Um navio. O NRP Polar. 17 tripulantes dos quais dez cadetes. Uma travessia: Funchal – Las Palmas. O objectivo era relatar e aprender e, desta feita, participar na regata oceânica que une nações. Ultrapassou os limites – para o bem e para o mal – a regata épica.
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Dia 1 – Espera-se o vento. Quando vem, espera-se ganhar as batalhas travadas com o estômago

14h30 – porque a pontualidade britânica também é marco da Marinha Portuguesa, o navio está quase pronto para sair da Marina do Funchal. Sempre a rigor: uniforme de vela azul, com o boné e até casacos identificados, com o respectivo EPI (Equipamento Protecção Individual). Os cadetes da Marinha e os oficiais, juntamente com o Sr. Comandante, o capitão-tenente João Neves Simões, preparam-se para partir a bordo do NRP Polar, na terceira e última etapa da Discoveries Race 2019. A partida faz-se tranquila. Às tantas, tranquila demais, falta o essencial: o vento. Disputa renhida entre o NRP Zarco e o NRP Polar, que, lado a lado, estão quase imóveis, enquanto os restantes veleiros seguem quase em linha recta, ao alcance de uma moldura. 

A faina de largada (momento em que todos ocupam os seus postos) dá-se algures pelas 15h. Entre a máxima atenção ao mínimo vento que sopra e o arriar e içar das velas, o serviço não pára no percurso que começa pouco expedito. No entanto, com uma agradável surpresa – um cumprimento, a bombordo, do navio patrulha da marinha portuguesa, NRP Tejo, onde todos param, em sentido, por breves instantes, para cumprir uma tradição. 

16h30, apontando as coordenadas para Las Palmas, ainda que numa calmaria tal que dificulta a navegação no ECDIS (sistema de navegação), que diz quase tudo. Mediante um estudo-caso prévio, este instrumento, que funciona com vectoriais, traça uma rota – a melhor rota tendo em conta as condições. E já a fazer leme, com um rumo de 150/160 graus, há que ter em atenção o tal instrumento. Tudo o que seja desvio do “quadrado” é tempo perdido em Las Palmas. Ainda assim, o imediato afirma que nada é estanque e que qualquer ajuste pode ser repensado.

E, de repente, eis que se sente um sopro. Será hora de faina da vela? Há que preparar para arriar a genoa, que seguia içada devido ao pouco vento, e içar a bujarrona. A vela entrará por estibordo. Estarão preparados para cambar? “Quem estiver disponível diga ao senhor imediato”, refere o sr. comandante. Primeiro a vela grande, desejavelmente as duas ao mesmo tempo. E, por fim, ajustes finais: a vela está cheia? Será que tem muita boca? E uma retranca a meio? Um momento onde também os cadetes podem analisar a situação. O conselho de mestre: “olhem para o mar e vejam de onde vem o vento”, por forma a trabalhar com o pico e com a boca para esticar a vela. 

Todo este processo pareceu fácil e é na verdade trabalhoso. Cada vez que se registava uma faina de vela a bordo, trabalhavam, seguramente, para mais de dez mãos. Neste navio, também ele pesado, tudo é grandioso e trabalhoso. E porque o vento estava a despertar, agora nos 13 nós, as manobras começavam a mudar. Por essa altura, já não se avistava veleiro algum no horizonte. 

E porque o prometido é devido: 19 nós de vento marcavam as 18h21. Última dica: “sensibilidade”. “Fazer leme é o que é preciso”, explica o Sr. comandante, relembrando um ou outro pormenor, já familiares dos cadetes a bordo. A não esquecer estão também os baixios, até porque terá de se passar a três milhas das Selvagens. E assim o NRP Polar já segue esta regata oceânica a seis nós. 

Em raros momentos a nostalgia visita quem segue a bordo com uma banda sonora especial. Há quem cante, há quem apenas se encante. Mas nesses momentos algumas narrativas são inevitáveis, ainda que nada saudosistas – marinheiros e oficiais são bastante pragmáticos, mesmo quando o tal “sabor de sal” os faz passar menos bem. Mar agitado torna-se, por vezes, incompatível com o absoluto bem-estar a bordo, pelo menos para os “mais normais”, concluía-se. A verdade é que o mar também não tem estado fácil e o sentimento de impotência, por vezes, também se apodera dos “homens do mar”. 

