Todos os indicadores apontam para um aumento do consumo e da produção de energia à escala global nos próximos anos. E apesar do crescimento da capacidade instalada em energias renováveis, o petróleo e o gás continuam a ser produzidos e procurados pelas indústrias e os consumidores, indiciando uma tendência que não deverá sofrer alterações a breve prazo.
Deloitte
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Alguns dias após a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) ter dispensado o consórcio ENI/Galp de uma Avaliação de Impacte Ambiental (AIA) a uma sondagem de pesquisa de hidrocarbonetos em águas portuguesas, vários relatórios projectam um aumento do consumo de petróleo e gás no futuro mais próximo. Nada que projecções anteriores não tivessem já concluído, independentemente do também projectado aumento do consumo de energias renováveis. Mas, acima de tudo, os dados confirmam que o consumo de energia, em geral, vai aumentar ao longo dos próximos anos (segundo a BP, o consumo energético na China cresceu 3,2 em 2017, tornando o país aquele que registou o maior crescimento do mercado energético pelo 17º ano consecutivo).

 

Petróleo

 De acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), confirmou-se um aumento no consumo de petróleo no 1º trimestre deste ano e no princípio do 2º trimestre, “em parte devido a um arrefecimento do clima no hemisfério norte”. Mas a agência admitiu um abrandamento no segundo semestre. Para 2019, a AIE previu um aumento global na procura petrolífera, provavelmente a um ritmo semelhante ao deste ano, resultante de do dinamismo económico. Mas também reconheceu que a sua previsão pode ser revista devido a um eventual impacto das medidas protecionistas anunciadas em vários pontos do globo e de uma maior valorização do dólar.

 “Para 2019, a nossa primeira estimativa de procura é de um crescimento de 1,4 milhões de barris diários”, ou seja, um aumento para 99,1 milhões de barris diários, refere a agência. Solidez económica e a presunção de preços mais estáveis são considerados factores chave. “Os riscos incluem a possibilidade de preços mais altos e disrupções comerciais”, refere a AIE, acrescentando que “alguns Governos consideram tomar medidas para suavizar a pressão dos preços sobre os consumidores”, como nos casos da Argentina, do Brasil, da Índia, da Indonésia, da Rússia e da Turquia.

Quanto à oferta, a previsão da AIE aponta para que os Estados que não pertencem à Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) aumentem a produção em 2 milhões de barris diários em 2018 e em 1,7 milhões em 2019, com grande parte deste aumento devido aos Estados Unidos. Já a propósito da OPEP, a AIE considera que a sua produção dependerá da evolução na Venezuela, cuja economia enfrenta uma grave crise, e no Irão, a braços com a renovação de sanções económicas impostas pelos Estados Unidos. Em conjunto, a perda de produção nestes dois países pode atingir 1,5 milhões de barris diários no final de 2019. Para compensar tais perdas, a AIE admite que os membros da OPEP do Médio Oriente possam aumentar a produção em 1,1 milhões de barris diários e que mais produção possa vir da Rússia, tudo somado ao aumento da produção nos países exteriores à organização e à possibilidade de ser activada produção num pequeno número de países com capacidade excedentária.

 Ainda sobre as perspectivas de aumento do consumo petrolífero em anos vindouros, dados da Agência de Informação de Energia dos Estados Unidos (AIEEU) de 2017 referem que entre 2015 e 2040, o consumo de petróleo e outros combustíveis líquidos crescerá 18%. Segundo os mesmos dados da mesma agência, o consumo de outra fonte energética, o gás natural, crescerá 43% no mesmo período, com destaque para os países exteriores à OCDE, comparativamente aos quais o seu consumo já é superior. O consumo de gás natural crescerá em todos os sectores (transportes, edifícios, indústria e produção de electricidade), mantendo-se os transportes à cabeça.

 

Gás

A este propósito, cabe aqui recordar, por curiosidade, que em 5 de Dezembro de 2017, a REN – Redes Energéticas Nacionais. anunciava que o consumo de gás natural em Portugal batia um novo recorde (263 GWh) devido ao alto recurso a estas centrais para produzirem electricidade, face à diminuição verificada na produção hídrica. Nessa ocasião (até 11 de Dezembro), o consumo de gás natural em Portugal era 27,5% superior ao de 2016, com um crescimento de 4,4% no segmento de mercado convencional e de 90,1% no segmento de mercado eléctrico. Dizia então a REN que para estes dados contribuíam a situação de seca, que gerou quebras na produção hidráulica, e a forte exportação no sistema eléctrico nacional.

