulo da imigração, como mais ao norte a Nova Iorque, e mais ao sul a Buenos Aires.

Uma vez mais o porto de Santos teve um papel relevante, na importação de energia, pese embora a crueza e incómodo desta expressão aplicada a seres humanos, e na exportação da riqueza produzida pelo contingente de imigrantes, principalmente italianos, que configuraram definitivamente, e até hoje, o carácter da cultura do Estado, e sobretudo da cidade de S.Paulo.

Mas não só, porque a teia de ramais do caminho-de-ferro, implantada para chegar aos apeadeiros que serviam as grandes (algumas do tamanho de nações europeias) fazendas, e daqui, transportarem as sacas de café para o porto, também fez nascer muitas povoações, depois cidades, e hoje metrópoles, ao longo dos ramais ferroviários.

Na segunda grande metamorfose política, que foi a primeira república brasileira, a participação e influência de S.Paulo ainda foi mais relevante.

Depois de um curto período (1889 – 1894) em que a república esteve entregue aos militares fundadores, Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, o regime entrou num longo período de civilismo, a república oligárquica, onde bacharéis e fazendeiros se revezaram e alternaram, naquilo que ficou conhecido como a República Velha, ou como era, e é, comummente conhecida, como República Café com Leite, assim designada porque expressava o pacto de regime que os estados de S.Paulo (produtor de café) e Minas Geraes (produtor de leite) celebraram, e que devido à sua densidade populacional e eleitoral, uma vez ambos colocados em sintonia, conseguiam à vez, e alternadamente, fazer eleger os seus candidatos à presidência.

E mais importante neste período, foi o processo que os governantes paulistas conseguiram implementar, de indexar a moeda e a economia brasileira ao café. Verdadeiramente.

Por meio de um sistema engenhoso, o governo comprometia-se a comprar as safras de café produzido, estocando-as, e introduzindo depois estes estoques no mercado mundial, de forma programada, com o objectivo de controlar os preços, eximindo-se às baixas das cotações e do livre câmbio.

Naturalmente que os cafeicultores paulistas que já eram ricos, ficaram prodigiosamente ricos, enquanto durou semelhante estado de coisas.

Quando os estoques atingiram proporções piramidais (em volume e formato) e surgiu o crash de 1929, o governo brasileiro não teve outra solução se não alimentar os fornos das máquinas das locomotivas, e das caldeiras dos navios, com café às pazadas.

Mas já não ia a tempo, porque no ano seguinte, em 1930, a revolução de Getúlio Vargas, fortemente apoiada pelo Rio Grande do Sul e pelo Rio de Janeiro, e estados do nordeste, acabou com a República Café com Leite.

S.Paulo considerou-se afastado do poder de forma arbitrária, para o que contribuiu bastante o facto de Getúlio ter governado quase sempre em ditadura, e em nome da democracia, empreendeu uma cruzada politica contra quase o restante país, chegando mesmo à luta armada.

S.Paulo apenas regressa ao poder em Janeiro de 1961, de forma espectacular, com uma conjuntura politica toda montada no Estado, por forma a levar Jânio Quadros à presidência, e a este ser o primeiro presidente da república sediada em Brasília.

Jânio demitiria-se oito meses depois, mergulhando o Brasil numa crise, cujos efeitos chegam até à actualidade.

Mas nunca mais S.Paulo, deixou, a par do que acontece no plano económico e cultural,  de ter a primazia dos assunto políticos, com destaque para os dois presidentes que fizeram a transição do século XX para o XXI, Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva, dois paulistas ilustres e legítimos, o primeiro nascido no Rio de Janeiro e o segundo em Pernambuco, aliás a melhor maneira de honrar uma terra feita de gente que vem de fora.

Efectivamente, num país que fica a dever a sua existência ao povoamento estrangeiro, europeus, africanos, árabes, asiáticos, S.Paulo constitui uma síntese perfeita entre os velhos terratenentes, que tentavam ilustrar-se com nomes e passados indígenas, como os Tamoios, ou os Aimorés, e os primeiros bandeirantes a alcançarem o planalto, autodenominando-se em meados do século passado, como quatrocentões, e a vaga de imigrantes, já não africanos, como do Rio de Janeiro para cima, mas europeus.

Outra faceta desta mescla populacional, é o desenvolvimento industrial do Estado, investindo aí os cabedais proporcionados pela cafeicultura, e a que seguramente não foi alheia a forte presença italiana entre a população, com a sua conhecida paixão pelos maquinismos.

Pois o porto de Santos acompanhou de perto toda esta evolução, ao ponto de um dos ex-libris do país, a par de tantos outros que circulam pelo mundo fora, serem as fotografias dos grandes armazéns da zona portuária, com os portões escancarados, de forma a mostrar o seu interior repleto de sacas de sarapilheira cheias de café, e ostentado num grafismo belíssimo, Café do Brasil. E no dia em que as fotografias tiverem cheiro, a fruição destas será inebriante.

À margem dos abrasadores calores, que geralmente são associados ao Brasil, fora da zona tropical por um punhado de minutos, já que o Trópico de Capricórnio separa o Rio de Janeiro de S.Paulo, o Estado usufrui de uma frescura amena, que cai húmida, à altitude da cidade, sob a forma de garoa, e nas fazendas de café, sob a forma de geada, cujo frio é benéfico para a qualidade do café, mas também é prejudicial, quando intensa, ou prolongada.

Assim, a garoa e a geada, dominam o quotidiano dos paulistas, tanto urbanos como rurais, e aquela última, justificou até a resposta de um político, quando questionado sobre a razão porque todos os anos caía geada no café.

Perplexo, e aterrorizado por uma coisa em que nunca tinha pensado, e principalmente pelo óbvio, acabou por ser lapidar e definitivo:

Ué, porque plantam café onde cai geada.



Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

«Foi Portugal que deu ao Mar a dimensão que tem hoje.»
António E. Cançado
«Num sentimento de febre de ser para além doutro Oceano»
Fernando Pessoa
Da minha língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto.
Vergílio Ferreira
Só a alma sabe falar com o mar
Fiama Hasse Pais Brandão
Há mar e mar, há ir e voltar ... e é exactamente no voltar que está o génio.
Paráfrase a Alexandre O’Neill