Não é devido a uma ação particular do homem, que África existe.
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Uma estranha lei invisível, mais do que não escrita, o que seria normal na terra da oralidade, atribui ao homem africano as tarefas de procriar, fazer a guerra, e administrar, geralmente de forma pouco satisfatória, o território colocado à sua guarda.

África existe, graças à mulher africana.

A mulher africana dá à luz a sua população, alimenta-a, e cobre-a de carinho e responsabilidade. E ainda assegura o quotidiano, com uma série de trabalhos, do nascer do sol ao ocaso.

De entre todos os trabalhos que estão confiados à mulher africana, um é precisamente o de dar vida a África: arranjar água.

Se for necessário, e geralmente é, as mulheres africanas andam diariamente quilómetros e quilómetros, até ao lugar onde a água existe, e transportam-na para a sua casa. Não é raro fazerem neste percurso mais de dez quilómetros, com mais de vinte litros à cabeça.

E se o transporte da água, é uma epopeia de tenacidade e resistência, a sua gestão doméstica é um prodígio de bom senso e economia, esta última a resvalar para a magia.

A água tem que servir para beber, para cozinhar, para a higiene, e ainda, as gotas sobrantes, para regar uma horta preciosa, onde uma mancha de verdura, contribui para amenizar a aridez de uma dieta à base de farinha de mandioca.

Em África a água existe nos rios, nos lagos, lagoas e charcos, e mais raramente nas torneiras das cidades, num formato episódico, intermitente e aleatório, que pode levar um forasteiro incauto, apanhado por esta espécie de fornecimento de água, a ter que tirar o sabão do corpo com uma régua, e condená-lo a coçar-se até ao final dos seus dias.

Os rios africanos serpenteiam entre as diversas formas com que a geologia dotou os terrenos do continente, e por entre a nossa imaginação, desde séculos imemoriáveis, sobretudo três: o Nilo, o Congo e o Níger.

Dos três rios vieram três imponentes rainhas. Do Nilo, o mais comprido rio do mundo com os seus 6671 quilómetros, Cleópatra, claro, dos 4200 quilómetros do Congo, a Rainha Ginga, e dos 4160 quilómetros do Níger, a Rainha Amina, Princesa Hauça de Zaria.

E a mais amada de todas, The African Queen, a minúscula embarcação em que Humphrey Bogart e Katherine Hepburn, descem o Congo ou Zaire, no filme épico de John Huston.

Um mapeamento do percurso dos rios africanos, dos grandes lagos, e das lagoas dispersas, alimentados a chuva, coincide quase harmoniosamente com o da distribuição demográfica. Porque aqueles reservatórios de água são fonte da vida.

Mas também da morte.

Se por cima dos dois anteriores mapas, o da água e o das populações, colocarmos o da propagação da malária, os três em conjunto ajustam-se, compartilhando muitos dos contornos comuns.

Uma malária endémica e secular, arrasta-se ao longo das margens molhadas, e espalha-se pelos territórios ribeirinhos, apenas temporariamente varrida pelas chuvas torrenciais ou pelos percursos mais acidentados dos rios, e arrasa populações inteiras, a eito, de uma forma democrática, que infelizmente não é comum em África.

Os ingleses encontraram na malária um excelente pretexto para se enfrascarem em gin, contendo supostamente quinino, trocando a morte pelas febres pela morte pelo fígado.

Indiferentes a isto, as mulheres africanas fazem as suas caminhadas de longuíssimo curso, em busca de água.

E foi para elas, que a evolução da humanidade passou por uma alteração subtil mas profunda, insuspeita para todos os outros comuns mortais, como seja a passagem dos alguidares abertos para os bidons fechados.

Se bem que mais a norte, as tribos berberes já utilizassem há muito tempo, os bastante funcionais cantis de armazenagem de água, feitos de peles de animais, e que lhes possibilitava, e possibilita, as travessias do deserto, desta região para baixo, imperava a utilização dos alguidares.

Algo que para outra qualquer pessoa, seria uma transformação essencialmente estética, no ciclo da vida africana assumiu um aspeto essencial, possibilitando a subida e descida de morros, sem entornar água.

Tempos depois os alguidares também usufruíram de uma evolução extraordinária, ao passarem do metal, pesado, para o plástico, bem mais leve.

As lagoas são territórios disputados e o acesso à água, uma aula de darwinismo.

Primeiro bebem os leões, depois as gazelas, e por último as mulheres enchem os seus reservatórios.

Qualquer menor atenção nesta ordem implica uma tragédia para o incauto. Tanto mais que, geralmente nas lagoas e rios mais pujantes, vivem os jacarés, indiferentes às teorias da evolução, sobretudo quando as secas prolongadas, fazem reduzir drasticamente o seu território, tornando-os independentes da sua cadeia alimentar típica.

Como consequência, não é raro encontrar-se na barriga de um destes sáurios, vestígios de alguidares ou de bidons de plástico, os restos da refeição de uma voluntariosa mas distraída mãe de família.

Muito acertada e justamente, África tem sido sistematicamente objecto de programas de correta gestão de água, com destaque para campanhas de prospeção de fontes, implantação de redes de distribuição, e práticas de consumo racional.

E o continente, face à manifesta escassez do recurso em muitas zonas, começa também a ser alvo de projetos de dessalinização da água do mar.

Estes programas para serem eficazes abrangem territórios vastos, com condutas transnacionais, que os tornam vulneráveis aos condicionalismos políticos.

