Uma reflexão sobre a possível transposição para o estudo da Estratégia e da História Aplicada do designado método da Analogia Histórica para Análise Prospectiva, já consagrado em diferentes ramos de estudo.

RESUMO

O presente estudo visa estabelecer um ramo metodológico de caráter científico: a Analogia Histórica para a Análise Prospetiva. Trata-se de um método que, apesar de já ter sido considerado frutífero, ainda que dispersamente e em diferentes âmbitos, se afirma explicitamente desde 1812, com Shambaugh (1) na área jurídica, até 2017 com Graham Allison, pertencendo esses estudos e aplicações ao âmbito que hoje se afirma de História Aplicada. Nas obras de historiadores e de estrategas, este método, apesar de sua acuidade e eficácia, não foi ainda explicitamente assumido ou estabelecido por reflexão crítica, pois não sofreu ainda considerações gnoseológicas de fundo acerca de sua mesma possibilidade, extensão, limites, regras e princípios. Este estudo procura estabelecer esse método por meio de suas raízes históricas e científicas. Espera-se, pois, que mereça chamadas de atenção, sugestões, correções, enfim, contributos e desenvolvimentos.

INTRODUÇÂO

«Si l’experience leur [les politiciens] est necessaire pour aquerir cette prudence (…), il n’est rien de plus utile à leur instruction que de joindre aux exemples des siécles passez (…).» Jacques-Bénigne Bossuet, Discours sur l’Histoire Universelle, 1681, 7.

«He certo que nem sempre he possível apresezentar a razão humana marchando a passos de gigante para a sua perfeição: mas ainda mesmo que ella progredisse lentamente, ou que retrocedesse, seria hum semelhante conhecimento bem precioso para o Filosofo que investiga as causas dessa retrogradação, e para o homem de Estado que quer conhecer a raiz do mal a fim de dar-lhe remedio: e este remedio he necessario.» Sebastião de Mendo Trigozo, Discurso Histórico Recitado na Sessão Pública de 24 de Junho de 1820, Memórias da Academia das Ciências, Vol 7,  2.

«(…) l’histoire aussi est incomplète si elle n’est pas la fois pure et appliquée.» AAVV, Bulletin de la Société des Professeurs d’Histoire et de Géographie de l’Enseign Publique, novembre, 77, 23 Année, 1933, 307.

«We all (…) need the books that will correct the characteristic mistakes of our own period. And that means the old books. (…) The only palliative is to keep the clean sea breeze of the centuries blowing through our minds, and this can be done only by reading old books. [The] (…) books of the future would be just as good a corrective as the books of the past, but unfortunaly we can not  get at them.» C.S. Lewis, «Introduction», Athanasius: The Incarnation of the Word of God, 1946, 7.

«(…) é um erro ver tudo como conduzindo inexoravelmente – de um modo triunfante ou deprimente – ao presente: é útil procurarmos tendências e direções de evolução, mas devemos igualmente aprender a aceitar o passado nos seus próprios termos, anotando não só as opções bem sucedidos como aquelas que fracassaram.» Asa Briggs, História Social de Inglaterra (1994), Prefácio à 2ª edição, 1998, 12.

«Face a um futuro incerto, é recorrente apelar à História, isto é, ao conhecimento de experiências vivenciadas como guia para vislumbrar algo que nos espera adiante.» Fernando Nogueira da Costa, 13 de março 2013 

«We can no longer have any confidence (…) the march of human freedom is unstopable.» Edward Luce, The Retreat of Western Liberalism, 2017, 9.

O mundo «nunca é apenas o mundo que é mas a antecâmara do mundo possível». Gonçalo Magalhães Collaço, in O Mar. Exaltação de Portugal, Editora Náutica Nacional, 2019, 121.

«(…) socorrendo-nos da nossa experiência e dos ensinamentos da História, procuramos expor o que sobre esta importante questão nos ocorre dizer (…).» Raul Esteves, «O Pacto do Atlântico e a defesa de Portugal», O Comércio do Porto, 29 de Julho 2020.

