Se o transporte marítimo vive dias angustiosos em muitos casos, dos contentores aos graneis secos, a situação dos petroleiros parece fugir à regra geral, talvez porque o próprio mercado também pareça estar a fugir do que era mais esperado ou mesmo tradicional.

Depois de 30 anos como ministro do petróleo da Arábia Saudita, Ali al -Naimi foi arredado da pasta pelo príncipe Mohammed bin Salman, que há dias apresentou o seu plano de reformas para o país. Com um PIB que depende 70% do petróleo Salman pretende agora diversificar as receitas. Durante anos o todo poderoso al-Naimi foi a voz da OPEP e qualquer reparo, mesmo que insignificante, fazia oscilar o preço da matéria-prima. Em Abril, na reunião de Doha, o seu poder foi eclipsado por bin Salman que decidiu que não haveria condições para congelar a produção da OPEP se o Irão não alinhasse. Para os especialistas foi um sinal claro que o reinado de al-Naimi chegara ao fim e com ele as políticas da OPEP. A substituição por al-Falih que presidia à Saudi Aramco significa que bin Salman é agora quem manda e não se coibiu de ameaçar que o país poderá no curto prazo aumentar a produção em 1 milhão b/d. Ao invés do esperado, quer pelo fracasso de Doha e das declarações do príncipe, o preço do petróleo tem vindo a subir. Tendemos a esquecer que as surpresas que causam paralisações na produção são uma ocorrência comum nesta indústria e o que se passou há semanas é um bom exemplo. Os incêndios que deflagraram perto das areias betuminosas no Canadá supriram cerca de 1.2 milhões de b/d e na Nigéria os ataques do grupo Niger Delta Avengers às plataformas e oleodutos da Shell e da Chevron diminuíram a produção em 500 mil b/d. A par destas ocorrências a produção da Venezuela, que enfrenta uma crise gravíssima, está em queda e o shale oil nos EUA diminuiu a sua produção em cerca de 900 mil b/d. Se no lado da oferta se assiste a disfunções a procura está pujante. A liberalização da importação de petróleo na China que tem permitido às refinarias uma margem vantajosa é apontada como uma das causas que explicam a subida no país de 13.4% de importações no primeiro trimestre de 2016 em relação ao ano anterior. Em Fevereiro, por exemplo, as importações de petróleo pela China atingiram um recorde de 8 milhões b/d, bastante acima se compararmos com a média de 2015 que rondou os 6.7 milhões. Também não é de desprezar a procura na Índia, que a nível mundial se está a tornar num dos maiores consumidores de petróleo cujas importações aumentaram no primeiro trimestre deste ano 400 mil b/d em relação ao ano passado. Inevitavelmente este aumento de consumo tem beneficiado os armadores de grandes petroleiros designados oficialmente por Very Large Crude Carriers (VLCC) que transportam mais de 2 milhões de barris por carga, provocando até congestionamentos nos portos chineses.

No ano de 2015 a queda acentuada do preço do petróleo foi fundamental para o bom desempenho dos VLCC que viram o preço do frete subir muito diferente da situação catastrófica dos graneleiros e navios de contentores cujo preço do frete atingiu mínimos impensáveis. Com o petróleo a atingir os 50 dólares por barril, 75% mais caro desde finais de Janeiro, o preço do frete dos VLCC poderá estar em risco?

Os relatórios de Maio das principais entidades energéticas apontam para um equilíbrio entre a oferta e a procura de petróleo ainda para este ano. Para a Agência Internacional de Energia o actual excesso de produção, em 1.3 milhões b/d, irá sofrer uma forte redução para os 200 mil b/d já no próximo trimestre. Em relação à OPEP, que se foca mais no longo prazo, o relatório dá ênfase aos drásticos cortes de capital, mais de 290 mil milhões de dólares entre 2015 e 2016 cujo impacto em novas prospecções diminuiu as descobertas em cerca de três milhões de barris, o valor mais baixo em seis décadas. Para a OPEP os sinais de convergência entre oferta e procura são reais e tenderão em breve para o equilíbrio. 

Para a consultora BIMCO, do lado da procura, a volatilidade do preço do barril de petróleo beneficia os petroleiros, pois as oportunidades de arbitragem são maiores do quando o preço estabiliza e o ano de 2016 não tem sido mau para a indústria. Do lado da oferta o excesso de capacidade de novas frotas poderá pressionar o preço do frete. Mas até agora só 4.35 milhões de DWT dos 21.4 milhões previstos pela BIMCO até ao final do ano estão disponíveis o que permitiu uma ligeira subida no preço no primeiro trimestre de 2016. Desde o início do ano e em relação a novas encomendas só apenas um pedido de VLCC se verificou em Abril, o que contrasta, segundo a BIMCO, com as 66 ordens de VLCC no ano de 2015. Sendo assim, e apesar da estabilização do preço do barril pelas principais consultoras, os petroleiros é o único sector desta indústria que deverá continuar rentável.  



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