O princípio do fim do Mundo

Português? – Perguntou o Coreano sentado ao meu lado naquelas cadeiras de ergonomia espartana próprias para intimidade forçada com passageiros desconhecidos. Eu, como sempre, sentado à coxia para poder alongar as pernas no corredor com o compromisso de as recolher quando passam as atarefadas hospedeiras, mas nem sempre atempadamente, com consequências que vão do espetacular ao aparatoso. Tínhamos acabado de “embarcar” na embarcação alada, famosa catacrese. Sem esperar resposta, continuou – Portugal, o antigo fim do Mundo! Era assim, explicou-me, como era referido nos manuais escolares daquele longínquo país.

Para os geógrafos dos tempos antigos, que não viram a aurora do Novo Mundo, mas que ainda assim conseguiram ir além do cabo de São Vicente – há quem ainda hoje não consiga -, o “Finisterra” foi durante muitos séculos o arquipélago Canário. Entre eles Ptolomeu, o mais proeminente, no século II d.C. estabeleceu o Meridiano Zero na ilha de El Hierro, o extremo ocidental do Mundo conhecido. Ali nas ilhas afortunadas, uma região abençoada onde a Madeira se inclui, os Campos Elísios da mitologia grega, onde os heróis e as almas favorecidas eram recebidos pelos seus deuses após a morte.

Séculos mais tarde, América descoberta, e após acesas disputas, os Britânicos, com a sua tremendamente eficaz “diplomacia-blasé” raptaram o Meridiano Zero e levaram-no para Greenwich. Os mesmos Britânicos do Brexit que põem uma vez mais o projeto europeu em suspenso, aguardando a venerável decisão dos discípulos de Sua Majestade. Apesar dessa muito britânica sobranceria descontraída, sempre acreditei mais num projeto europeu em torno dum eixo franco-britânico do que num, contranatura, franco-alemão, mas isso são outras conversas.

Que ancestral necessidade têm as sociedades de serem a referência, o padrão, o exemplo para o resto do mundo? Todos querem ser o centro. O centro de qualquer coisa, nem que seja o centro de coisa nenhuma.

Portugal, geograficamente condenado a país da periferia europeia, acena agora com uma plataforma continental estendida que bordeja o sonho americano para argumentar que, com essa nova extensão, o centro da Europa é afinal Lisboa e, com alguma sorte, o novo meridiano imaginário sulcará algures a calçada do Terreiro do Paço ou, quem sabe, um carril do elétrico 15, na Rua da Prata. Os Açores, por sua vez, reclamam ser o centro do Atlântico e a Madeira, o centro da Macaronésia.

E quando o centro é afinal pouco mais do que um umbigo? Sim, um umbigo como o nosso, o centro da circunferência do homem vitruviano de Leonardo da Vinci, equidistante às extremidades dos membros superiores e inferiores, ou como a Terra da astrofísica pré-Copérnico, um enorme umbigo, literalmente astronómico, o centro do sistema solar em torno do qual tudo gira “comme il faut”! E que violência aos sentidos, e à perceção, terá representado o delírio de Copérnico, o princípio do fim da imobilidade da Terra.

Dezenas de milhares de voltas completas depois, fará sentido, será racional, essa obsessão em querer ser o centro e de venerar o nosso umbigo num mundo tão dinâmico e volúvel, onde todos cooperam (sobretudo os competentes e os que têm argumentos) e interagem, onde tudo se organiza em rede?

Enquanto nos debatemos em marés de vaidade provinciana, somos uma vez mais arrastados, esgotados e tolhidos pela corrente inebriante do nosso Fado. O Fado, como dizia Pessoa, “não é alegre nem triste, é um episódio de intervalo. Formou-o a alma portuguesa quando não existia e desejava tudo, sem ter força para o desejar”.

E de facto há um certo Fado neste momento que nos encontramos. Uma sociedade mobilizada, uma enorme responsabilidade histórica, um património imenso, uma retórica política do tamanho de Adamastor, maior ainda, uma grande ambição e expectativa, mas a concretização… A concretização é bem mais complexa.