A retrospetiva e a prospetiva giram em torno de eixos de análise, que terão de ter em comum estruturas de comportamento, apesar de serem várias, e em liberdade humana as estruturas decisórias que se apresentam encontram semelhanças na continuidade histórica (2). Para reconhecer tal série de estruturas semelhantes basta recorrer ao estudo dos processos conflituais nos últimos quinhentos anos pelo Belfar Studies for Science and International Affairs, apresentados numa obra de Graham Alison (2017) acerca dos resultados conflituantes entre potências hegemónicas e potências emergentes, começando por Portugal e Espanha, o que redundou em paz pelo Tratado de Tordesilhas, terminando na prospetiva do potencial trajeto conflitual entre China e EUA. Assim Allison contribui para um reequilíbrio de poderes, sem que o processo conflitual já presente não aumente em escala. Nesse estudo, apresentam-se doze os casos semelhantes, em que uma potência hegemónica se sente ameaçada por uma potência emergente, percorrendo toda a série histórica compreendida desde a descoberta portuguesa da navegação oceânica, antes de 1427 (3) e o começo dessa capacidade tecnológica por Espanha, após a conquista de Granada, em 1492, em outras latitudes.

            A História assim Aplicada e com propostas efetivas para evitar o conflito bélico entre os EUA e a China é o mérito da análise de Allison, um modelo hermenêutico que se revela profícuo, contudo não explícito gnoseologicamente e que aqui se pretende propor. São necessários verificarem-se alguns princípios e regras para a destinação metodológica e científica da parte de História Aplicada que é a Analogia Histórica sobre casos temáticos em série, de modo a encontrar as estruturas decisórias e suas variantes, seja no âmbito que explanou Allison seja no caso de rebeliões, insurreições, assuntos económicos, sociais e políticos.

            Interessa começar expondo acerca do conhecimento por analogia. A analogia é um dos processos ou modos de exercer o pensar resultante da conjugação de um conjunto com outro conjunto de caraterísticas determinantes, assimétricos apenas no tempo ou no espaço, isto é noutra situação. A afirmação de semelhança pertence a um processo que opera desvelando formas de contiguidade em sobreposição estrutural sobre uma série de situações ou ações. O objetivo deste modo de operar é o de ultrapassar o contexto primitivo e ostensivo para uma realidade eidética e formal, todavia diferentemente da formação do conceito, e ainda prévio ao conceito. O processo analógico tem sido dividido sob diversos esquemas de raciocínio, todavia, é a conexão de uma parte que se repete num todo sequencial, presente em seus procedimentos ou padrões, que representa, já não a figura dos objetos, mas sua estrutura funcional e sua dinâmica. A assimetria espaço-temporal das sequências  históricas de casos-paradigmáticos, que permite a aproximação eidética profunda das estruturas suas decisórias. Já pelo exemplo das Vidas Paralelas de Plutarco de Queroneia reconhecem-se as tipicidades e suas consequências no perfil analógico das personalidades.

            Pode tratar-se este processo como uma metodologia de hermenêutica analítico-sintética. Provém este pensar, não apenas de uma exigência de saber mas de uma exigência do saber. Afirma-se nesse processo de pensar numa rede de interconexão entre sinais, aspetos, símbolos, estruturas, indicando tanto formas estáveis assim como transformações. Não se pode sequer realizar um conjunto sem alguma semelhança entre as suas partes. Se, da cadeira ostensiva podemos abstrair a cadeira conceito, “suporte para o tronco humano com apoio para o dorso”, se, a partir de um conjunto de dados podemos atribuir e reconhecer um feixe de significações concordantes, com formas identificáveis, a analogia pode exibir também um conjunto de dados passíveis de semelhanças, diferentes de sua manifestação espacial e temporal, como acontece no conceito, anulando este por sua abstração, qualquer traço em situação e descobre o plano eidético. Essa visão, esse panorama  eidético, como constelação, posto por abstração concetual e ou por procedimento analógico, não é um truísmo, pois possui internamente tanto a possibilidade de expressar a experiência pessoal ou apresemtar um descobrimento e ou possibilidade de sistematização sobre um campo de estudo. A analogia, como a construção do conceito, possui intrinsecamente a eficácia de aplicação do saber assimétrico, sem o preconceito do tempo e do espaço, não se tratando de aplicar anacronismo, na medida em que, no caso vertente, se aplica apenas às estruturas decisórias. É também o processo analógico uma exigência do saber, pois não é possível considerar uma qualquer verbalização ou interpretação sem procedimentos por analogia intrínsecos ao raciocinar, à adequação entre referência e linguagem pela dialética interna no sistema de significação e referência (4).           A tese de António Telmo (5), de que todo o raciocínio é analógico, pode ser defendida com sucesso sem confundir-se racionalidade com analogismo. Todavia, racionalizar aqui se toma por: 1) expor processos que contêm uma série coerente, isto é, sem contradições internas, com 2) um sentido que se evidencia nas significações que expressam um esquema ou estrutura decisória, e 3) pela finitude de seu campo de interpretação.