É o primeiro anoitecer e o sr. comandante, antes de se retirar, deixa três salvaguardas: no caso de o vento aparente ultrapassar os 20 nós, de se notar alguma alteração de 60/90 graus que implique ajuste de vela ou exista alguma dificuldade de manobrabilidade há que chamá-lo.

Há que relembrar que seguem a bordo três oficiais, um sargento, três praças e dez cadetes. Já dizia a cadete Almeida e com razão – “sai-se deste navio a saber praticamente fazer tudo”. A bordo, por quartos (geralmente de quatro horas, à noite de três horas) todos acabam por fazer um pouco de tudo. Içar, arriar as velas, orçar, arribar, fazer leme, cozinhar ou lavar. O espírito familiar predomina e as tarefas são escopo para criar laços. A tal camaradagem de que falava o tenente-capitão Neves Simões sente-se a bordo. 

As conversas nocturnas prosseguem animadas nos intervalos do leme e nos salpicos da atenção ao mar, que, com lua cheia, se contempla na perfeição. No que à aptidão nadadora concerne, ao que parece, há cadetes que só “nadam bem se estiverem a fugir de um tubarão”. Verdade que não parece assim tão exímia quando se ouvem as histórias de todas as peripécias e exercícios pelos quais já tiveram de passar. 

Dia 2 – Em alto mar também se comemora?

Também no meio do mar se comemora. O segundo dia da terceira etapa da regata é marcado por dois aniversários. A festa é dupla e é mais do que isso. O mar amanheceu enérgico, assim como o vento que chegou à noite para ficar. Condições a postos, tripulação de pé, segue-se a cerca de seis nós. O indicado para chegar no tempo limite. “Tudo o que vier à rede é peixe”, quer seja mais vento, quer seja mais vento e menos ondas. 

O quarto “dos duros”, como se auto-intitularam, segue pela manhã: o sr. engenheiro, tenente Pires, o sargento, mestre Graça, e os cadetes, o Poças e a Almeida da classe de Marinha, e o Figueira, fuzileiro, que, no caso, segue ao leme. Qual Nuno Tristão, Diogo Cão ou Bartolomeu Dias – não foram precisos sequer cinco minutos para uma bela de uma “wake up call”, que se pôde traduzir num gigante banho salgadinho. A vaga galgou o navio e embebeu todos quanto foi possível, inclusivamente este texto. Mas nada como acordar fresquinho. Nas palavras risonhas do “homem do leme”: “era mesmo o que estávamos a precisar”. 

O almoço, bifinhos com arroz, aprontou-se rápido e pela hora habitual, 12h20, alguma tripulação estaria a comer – o quarto dos duros e o quarto que entraria a seguir, ao meio-dia. E nestes instantes o episódio mais caricato, por incrível que possa parecer, é exibido pelas panelas que já volitavam na arrumação que sucedia o almoço. 

Ben Harper também passou a bordo. Mas os cadetes não conhecem. Conhecem outros temas. E só não seguiam a bordo composições de Caccini ou Bartók sob pena de se confundirem com o lindo cantar das sereias, que os marinheiros acreditavam ser as responsáveis pelos tais banhos de mar que por vezes se sentiam. Mas respeita-se a lei da rádio e também música portuguesa passa na “caixinha de música” que já fez mais milhas que muitos navegadores presentes. 

Costuma dizer-se que de médico e de louco todos temos um pouco. Ora teremos também todos uma veia poeta que poderá orçar à jornalística? Quando o tema é a reportagem que desta etapa sairá, há sempre títulos sugestivos. O que têm todos em comum? O mar. Sempre o mar. “Nós e o mar – azul por cima, azul por baixo”, reflecte o sr. comandante, ao contar algumas incríveis peripécias pelas quais já passou em missões. Se dava um livro? Certamente. 

O preparado das oito prometeu. Um prato cor-de-laranja, um pouco indiscritível, mas bastante saboroso e com atum fresquinho. Prato que aconchegou o estômago para o bolinho de chocolate que aí viria. Afinal, e apesar das condições, há que marcar o momento, ainda que de uma forma singela, do aniversário do Mestre Graça e o do Contra-Mestre Fortunato. 

“Fizeram o registo das 22h”? Pergunta um dos cadetes do quarto “dos duros”. Mas duros porquê? Ao que respondem, indagando: “Quem é que está sempre aqui? Quem dá segurança ao navio?”. A verdade é que é um quarto exímio, ou, por outro lado, pouco normal – ninguém “se marea”. 