Entretanto, já em Junho deste ano, a REN informava que o consumo de gás para a produção de energia eléctrica em Portugal registava “em Maio uma contracção homóloga de 43%”, enquanto pelo contrário, no segmento convencional, se mantinha “um crescimento robusto de aproximadamente 8%”. Entre Janeiro e Maio, o consumo de gás natural apresentou “uma variação acumulada de menos 9%, face ao verificado no mesmo período do ano anterior, resultado de um crescimento de 4% no segmento convencional e de uma redução de 34% no mercado eléctrico”, referiu a REN.

Regressando ao consumo internacional de gás natural, em particular ao gás natural liquefeito (GNL), que está na ordem do dia entre os operadores do transporte marítimo e por consequência também entre os produtores e distribuidores de combustíveis, um relatório recente da Associação Internacional dos Importadores de GNL (AIIGNL), de que demos conta no nosso jornal, refere que o comércio global desse produto cresceu 10% em 2017, para 38,2 biliões de pés cúbicos por dia (Bcf/d), face a 2016. Um crescimento que, ao nível anual, terá sido o maior de sempre no comércio global de GNL, num quadro de 19 países exportadores e 40 países importadores, de acordo com o relatório da AIIGNL.

Conforme então escrevemos, com base no relatório, “para este aumento, terá contribuído o aumento das exportações de países como a Nigéria, Malásia, Argélia, Rússia e Brunei, que em conjunto juntaram 1,4 Bcf/d às exportações (mais do que compensando a quebra de 0,6 Bcf/d nas exportações combinadas do Qatar, Indonésia, Noruega, Perú, Trindade e Tobago e Emirados Árabes Unidos), bem como o regresso à actividade do projecto Angola LNG e o aumento combinado de 3,4 Bcf/d da capacidade de liquefacção na Austrália, Estados Unidos”.

Coube aos países asiáticos o predomínio das importações de GNL, que representaram 74% desse aumento em 2017, com o Japão à frente (11 Bcf/d), embora tenha sido a China quem mais cresceu nas importações (1,5 Bcf/d), “tornando-se o segundo maior importador mundial de GNL, ultrapassando a Coreia do Sul”, conforme escrevemos, sem desprezo pelo aumento de exportações de GNL que também se verificou na Coreia do Sul, no Paquistão, em Taiwan e na Tailândia.

Sintoma da procura do GNL, a sua importação também aumentou na Europa (1,4Bcf/d), “principalmente em Espanha, Portugal, Itália, França e Turquia, ao contrário do Reino Unido, onde se registou uma diminuição de 35% (0,34 Bcf/d), muito por via da quebra na procura energética doméstica e do aumento de geração de electricidade a partir do vento, que provocaram menos procura de GNL”, escrevemos. Na América do Sul (Brasil, Argentina, Chile e Colômbia) as importações em 2017 foram próximas às do ano anterior e na América do Norte aumentaram no México (17%).

Olhando de novo para o gás natural, em geral e não apenas para o GNL, dados recentemente divulgados por um relatório da BP alusivo a 2017 referem que o último ano foi de crescimento, quer no consumo (3%), quer na produção (4%), o que significou o maior ritmo de crescimento em ambos casos desde o fim da crise financeira internacional. Também aqui a Ásia comandou a evolução no consumo, especialmente a China (+15,1%, o que correspondeu a um terço do aumento no consumo mundial de gás) e o Médio Oriente (só o Irão, +6,8%). Na Europa também se verificou crescimento nesta matéria. Este crescimento foi mais do que compensado pelo aumento de produção, especialmente na Rússia (+8,2%), Irão (+10,5%), Austrália (+18,7%) e China (+8,5%), segundo a BP.