            Pensar é transcender a infinitude múltipla da experiência, sem a obliterar, mas apresentar um trilho ou uma manifestação sistemática da manifestação, histórica ou outra, ou por apenas via gnóstica. Assim, as artes e as matemáticas, também estas são hermenêuticas da experiência heterogénea. Mas, procurando a apreensão do existente, o sempre inacabado pensar torna sempre infinita a pesquisa, devido aos vários paradigmas de análise e hermenêuticas aplicadas, isto é, à compreensão-explicação a que recorre, às formas de expressão, e, aos múltiplos e incontáveis campos de interconexão. Assim sendo, requer-se uma comunidade interpretativa para a validação dos resultados e seus processos. O labor, neste caso, hermenêutico-filosófico, como outro conhecimento, abre-se e fecha-se enquanto define campo, limites e sentido.Por análise da verbalização podem distinguir-se variadíssimos métodos de raciocinar e suas típicas perspetivas. Nunca será possível, porém, nem poética nem simbolicamente, nem por redução gramatical, binária ou em linguagem natural, uma explicação cabal. Somos exploradores, e, quando muito, bandeirantes. É esta a intenção que aqui subjaz, tomar os limites deste tipo de pensar analógico ao conhecimento histórico, procurando suas regras e princípios.

            A verosimilhança do que é exposto, assim, como verosimilhança, validada numa comunidade interpretativa, é o que nos permite adquirir o objetivo da exploração, reafirme-se, uma realidade demasiado ampla e complexa para os dispositivos da natureza humana, sensoriais, eidéticos ou simbólicos. Daqui, da múltipla experiência, da parecença da gramática humana, e o interesse que do relato alcança de si mesma, se estende tanto em continuidade  histórica como em diferença de contexto. Resistimos à incompreensão, mas, como alerta António Telmo (6), também sabemos que tendemos a apagar da memória e da convivência o incompreensível, neste nosso âmbito histórico adveniente do século XIX, esquecemos as ruturas, os declínios, até as retrogradações na história, como lucidamente apresentou Mendo Trigozo num tempo de entusiasmo perante o devir histórico: «He certo que nem sempre he possível apresezentar a razão humana marchando a passos de gigante para a sua perfeição: mas ainda mesmo que ella progredisse lentamente,  ou que retrocedesse, seria hum semelhante conhecimento bem precioso para o Filosofo que investiga as causas dessa retrogradação, e para o homem de Estado que quer conhecer a raiz do mal a fim de dar-lhe remedio: e este remedio he necessario.» (7). Escondemos no otimismo toda a fatalidade natural e o desconhecimento do histórico escreve glórias a futuro já não incertos. Esta incompreensão teve gravíssimas consequências, de Hegel a Marx.

            Analogia Histórica designa também coincidência, uma coincidência assimétrica, possível além do tempo e espaço situado: Tornando possível reler línguas mortas e até revelar à compreensão línguas desconhecidas, num pós-espaço-tempo. Na medida em que analogia refere semelhança, mas, nos vários campos assimétricos de análise exclui a identidade.

