Lusos e Vikings – da navegação ao bacalhau, e o futuro que precisamos!
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Sempre que viajo para a Noruega regresso com a mesma sensação – positiva e confiante no futuro da economia do mar no mundo, inspirada nos seus excelentes exemplos, mas ao mesmo tempo intrigada com as diferenças abissais entre os nossos países no que respeita à eficácia das medidas e opções estratégicas que tomamos.

A economia do mar na Noruega representa um terço do PIB Norueguês. Sim, retiremos as receitas derivadas da exploração do petróleo e do gás e ficam uns fantásticos 20%! Agora comparemos: 2,9% PIB é o peso da economia do mar nacional. E ainda que o cálculo deste valor possa estar subdimensionado derivado da dificuldade em aferir com precisão todas as componentes desta economia nas contas nacionais (dentro do turismo nacional por exemplo, quanto vale o turismo naútico, marinho e de desporto no mar – surf? E onde entram as contas da biotecnologia marinha? Ou as da robótica e tecnologia marinha?), nunca será sequer na mesma ordem de grandeza nos próximos 10 anos. Ambicionamos chegar aos 5,8%-6%.

Lusos e Vikings partilham muito do desenvolvimento da navegação no mundo – sofisticação de armas e embarcações, inovação nos instrumentos de navegação e desenvolvimento de tecnologias focadas na vantagem competitiva das empreitadas navais à conquista de um mundo inteiro por explorar. A era Viking começou nos anos 800 a.c., e a expansão dos seus territórios foi possível graças ao seu indubitável espírito aventureiro e às suas aprimoradas armas e embarcações associadas à forte organização militar. A sua influência no território Norueguês permanece até hoje, e muitos apontam-na como uma das causas da predisposição Norueguesa para o mar. No entanto, a Noruega, após vários séculos de costas para o mar, centrada em combates territoriais e feudais entre escandinavos, redescobre o mar na década de 1970, com o início da exploração do Petróleo, e em pouco menos de 50 anos torna-se numa das maiores potências mundiais no domínio do mar.

Os Lusos reinaram os mares na épica era dos séculos XIV a XVI. Desde o século XIV que os Portugueses foram pescadores nos mares do norte, conquistadores de ilhas e terras de aquém e além mar, inovadores marinheiros e comerciantes de tudo e mais qualquer coisa com povos de todo o mundo. Mas foi nos séculos XV e XVI que os navegadores portugueses aumentaram o poder e limites da coroa portuguesa, trazendo para a Europa especiarias e outros “ouros” e um espírito de conquistadores reconhecido até hoje como um marco na história mundial. Tal como a Noruega, também nós, que sempre vivemos do mar e para o mar, nos virámos de costas para ele, aquando na entrada na UE e nos incutiram de pensar sermos a cauda da Europa e não nos vermos como o verdadeiro centro geopolítico que somos. Foram anos de desinvestimento e afastamento ao mar. E são esses mesmos quase 40 anos que nos separam da Noruega.

Enquanto os Noruegueses imbuídos de espírito Viking tiveram a visão e a persistência de apostar no mar nos últimos 50 anos, focando-se na tecnologia marinha e marítima, na exploração dos seus recursos marinhos, inovando na aquacultura, transformando pragas marinhas em sucessos de exportação (Red King Crab por exemplo), desenvolvendo novas formas de cultivo marinho, explorando a biotecnologia como ferramenta para geração de produtos azuis de valor acrescentado , visionando a criação de novas cidades e territórios unicamente centrados nas actividades ligadas ao mar em regiões tão ímpares quanto remotas, e reconhecendo que o conhecimento e inovação marinhas e marítimas, assim como a formação diferenciada e focada no mar dos seus recursos humanos, são o pilar do seu crescimento, conseguiram posicionarem-se de forma inquestionável no sector azul. Portugal está agora a dar, de novo, os primeiros passos naquele que sempre foi o seu desígnio – o mar, azul e profundo, da nossa enorme plataforma continental. Somos o bebé ávido de acelerar a nossa curva de crescimento com o irmão mais velho.

Portugal tem os portos, o transporte marítimo e o turismo náutico como grandes impulsionadores das contas da economia azul. As pescas e a marinha em todas as suas dimensões. Mas tem também enormes potencialidades e vantagens na sua biodiversidade e recursos marinhos; numa aquacultura diversificada e ecológica; na exploração sustentável de micro e macroalgas para inúmeros mercados; no uso da sua forte biotecnologia marinha para a inovação azul; no recente mas potente desenvolvimento da robótica marinha e tantas outras áreas de ponta onde nos podemos diferenciar. Ah! E os recursos humanos altamente qualificados para executarem esta transformação.

E não obstante o nosso PIB ser de longe bem menor que o da Noruega, não nos esqueçamos que eles conseguiram tudo isto num país gigante mas com apenas 5,5 milhões de habitantes, metade dos Lusos. E muito sinceramente com metade da vantagem natural e geopolítica que os Portugueses têm. E também os Noruegueses sabem onde somos já mais fortes que eles, e onde os podemos ajudar a chegarem ainda mais longe.

 

Os recentes memorandos de entendimento entre os dois países e as relações bilaterais tão antigas quanto as nossas tradições marítimas são, sem dúvida, um excelente alicerce para essa parceria. Falta concretizá-los em coisas reais. Empresas bilaterais, produtos e serviços conjuntos, abertura de novos mercados a dois, pensamento visionário e estratégico para o espaço atlântico e rotas marítimas. As duas maiores nações marítimas da Europa podem e devem unir esforços para definir a economia azul de amanhã. O conselho de ministros do passado dia 3 de Março, e as recentes medidas anunciadas ficam aquém da visão abrangente desejada. São um passo certo sim, mas pequeno demais para algo que precisa ser muito mais grandioso – afinal num país que é 97% de mar não é óbvio para onde devemos navegar? Não nos contentemos em apenas comer o bacalhau da Noruega. Ambicionemos mais.



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