E é complexa por diversas razões. Começa por não haver um enfoque claro, um objeto único que todos mobilize. A Noruega e o petróleo, a Alemanha e a construção naval, a Holanda e o transporte marítimo, a Espanha e a pesca industrial. Em Portugal não há propriamente um foco, há um horizonte de oportunidades: pescas, turismo costeiro, reparação naval, energia offshore, transportes e serviços.

            A falta de coerência na comunicação também não facilita. A mensagem política deve ser acompanhada por medidas efetivas que sejam compreendidas e que mobilizem. Ainda há poucos dias, no parque de estacionamento da universidade de Trondheim, na Noruega, reparei que a maioria dos automóveis eram movidos a eletricidade, comentei com o Norueguês que me acompanhava que eu estava impressionado pela sensibilidade ambiental evidenciada. Ele apressou-se rapidamente a esclarecer que não se tratava propriamente de sensibilidade, eram simplesmente mais baratos.

É claro que haverá razões perfeitamente lógicas para que em Portugal seja o oposto, pois apesar das medidas de incentivo fiscal e de subsídio existentes, os carros elétricos são ainda um capricho, mas passar a mensagem pública de incentivo à utilização de veículos elétricos quando não são de facto uma alternativa, é que já não é lógico, nem sério. Como não é lógico nem sério pedir às empresas portuguesas que abasteçam em Portugal por amor à pátria.

Outra dificuldade importante é a cooperação, ou melhor, a falta dela. A competição é fundamental em momentos de expansão e crescimento, mas em momentos em que é preciso arrancar e alavancar, a cooperação é decisiva. É importante sabermos trabalhar uns com os outros, procurar ensinamentos, procurar sinergias.

Tendemos a ser autofágicos, a destruir entidades por decreto, obrigando a fusões ou deslocalizações espetaculares. Ao invés de respeitar o potencial e a vocação das instituições, ajudando a viabilizar, criando condições para trabalhar em rede, procurando desígnios comuns.

Temos uma atração fatídica pelos grandes projetos, pelas coisas novas, pelas grandes infraestruturas inauguráveis a fita-e-tesoura, elefantes brancos anunciados. Enquanto instituições históricas, com provas dadas, como o Instituto de Medicina Tropical ou o Instituto Hidrográfico, e outras mais recentes como o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, que precisam eventualmente de ser redimensionadas, adequadas, lutam pela sobrevivência.

Cacos velhos! O que é inaugurável entre tais escombros?! – Perguntarão alguns – E, no entanto, no meio dos cacos velhos e de instrumentos martelados sobrevive o brio abraçado ao engenho! Mas também ameaçam os velhos do Restelo, ali tão perto. E os lamentos?! – “Temos o cromotógrafo de última geração, mas faltam os reagentes”, “Temos os reagentes mas falta o cromotógrafo de última geração”, “Temos o navio mas falta o ROV”, “Temos o ROV mas falta o navio”, “Temos a impressora mas falta o papel”, “Temos o papel mas falta o tinteiro”, “Temos liderança mas falta equipa”, “Temos equipa mas falta liderança”. Temos, mas não temos, logo não temos!

Neste novo meridiano Centro-da-Europa não são os edifícios que estão ao serviço do conhecimento e competência, é o conhecimento e a competência que estão ao serviço dos edifícios a inaugurar de fita-e-tesoura.

O Mar é um meio altamente desafiante e competitivo, temos de nos agigantar para conseguir ultrapassar algumas debilidades conjunturais. Todos somos poucos. O sucesso é improvável. D. Nuno Álvares Pereira sabia-o e ainda assim ousou uma estratégia e cerrou fileiras. Mas uma coisa ele tinha como certo, o “inimigo” estava fora do quadrado.

Quanto ao simpático Coreano, despachei-o dizendo que Portugal nunca foi o fim do Mundo, mas sim o princípio de outro tanto. Contei-lhe também que na minha infância, na ilha da Madeira, no quintal da minha avó Leocádia, existia um grande buraco na calçada de calhau rolado e que ela, para evitar que fosse para lá brincar e partir o tornozelo, assustava-me dizendo que se nele caísse iria bater à China, ao fim do mundo!



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