Um atraso na divulgação de resultados a um concurso para financiamento do Fundo Azul pode provocar perda de apoios do MAR 2020 a um projecto de produção de corvina em aquicultura baseado num sistema pioneiro
SEAentia
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A start-up portuguesa SEAentia está em vias de perder o apoio financeiro do MAR 2020 a um projecto pioneiro de produção e comercialização de corvina em Sistema de Recirculação de Aquacultura (RAS – Recirculating Aquaculture System), “visto que pode não conseguir cumprir as metas de realização de despesas, devido ao brutal atraso do Fundo Azul em divulgar os resultados do concurso do edital nº 3, que por lei tinham 60 dias úteis para ser divulgados (seria em Maio de 2018)”, admitiu ao nosso jornal João Rito, sócio-fundador da empresa.

Segundo nos explicou este responsável, o projecto tem uma componente de prova de conceito, que envolve um investimento de 565 mil euros, e uma componente comercial, cujo investimento é de 19 milhões de euros. Nesta fase, está em causa o investimento de 565 mil euros, para o qual a start-up concorreu ao MAR 2020, que financia 50% dessa despesa e já garantiu esse financiamento (em Junho deste ano), e ao Fundo Azul, que neste caso financiaria 45%. Os empreendedores dispõem dos restantes 5%, sob a forma de capital próprio.

Como as regras dos fundos implicam que os empreendedores invistam antes e sejam ressarcidos depois, os responsáveis da start-up recorreram a diversas instituições financeiras para obterem um empréstimo para os 565 mil euros depois de já terem assegurado o financiamento dos 50% do MAR 2020, esperando que tal bastasse para garantir o crédito bancário. Mas as instituições financeiras rejeitaram o empréstimo e solicitaram também a garantia do financiamento do Fundo Azul. Sem o capital necessário por falta de resposta atempada à candidatura ao Fundo Azul, por enquanto, a start-up não pode cumprir um requisito do MAR 2020, que é o de realizar 30% da despesa até 6 meses depois da aprovação do financiamento.

O nosso jornal procurou confirmar junto da Direcção-Geral de Política do Mar (DGPM) que existe um atraso na divulgação dos resultados das candidaturas propostas no âmbito do edital nº 3 do Fundo Azul, que ainda não terá sido feita, e, confirmando-se, quando está prevista essa divulgação. Todavia, até ao momento não foi possível obter esse esclarecimento.

 

Uma produção rastreável, segura e sustentável

Em causa está um projecto que pretende ser o primeiro à escala mundial a produzir corvina até dimensões comerciais (pretendem fazer as unidades crescer até aos 2,5 quilos em menos de dois anos) de acordo com o processo RAS. Um processo que permite controlar os parâmetros de cultivo, evitar doenças e parasitas, promover o bem-estar animal, melhorar a utilização da ração e manter um óptimo crescimento, segundo consta da apresentação do projecto. Os seus responsáveis querem um produto totalmente rastreável até ao seu nascimento, identificado por uma marca identitária própria, dotado de uma certificação de biossegurança (garantia de que o produto não tem parasitas nem foi submetido a medicamentos ou antibióticos no processo produtivo) e produzido de forma sustentável.

“Outra enorme vantagem é a disponibilidade desta corvina, totalmente fresca (menos de 24 horas fora de água) constantemente ao longo de todo o ano”, refere João Rito, acrescentando que “o respeito pelo ambiente, permite à SEAentia produzir segundo a forma mais sustentável de produção animal” e que “as elevadas necessidades energéticas são colmatadas através da produção própria de energia por painéis solares no topo do edifício de produção”.

Neste momento, a start-up está empenhada na prova de conceito, que se destina a recolher dados essenciais para actualizar o modelo de negócio do projecto, a ter lugar em Peniche. Talvez por isso Peniche permaneça uma possibilidade para as futuras instalações do projecto, já na fase comercial, e que terão cerca de 13 mil metros quadrados e serão cobertas. Mas “a localização ainda não está definida”, referiu-nos João Rito. Instalações que deverão contemplar o recurso a energia solar, como se referiu.

João Rito referiu também que “a SEAentia irá basear-se ao máximo na economia circular”, com os “chamados desperdícios das actividades principais” encarados “como matéria-prima para produções acessórias, maximizando os recursos disponíveis sem sobre-explorar o ambiente”. E explica: “por exemplo, os nutrientes presentes no efluente são canalizados para produções de organismos de nível trófico inferior, que se alimentam e crescem retirando-os desse efluente”, pelo que “não só o efluente fica limpo como se produz mais biomassa sob a forma de alimento, como amêijoas ou algas”.

“Este projecto, para ser economicamente viável, terá que respeitar uma economia de escala, necessitando de ter uma produção relativamente grande, comparado com outros projectos de produção mais artesanal”, refere João Rito, admitindo que tem a expectativa de uma produção de mil toneladas anuais em capacidade plena, ou seja, segundo o modelo de negócio, até ao final de 2022. “Para isso, é necessário um investimento elevado, o que está naturalmente associado a um maior risco, no entanto, este é o sistema que mais mitiga os riscos de perdas de produção devido a eventos incontrolávéis pelo homem, como por exemplo propagação de doenças ou parasitas no meio natural; ocorrência de blooms algais tóxicos; eventos climáticos extremos imprevisíveis; ataque de predadores como aves marinhas; etc”, refere João Rito.

Segundo refere, a maior dificuldade “é começar a operar, ou seja, obter o investimento (quer seja de fundos ou privado) e obter o licenciamento, dado ser uma tecnologia relativamente desconhecida em Portugal, apesar das suas distintas vantagens”. Os seus concorrentes são a pesca de corvina selvagem e a produção de corvina em aquicultura de alto-mar. Os seus parceiros são a Docapesca, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), a Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar do Instituto Politécnico de Leiria e a empresa holandesa Landing Aquaculture.

 

 



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