As agências mundiais implantaram uma teia de tubagens de distribuição, uns tantos palmos abaixo do solo árido, que no interesse dos seus beneficiários é conservada com mais apreço do que a teia de fronteiras, que à superfície dividem povos que deviam estar unidos, e agregam outros, que deviam estar separados, num puzzle nevrótico herdado do colonialismo do século XIX.

Quase metade da população africana não tem acesso à água potável. E mais de metade não tem acesso a sistemas de saneamento.

Números que traduzem para além da ausência de qualidade de vida, a precaridade económica, uma vez que cerca de cada dólar investido em água e saneamento produz sete de riqueza material.

Sobretudo nas proximidades do Equador, África é servida por excelentes lagos, muitos em altitude como o Vitória, o Tanganica, o Niassa, e o Kivu. Mas muitos estão significativamente poluídos e assoreados, ou até desertificados, como o Chade que em poucos anos passou do sexto maior lago do mundo para um deserto muito considerável, perdendo noventa por cento da sua área.

Para além dos rios, lagos e lagoas, a massa hídrica do continente é complementada por abundantes sistemas aquíferos, como o Núbio, sob o deserto da Núbia e do Sudão, o do Sara, sob a Argélia, Líbia e Tunísia, o Lullemeden, sob o Mali, o Níger e a Nigéria, e até o do Chade, que serve estes dois últimos países, mais o Chade e os Camarões.

Todo este volume de água, oriundo do Génesis, é agora tentado gerir por redes de barragens. Quase 1300, a esmagadora maioria construídas após a descolonização do continente, 60% na África do Sul e no Zimbabué.

Do total de barragens, 52% servem à rega, 20 % ao abastecimento de água a núcleos populacionais, 6% à produção de energia elétrica, e o restante a um misto destas finalidades.

Como acontece noutras partes do mundo, a alteração dos perfis hidrográficos produzidos pela natureza, para além dos imensos benefícios, originou igualmente inconvenientes, e alguns significativos, como a redução de 10 a 15 metros das costas do Togo e do Benim, provocados pela barragem de Akosombo, no Gana, a redução relevante das água do Nilo, provocada pela rede de barragens, com destaque para a de Assuão, e até a de Cahora Bassa, cuja diminuição provocada nas águas, acarretou a redução das terras produtivas.

A partilha da água através de sistemas hidrográficos, constituídos por rios, lagos e barragens, implica delicadas negociações políticas, num continente onde é bom ter presente existem ainda latentes cerca de dez mil pequenos reinos, federações e tribos, que o poder imperial europeu do século XIX reduziu a cerca de quarenta colónias, e que os novos países saídos das independências decidiram conservar, e aumentar para os actuais cinquenta e quatro países e nove territórios.

Algumas daquelas negociações mal conseguidas, conduziram a conflitos armados cruentos, que levaram a morte e a dor a populações que habitavam a margem esquerda ou direita de determinados rios, ou os territórios a montante e a jusante, de outros.

Mas é muito gratificante, pelo contrário, observar a generosidade e a utilidade, de projectos como a Grande Muralha Verde (GMV), presentemente já em execução, e cujo objectivo final é um cinturão formado por trinta e sete espécies diferentes de árvores nativas, com um comprimento de oito mil (oito mil !) quilómetros e quinze de largura, a atravessar todo o continente do Atlântico ao Índico, do Senegal ao Jibuti.

Quando concluído, por volta de 2030, ficará a constituir a maior estrutura viva do planeta, envolvendo 232 milhões de habitantes, 780 milhões de hectares.

O projecto mobiliza duas dezenas de países, e já conseguiu cativar cerca de oito mil milhões de dólares, numa associação entre a União Africana, a FAO, o Banco Mundial, e naturalmente a ONU, através principalmente do seu Programa para o Ambiente (UNEP), e pretende sobretudo impedir o avanço do deserto, tornando o solo mais apto para a agricultura e pastagens, e por conseguinte para a vida das populações.

Com cerca de uma década de realização, descontado o tempo das reuniões em Genebra, Nova Iorque e Adis Abeba, o projeto atualmente está realizado a cerca de 15%, o que permitiu já a plantação de 12 milhões de árvores resistentes à seca no Senegal, 5 milhões de hectares recuperados no Níger, e a reabilitação de 15 milhões de hectares na Etiópia.

É absolutamente necessário melhorar significativamente aqueles que são ainda os números e indicadores da água em África, por exemplo com mais projetos como este, por diversas razões, a menos importante das quais não será, fomentar a unidade (no bom sentido) e a identidade africanas.

A água pode fazer o que as armas dos exércitos colonizadores, e das potências independentes que lhes seguiram, não conseguiram, e que é o amplo sentido de pertença.

A fixação livre e capaz do homem africano à sua terra, é um dos processos mais eficazes de acabar com os movimentos migratórios, que enxameiam o Mediterrâneo, e que terminam nas morgues e nos campos de acolhimento da Europa.

É necessário levar os africanos a não quererem trocar a sua terra por nenhuma outra, e para isso é necessário água.

Afinal, é isto que nos ensina Ryszard Kapuscinski, Mestre Kapu, no seu livro Ébano, uma das melhores obras que até hoje se escreveram sobre África, e nas letras das canções que se cantam nas noites estreladas.A minha pátria? A minha pátria é onde cai a chuva



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