A Fundação Oceano Azul e o Oceanário de Lisboa anunciaram ontem os projectos contemplados com os 150 mil euros da 2ª edição do Fundo para Conservação dos Oceanos, dedicada ao tema Espécies Marinhas Ameaçadas. Da Ciência para a Consciência
Fundo para Conservação dos Oceanos

O «EEL Trek» e o «Whale Tales Project» foram os projectos eleitos pelo júri da 2ª edição do Fundo para Conservação dos Oceanos, promovido pelo Oceanário de Lisboa e a Fundação Oceano Azul (FOA). O anúncio foi feito ontem, no auditório do Oceanário de Lisboa, e atribuiu um total de 150 mil euros de financiamento aos projectos, escolhidos entre 14 candidaturas, este ano subordinadas ao tema Espécies Marinhas Ameaçadas. Da Ciência para a Consciência.

Contemplado com 100 mil euros de apoio financeiro, o «EEL Trek» é promovido pela Fundação Gaspar Frutuoso e visa “complementar o conhecimento científico sobre a migração oceânica e o comportamento de reprodução da enguia-europeia”, uma espécie considerada Criticamente em Perigo, de acordo com a Lista Vermelha de espécies ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos (IUCN, no acrónimo em inglês), referem os promotores do Fundo.

O projecto será implementado nos Açores, onde “serão conduzidos estudos sobre a distribuição, dinâmica populacional e os movimentos das enguias”. Com base em métodos de telemetria via satélite e estudos genéticos e ecológicos pretende-se compreender os factores que determinam o período de migração da enguia-europeia”, referem os promotores, acrescentando que até ao final deste ano serão colocados “até 20 transmissores via satélite em enguias, esperando-se ter pela primeira vez a confirmação da hipótese de migração até ao Mar dos Sargaços proposta por Johannes Schmidt, em 1912”.

Já o «Whale Tales Project» foi contemplado com 50 mil euros e é desenvolvido pela ARDITI – Associação Regional para o Desenvolvimento da Investigação, Tecnologia e Inovação. Será implementado na Madeira e tem como objectivo “aumentar o conhecimento científico sobre a utilização de habitat e da condição fisiológica do cachalote nas águas insulares da Macaronésia, com foco no arquipélago da Madeira, onde existe menos informação”, referem os promotores, lembrando que também aqui está em causa uma espécie ameaçada, neste caso, com o estatuto de Vulnerável, segundo os critérios da IUCN.

Segundo o Oceanário de Lisboa e a FOA, “a metodologia aplicada neste projecto é multidisciplinar e inovadora, combinando as áreas da ecologia espacial, ecofisiologia e ecotoxicologia” e vai recorrer a “dados recolhidos em censos visuais, foto-identificação (baseada nas marcas individuais presentes na barbatana caudal), biomarcadores de satélite, biópsias, e presença de microplásticos na superfície da água”. De acordo com os promotores, “a sensibilização do público em geral, assim como a ampla disseminação dos objectivos do projecto, serão realizadas através de ferramentas multimédia (como a transmissão em tempo real da posição dos indivíduos) e irá envolver a comunidade local, assim como vários stakeholders”.

Para os promotores do Fundo, “a ameaça às espécies e ecossistemas marinhos nunca foi tão elevada como actualmente” e constata-se que “o declínio de espécies causado pela actividade humana continua a aumentar a uma taxa alarmante”, pelo que “esta iniciativa assume um papel essencial e colaborativo nos esforços de manutenção da biodiversidade existente”.

Os dois promotores aproveitaram a ocasião para divulgar dados do IUCN, que avaliou 96 951 espécies na sua Lista Vermelha, das quais 13.414 são espécies marinhas (mas não exclusivamente marinhas, como a enguia-europeia), 10.465 são exclusivamente marinhas e 1.134 estão classificadas com os estatutos de conservação Criticamente em Perigo”, Em Perigo e Vulnerável. Tiago Pitta e Cunha, presidente da Comissão Executiva da FOA e Administrador do Oceanário de Lisboa, lembrou também o número das espécies do oceano não é conhecido com rigor, variando entre 700 mil e um milhão, metade das quais nem sequer terá sido descrita pela ciência.

Na mesma sessão de anúncio dos dois projectos financiados na 2ª edição do Fundo, cujo orçamento foi reforçado em 50 mil euros face ao da 1ª edição, que contou com 100 mil euros, foi feito um balanço do trabalho realizado pelos três projectos eleitos na edição anterior – «Find Ray Shark», «Island Shark» e «Shark Attract» – com a presença de um elemento de cada uma das equipas. Sobre o valor do Fundo, Tiago Pitta e Cunha admitiu que o financiamento dedicado pelos promotores do Fundo “não á grande face à dimensão da tarefa”, mas já tem uma “dimensão reconhecida como relevante” por vários observadores especializados.

O presidente Executivo da FOA e Administrador do Oceanário de Lisboa considerou ainda que “os desafios que se abre à preservação da biodiversidade do nosso planeta , numa época em que já se fala de uma nova extinção em massa, são inúmeros”, mas referiu também que taos desafios só podem ser encarados com “optimismo, caso avancemos em várias frentes simultaneamente”.



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