As lendas são muitas. Mas a verdade, na opinião dos marinheiros, é uma. Alguém que, a dada altura, viajou no mar, quando pisou terra, sentindo-se de tal forma mal, revelou: “Há os vivos, os mortos e os que andam no mar”. A origem de tais palavras ainda é desconhecida, mas a sua sapiência é bem reconhecida. A noite termina com o Poças a ganhar medalha de melhor leme. 

Dia 3 – AS (Alfa Sierra) – Escuto!

As únicas cordas dos marinheiros são a corda do relógio, a corda do sino e acorda para a vida. Este terceiro surge dinâmico, porque logo de manhã se fizeram ajustes de velas. E cada vez mais perto, os cadetes mal podem esperar por ver terra. Já imaginam o que farão, mas principalmente os bares onde comemorarão, até porque há mais um aniversário a bordo dentro de poucas horas, o da Sacramento. 

“NRP Zarco, daqui NRP Polar a chamar, escuto”. Algumas informações são trocadas e esclarecidas, seguidas de uma verdadeira aula de Código Internacional de sinais a bordo, usados para comunicar entre embarcações que não partilhem a mesma língua. As mensagens, ao que parece, incluem más disposições e médicos a bordo. 

São 18h30 e está na hora de preparar o jantar. “sr. Cabo, três ou quatro de massa?”. “Pois, se calhar quatro, o pessoal está todo contente que vai atracar”, responde. Há um turno a preparar o jantar e desta feita saiu massada de peixe, uma pequena delícia, ao que parece, preparada em poucos minutos. 

Também as passagens de turnos são marcadas por “protocolos”. Há que dar um pequeno resumo do sucedido para que os próximos possam prosseguir. “Vento força 4/5, nordeste, ondulação 2,3 metros, o NRP Zarco a 15 graus, não temos terra à vista, avarias desconheço”, entre outras informações. “Posso passar? Posso receber?”. Prossegue-se. 

Também as comemorações do centenário da Batalha de La Lys, travada no Sul da Flandres a 9 de Abril de 1918, foram acto no palco das memórias partilhadas a bordo pelos fuzileiros que participaram nas cerimónias em França. Assim se antevê o peso e, de alguma forma, a responsabilidade que já carregam estes aspirantes pela sua nação. Nesta batalha, considerada o momento mais traumático da acidentada participação portuguesa na Primeira Grande Guerra, os portugueses perderam praticamente metade das suas forças, ficando reduzidos a pouco mais de uma divisão. Talvez seja por isso que, para estes marinheiros, pequenos enredos passem distraídos por entre a força de quem já testemunhou ou testemunhará ainda grandes missões onde cada minuto é diferente e ser e estar ombro a ombro com os companheiros é o que de facto importa. 

E, quase a passar a linha de chegada, os ânimos ao rubro não deixam de serenar para colocar em prática, mais uma vez, tudo o que têm vindo a aprender e preparar o navio para atracar. Chegam no crepúsculo, mas o cenário continua incrível. Avistar terra sabe bem e, entretanto, avista-se igualmente um grande e iluminado navio mercante. A atrapalhar estão umas quantas embarcações pela frente, umas quantas bóias, o costume. Nesta situação, os srs. cadetes têm de ser os olhos do sr. comandante.

Inúmeras considerações. Quando já se avista uma luz ou uma embarcação, passamos pela proa? Há uma luz amarela de cinco em cinco segundos, com alcance de cerca de 4 milhas. Bóia número 33 P. Entre folgar o amantilho, trancar a estibordo, colocar a retranca a meio e tantos outros alinhos, com o auxílio do bote que lançam para o mar, para fazer o reconhecimento do local e do bote do NRP Zarco que prestavelmente veio acolher-nos, o NRP Polar atraca, sem problemas. Agora o NRP Zarco já tem um vizinho: o NRP Polar. No final fomos os últimos, mas porque os últimos são de facto os primeiros, o NRP Polar está de parabéns, não só pelos aniversários que festejou a bordo, mas por mais um punhado de milhas cheio de sorrisos e, acima de tudo, de muita aprendizagem.  

Talvez o ponto final no mar não faça sentido, terminamos com AS (Alfa Sierra) – Escuto. E até às próximas milhas! 

Diarista do Jornal da Economia a bordo do NRP Polar na terceira e última etapa da Discoveries Race 2019. Desde já, um obrigada, do tamanho das 293 milhas que percorremos, à Marinha Portuguesa e, em especial, ao sr. comandante Neves Simões pelo convite para partilhar tais milhas que se transformaram em aventuras – em histórias.



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