            A verosimilhança é o ponto de partida para compreender as estruturas que são reveladas acerca do comportamento humano, de continuidades históricas, de táticas ou estratégias: Para oferecer um exemplo recente, do comandar um navio à gestão de empresas (8). Um  conhecimento através de estruturas semelhanças (9) em sequências de significação é, não apenas um tão antigo (10) quanto novo processo pensante e interdisciplinar. Ou tenhamos em consideração as palavras de Políbio e outros antigos na introdução às Histórias. Sempre a História resulta em ensino, e necessário, porque na natureza humana há uma irradiação típica.

            É meu dever referir as chamadas de atenção a este texto, que muito agradeço a João Luís Ferreira. E também referir os estímulos e conversações, de muito estima, de Gonçalo Magalhẽs Collaço.

Notas:

1)  Benjamin Franklin Shambaugh (1912), Applied History.

2) «(…) [L]’analogie théorique ambitionne précisément de tirer un parti spécial de la recherche des correspondances, c’est-à-dire de montrer que celles-ci ne sont pas le fruit du hasard (…)». Michel De Coster, L’Analogie em Sciences Humaines, 1978, 56.

«(…) [L]’analogie théorique se distingue des analogies discursives et méthodologiques, en ce qu’elle dégage, à travers la construction systématique de modèles, la parenté réelle de deux systèmes dans le contexte de l’analogie théorique en ce qu’elle retient l’idée capitale de charnière mise en évidence par Foucault dans le système des similitudes pour caractériser l’analogie comme telle (…). Plutôt que de parler d’analogie théorique, on aurait pu utiliser (…) [une] «analogie scientifique», en raison des exigences qu’elle suppose pour connaître le réel.». Michel De Coster .(1978),L’Analogie em Sciences Humaines, 30-31.

2) O descobrimento de ilhas açorianas esteve algum tempo fora dos registos. Surge apenas em 1427 e no pretérito. Esse descobrimento está associado ao conhecimento decisivo no conhecimento da corrente marítima, dos ventos para melhorar significativamente a navegação oceânica, definindo a rota para a volta dos navios do sul e Índias até à Europa. Será um marco definitivo para a rota dos navios durante séculos que dali provinham e marcará também, por isso, a entrada no nascente Renascimento, a par do reencontro e difusão do poema de Lucrécio, resgatado do esquecimento e que tanto veio influenciar os artistas, acontece em 1417, por Giovanni Francesco Poggio Bracciolini.

3) Pedro Correia (1999), Génese do Discurso Acerca do Mundo em “Du Texte à l’Action” de Paul Ricoeur.

4) António Telmo (2009), Congeminações de um Neopitagórico. E outras obras…

5) Sebastião de Mendo Trigozo, «Discurso Histórico Recitado na Sessão Pública de 24 de Junho de 1820», Memórias da Academia das Ciências, Vol 7, 2.

6) AAVV, Comandar no Mar, Edições Revista de Marinha, 2ªed, 2020. O livro Comandar no Mar recolhe os testemunhos de Comandantes de navios da Marinha de Guerra e de navios da Marinha Mercante, partilhando conhecimento útil para quem exercer funções de comando. Útil para quem desempenhe funções de chefia ou de comando nos outros ramos das Forças Armadas e de Segurança, e em organizações civis e nas empresas.

7) Em Platão consideremos o Sofista e em Plutarco as Vidas Paralelas. O primeiro demonstrando as dificuldades e o interesse do pensamento no modo analógico, e, o segundo, demonstrando como personalidades semelhantes por meio de substantivas compulsões típicas obtêm resultados semelhantes. Em Platão, todas as analogias propostas para apreender a função de sofista são úteis para a sua compreensão, todavia, revelados os seus vários aspetos por imagens não encontram os interlocutores de O Sofista a unidade do conceito que pesquisam. Todavia, não operam os interlocutores de O Sofista através de uma série histórica, pesquisam o conceito. Já no ciclo socrático se havia rejeitado por completo a analogia como puro método de investigação, devido a transferências inválidas da mitologia à vida humana, e outras razões de caráter metodológico-filosófico.



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