Talvez, como raramente, as celebrações do último 10 de Junho deram uma imagem tão perfeita e completa da realidade actual de Portugal, como seria difícil, até hoje, imaginar possível.

10 de Junho, Dia de Portugal, do Anjo de Portugal, de Camões e das Comunidades.

O que fazem aí as Comunidades?

Nada, a não ser confusão _ talvez propositada, para fazer esquecer Camões, o Anjo e Portugal.

Ah!, evidentemente, num tempo de espectáculo e entretimento as Comunidades sempre permitem muito folclore e tudo centrar no acessório esquecendo o essencial, para que tudo corra breve, leve, muito alegre e, acima de tudo, não obrigue a pensar que isso maça e cansa.

Pois com certeza, a estafa de ler hoje Camões e, mais ainda, os Lusíadas, para quê?

«Entendei que, segundo o Amor tiverdes / Tereis o entendimento de meus versos»?

O que é que isso quer dizer? A quem é que isso interessa?

Que podia saber o pobre Luís Vaz que não saibamos nós, hoje, desde a mais tenra infância?

O Poema marca também, de forma crucial, a profunda divisão que sempre houve entre um Portugal Atlântico e um Portugal Continental?

E depois?

Isso, hoje não sucede já. Muito unidos, cheios de afecto, a irradiar confiança e estabilidade, não celebramos hoje todos, afinal e acima de tudo, a veneranda figura que do cais do Restelo invectivou para todo o sempre a «dura inquietação d’alma e da vida»?

Para quê, de facto, o alvoroço, o desassossego d’alma, se tudo quanto é necessário é «ordem e progresso», estabilidade, e muito afecto (nunca esqueçamos o afecto), para uma vida feliz?

Entreguemo-nos, pois, ao doce remanso dos dias, sem mais, e saibamos ser felizes, libertos de preocupações porque há quem permanente e incansavelmente zele pelo nosso futuro e se dúvidas tivermos, com sabedoria iluminará, com toda a certeza, a nossa incompreensão do mundo e da vida, explicando-nos que, seja como for, mesmo que não entendamos porquê nem se há porquê ou para quê, no fim, triunfaremos sempre.

Bendita hora.

Assim seja!



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