A propósito do aumento do consumo de gás na China, o relatório da BP alude ao plano ambiental anunciado pelo Governo de Pequim em 2013 e que estabelecia objectivos de melhoria da qualidade do ar ao longo dos cinco anos seguintes. Com o termo desse prazo a aproximar-se, na Primavera de 2017 as autoridades chinesas anunciaram incentivos para Pequim, Tianjing e outras 26 cidades das províncias do Nordeste do país destinados a cumprir as metas concebidas em 2013. Tais medidas foram reforçadas no último Outono e dirigiam-se aos consumidores de carvão fora do sector energético, incentivando a substituição do consumo de carvão na indústria e nos lares por gás ou electricidade. A maioria terá optado pelo gás. Embora 3 milhões de lares tenham feito esta opção, foi no sector industrial que se verificou a mudança com maior impacto no aumento do consumo de gás na China. Um aumento que dificilmente se verificará em 2019.

 

Outras energias

A propósito do carvão, segundo os dados da AIEEU de 2017, a agência norte-americana refere que entre 2015 e 2040 vai aumentar o consumo de todos os outros combustíveis – petróleo e outros combustíveis líquidos, gás natural, energias renováveis e energia nuclear – mas não o carvão. E refere que ao longo desse período o nível de consumo de carvão se manterá inalterado. Todavia, o relatório da BP sobre 2017, refere que nesse ano o consumo de carvão aumentou 1%, o maior aumento desde 2013. Tal aumento ficou a dever-se ao crescimento do consumo induzido largamente pela Índia e a China, depois de reduções anuais sucessivas entre 2014 e 2016. Quanto à produção, em 2017 cresceu 3,2%, o ritmo mais rápido desde 2011.

No plano das energias renováveis, entre 2015 e 2040, o crescimento será assente, sobretudo, nas energias solar e eólica, de acordo com a agência norte-americana. De acordo com a BP, em 2017, o consumo de energias renováveis cresceu 17%, mais do que a média dos 10 anos anteriores, com a energia eólica a responder por mais de metade desse crescimento e a energia solar por mais de um terço. Na China, o consumo de energias renováveis também registou um valor recorde no último ano e constituiu o segundo maior contributo para o crescimento das energias primárias a partir de uma única fonte e num só país, atrás do gás natural também na China.

Nesta matéria, importa destacar que recentemente o Parlamento Europeu (PE) e o Conselho da União Europeia concordaram com a proposta da Comissão Europeia (CE) de fixar uma meta vinculativa de 32% de energia obtida a partir de fontes renováveis até 2030. Uma meta saudada pela CE e que pode ser revista em alta até 2023 e constitui um ponto de equilíbrio entre os 27% aprovados em Dezembro pelos Estados membros e os 35% reclamados pelo PE. A decisão foi igualmente saudada pelo Director-Geral da Agência Internacional das Energias Renováveis (IRENA, na sigla em inglês), Adnan Z. Amin. Recorde-se que até 2020, 20% da energia consumida tem que provir de fontes renováveis, originárias de recursos naturais (rios, vento, biomassa, Sol, ondas do mar e calor da Terra).

De acordo com dados da IRENA divulgados em Março, no final de 2017, a capacidade global de geração de energias renováveis era de 2,179 GW. A energia hídrica representava a maior parcela dessa capacidade, com uma capacidade instalada de 1,152 GW. As energias eólica e solar correspondiam a capacidades instaladas de 514 GW e 397 GW, respectivamente. A bioenergia respondia por 109 GW de capacidade, a energia geotermal por 13 GW e a energia marinha (energia dos oceanos e das ondas) por 500 MW.

Em 2017, segundo a IRENA, a capacidade instalada de energias renováveis aumentou 8,3% (167 GW), tal como em 2016 e na linha de uma tendência de crescimento de 8 a 9 por cento ao ano registada nos anos recentes. A energia solar foi a que mais cresceu (+32%), seguida da energia eólica (+10%), bioenergia (+5%) e hídrica (2%). Em conjunto, as instalações de energia solar e eólica corresponderam a 85% da capacidade instalada ao longo de 2017. 

Em 2017, a Ásia representou 64% da nova capacidade instalada de energias renováveis (mais 58% do que em 2016). A Europa que expandiu a sua capacidade em 4,8% face a 2016 (24 GW) e a América do Norte em 4,9% (16 GW). Em África registou-se uma expansão de 9,2% (3,5 GW); na Eurásia foi de 5,4% (4,9 GW) e na Oceânia foi de 5,9% (1,5 GW).

A BP também refere que em 2017 a geração de energia nuclear cresceu 1,1%, sobretudo na China e no Japão, embora tivessem sido registadas quebras na Coreia do Sul e Taiwan.



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